
Antes de escrever sobre o assunto, já respondo à pergunta-título: Não sei. Pelo menos não exatamente, mas tenho cá minhas desconfianças.
Se falarmos especificamente dessa copa, posso dizer apenas que nenhum dos representantes do continente, ou nenhum à exceção da perigosa Costa do Marfim, é tecnicamente forte a ponto de sonhar com o título. É minha opinião, apesar das típicas surpresas copeiras que poderiam, por exemplo, colocar Gana numa final. Algo praticamente impossível para esta edição, mas não 100% impossível, como seria para Nigéria, África do Sul, Argélia e Camarões, este, já eliminado.
Não vi jogo algum de Camarões em 2010. Sei por terceiros e por reprises e VTs que não têm um grande time e que o duelo de hoje contra a Dinamarca foi um dos mais emocionantes da copa até aqui.
Por outro lado, acompanhei as performances de Costa do Marfim e Gana. Sobre a primeira, escrevi na parte 4 dessa série de postagens. Sobre a segunda, também, mas de modo menos elaborado, enfatizando que sua cara ainda não havia sido bem mostrada na competição, apesar da estréia vitoriosa contra os sérvios.

Basicamente, esse time ganês é o mesmo de 2006, joga parecido, porém sem dar aqueles moles de ter uma linha de impedimento hiper avançada falhando e cedendo jogadas de lançamento e contra-ataque. Italia e, principalmente, Brasil, se beneficiaram dessa fragilidade.
Vendo Gana, uma equipe respeitável, atuar, começo a entender um pouco desse mistério de, mesmo apresentando times tecnicamente bem dotados há pelo menos 20 anos, a África sequer ter chegado a uma semi-final, ao contrário, por exemplo, da Ásia, que sempre foi mais correria e disciplina do que técnica e esteve entre os quatro grandes pelo menos uma vez.
Há um tempo, os mesmos africanos vêm procurando mudar sua maneira de jogar, abdicando de um futebol mais vistoso em prol de um estilo físico com marcação e alguma disciplina tática. Seleções como Nigéria e Camarões não são hoje sombra daquelas que lhes alçaram fama no passado. Já Gana e Costa do Marfim, ascendem como as forças do momento entre os representantes da CAF.

Mas, voltando a Gana, mais precisamente à Gana X Austrália, o que vimos foi um time claramente superior no aspecto técnico começar o jogo sendo quase sobrepujado pela postura tática do adversário nos primeiros minutos. Exagero? Ok.
Gana não foi sobrepujada exatamente, mas teve sua superioridade anulada pela aplicação dos australianos, que estavam um pouco melhores na partida até a Jabulani fugir das mãos de Kingston e cair no pé de Holman, que marcou o primeiro gol canguru.
Atrás no placar, Gana sai para o jogo e sua superioridade em material humano começa a ficar evidente. Ayew faz um carnaval na grande área, cruza pela direita, Mensah chuta e a bola bate na mão de Kewell quando ia para o gol. Penalty e expulsão de Kewell. Gana empata e passa a ter plenas condições de matar o jogo com um a mais em campo.
Daí até metade do segundo tempo, foi Gana jogando como queria, mandando na partida e desperdiçando oportunidades. Chutes, chutes e mais chutes de Gian e companhia, passes e cruzamentos fora do tempo certo, relógio andando, a paciência acabando e os australianos começando a gostar da peleja até perderem uma grande chance com Wilkshire que poderia ter liquidado a fatura, apesar da pressão adversária. Perto do fim, mesmo com um a menos, os socceroos inteligentemente impediram que sua inferioridade se concretizasse no marcador e evitasse o empate.

Para não enrolar com a conversa, vou direto ao ponto. Gana tem material humano mas falta a inteligência, a frieza e a precisão de acertar em detalhes mínimos que transformam uma potencial chance de gol em uma oportunidade clara e quase imperdível. Varios contra-ataques mortais se esvaíam em passes dados com o centro-avante impedido, ou fora do tempo de bola, ou um jogador subindo livre pelo lado direito sem receber a redonda porque o colega preferiu dar um chute de qualquer jeito de fora da área. E como gosta de chutar esse time. Em 2006, foi um festival de gols perdidos contra República Tcheca e Brasil porque os avantes não se prestavam a negociar o detalhe da jogada de ataque antes de arrematar. Ficavam com medo, ou com pressa e bicavam de qualquer jeito. Perdiam o gol e não entendiam porquê. Gana quase se complicou hoje com a Austrália mais ou menos assim. Não quis ou não soube trabalhar o acabamento de suas jogadas de ataque, que é o que as torna potencialmente mais letais antes da conclusão. Faciltaram a vida do goleiro Schwarzer.

De Gana, transportamos nossos pensamentos para outros selecionados da história africana em mundiais. Em 90, Camarões tinha um excelente time, superior à Inglaterra que enfrentaria nas quartas-de-final, dominou o embate em vários momentos, mas não soube liquidar, e aos poucos os ingleses desestabilizaram os africanos, descolaram seus penaltys e os gols que os colocariam entre os quatro grandes de então.
Uma copa depois, quem encantou o mundo foi a Nigéria, derrotando Bulgária e Grécia, saindo na frente contra a Itália, desperdiçando gols incríveis quando tinha pleno domínio do jogo, incluindo um estúpido chute de letra que bateu na trave por preciosismo do atacante. Perto do fim, a Itália empata, depois vence na prorrogação, e os africanos perdem de novo para si mesmos.

Em 98, a Nigéria elimina a Espanha, para depois perder para o Paraguai e ser goleada por uma inteligentíssima Dinamarca.
Em 2002, foi a vez do Senegal chegar longe, batendo França, Dinamarca e Suécia. A derrota que gerou sua eliminação não merece ser incluída nessa lista de equívocos africanos, pois perderam uma partida normal, em que o adversário soube diminuir a força de seu jogo até equilibrá-lo e fazer o gol de ouro. O grande vacilo do Senegal ocorreu antes, quando tinha a vaga para as oitavas quase assegurada no último jogo da fase de grupos contra o Uruguai. Precisava só de um empate e terminou o primeiro tempo vencendo por três a zero, mas não soube administrar a vantagem no segundo, deixando os sul americanos empatarem. Por muito pouco, eles não viraram e venceram. Tiveram até bola na trave nos últimos minutos, mas a sorte ajudou os africanos nessa.
2006, Gana domina o Brasil a maior parte do tempo e mesmo assim perde de 3 x 0 após desperdiçar chances e mais chances enquanto os brasileiros, espertíssimos, liquidaram a fatura em cima de uns poucos erros dos black stars. Na primeira fase, a Costa do Marfim chega atropelando contra Argentina e Holanda mas perde em minúcias defensivas e está fora da copa do mundo.

E então voltamos à 2010.
Até aqui, a Costa do Marfim vem se mostrando um time aplicado, apesar das chances de gol perdidas na segunda etapa do jogo contra Portugal. Se os "elefantes" conseguirem manter esta coesão contra o Brasil, quer joguem para ganhar ou empatar, podem fazer frente ao gigante das américas e seguir adiante no mundial. Se vacilarem em detalhes de novo, se não arrematarem a partida, caso a tenham na mão, se não souberem lidar com cada contexto situacional ao longo de noventa minutos, quer favorável ou reverso, se cometerem equívocos defensivos, vão parar na lista dos "ininteligíveis" fracassos africanos que poderiam ser sucessos na história das copas.
0 comentários:
Post a Comment