
Grupo G está decidido. Uma armadilha se desenhava em torno da seleção brasileira, ameaçando-a com o fantasma de 1966. Um simples empate contra a Costa do Marfim nos obrigaria a vencer os Portugueses para não depender da Coréia do Norte na luta por uma vaga nas oitavas.
Mas, vencemos, então a batata quente passou para as mãos dos marfinenses, que, decretada a goleada portuguesa de 7 x 0 sobre os filhos de Kim Jong-il, podem se considerar eliminados. Portugal e Brasil disputam seu último jogo da fase de grupos preocupando-se apenas com o primeiro lugar da chave. A combinação de resultados que classificaria a Costa do Marfim beira o terreno do fictício.

Svengoran Erikson, técnico dos "elefantes", dava a entender em suas entrevistas que jogaria retrancado, buscando o empate, mais ou menos como fez a Coréia do Norte em sua estréia, fugindo das características de sua seleção. Depois, anunciou que preparava uma surpresa e, de fato, sua equipe optou por marcar o Brasil no campo de ataque e tentar, aos poucos, assumir o comando da partida, endossando a condição de time forte que o país conquistou nos últimos anos, com justiça. Não tem uma equipe de fragilidades como a África do Sul, e quis jogar o que sabia contra o Brasil, afinal, enfrentar o gigante das américas numa copa do mundo não é algo que acontece todo dia.
Fez certo. Chegou a ceder um contra-ataque no início da partida, que Robinho desperdiçou num arremate quando poderia muito bem ter tocado para Luiz Fabiano no início da jogada. Aos poucos, os elefantes ganharam confiança e seguraram o ímpeto canarinho, que se perdia em passes mal dados para Michel Bastos e subidas frustradas de Kaká, sobrepujado pela condição física de seus marcadores.

Aliás, esse aspecto do jogo foi determinante. Os volantes do Brasil, acostumados a levar a melhor nos embates físicos que incutem contra meio-campistas e atacantes adversários, ganhando dividídas, disputas aéreas e "corpo-a-corpo" antes de iniciar seus mortais contra-ataques, sentiram falta desse recurso, uma vez que sempre levavam desvantagem em relação aos truculentos marfinenses, cedendo-lhes a posse de bola quando ela se definia em disputas desse tipo. Kaká também sofreu muito com os embates físicos, e mais ainda com as entradas desleais dos africanos, que o juiz deixou passar impunes.
A Costa do Marfim conseguia tocar a bola em nosso campo, mas poucas vezes levou algum perigo a Julio Cesar no primeiro tempo, enquanto o Brasil já ameaçava encaixar uma jogada de perigo. Felipe Melo, Robinho, Kaká e Luis Fabiano trocaram passes e furaram a defesa marfinense. O Fabuloso, quase sem ângulo, desferiu um chute monumental e indefensável, rompendo o "quase impasse" enxadrístico do jogo de paciência entre as duas equipes.

Desse ponto em diante, houve um recuo dos africanos até o fim do primeiro tempo. A etapa complementar começou tão física quanto a anterior, e, pouco a pouco, os brasileiros tentavam fazer prevalescer seus passes e triangulações, como um Kaká ainda pouco inspirado, mas, mesmo assim, decisivo.
O segundo gol veio pelo alto, não numa jogada construída, e sim numa bola disputada. Cabeça, ombro, uma ajeitada malandra de braço e um golaço que, se 100% regular, entraria para a história como um dos mais espetaculares das copas. Com o toque no braço do atacante, virou uma mistura de Pelé contra a Suécia e Maradona contra a Inglaterra. O árbitro não tinha total certeza se a matada foi de peito, ombro ou braço, e, temendo invalidar uma obra-prima legítima, quis conferir sua autenticidade com o próprio autor. O "fabuloso", claro, assinou, e uma vitória foi se desenhando.

Mas o jogo ainda estava longe de acabar. Kaká acordou, passou a colaborar mais com Michel Bastos pelo lado esquerdo e construiu a jogada do terceiro gol, feito por elano. Três a zero; o Brasil se empolgou e começou a trocar passes de primeira perigosamente no meio campo. A cada interceptação, um potencial contra-ataque adversário.
Os africanos, humilhados no estilo de dribles e jogadas de efeito que lhes rendeu identidade ante os europeus em copas recentes, mas no qual são aprendizes históricos ante os brasileiros, perderam a cabeça e começaram a bater, como normalmente fazem nessas condições. Não aceitam que sejam eles os "joão-bobos cinturas-duras". A pancadaria se intensifica e o juiz se omite. Uma entrada criminosa em Elano; provocações e agressões em Kaká, um gol fortuito de Drogba na tradicional cochilada de nossos defensores, que já viam o resultado consolidado, e um clima de guerra tomou conta dos minutos finais. Kaká é flagrado empurrando Thouré e advertido com um amarelo. Minutos depois, tenta ingenuamente se proteger com o cotovelo e gera uma performance teatral em Keitá digna do Framboesa de Ouro. O árbitro, já perdido na própria confusão que ajudou a criar, dá o segundo amarelo a Kaká, que o tira de campo. A Costa do Marfim tenta mais um golzinho e Julio Cesar opera um milagre, tirando uma bola certa da cabeça de Drogba, melhor em campo entre os elefantes.

O Brasil venceu um jogo difícil num grupo difícil e mostrou ao mundo que tem elenco para encarar grandes confrontos, mas, além de revelar falhas, saiu de campo com um prejuízo pesado. Kaká não jogará contra Portugal. Pior, corre até risco de ficar suspenso para as oitavas de final, e essa seleção ainda não provou que é capaz de sobreviver e sequer ser uma grande força sem a presença desse jogador, que mesmo atuando mal, faz toda a diferença do mundo, uma vez que o modus-operandi do grupo com a bola no pé gira em torno do que ele faz, ainda que não toque na bola.
Ronaldinho, a meu ver, seria uma opção razoável para a reserva de Kaká. Dunga não o convocou por motivos que são discutidos até hoje e já foram deliberados neste blog. Não se sabe se Julio Baptista, Nilmar ou Robinho desempenhará o papel de eixo do meio-de-campo em sua ausência. Não se sabe se esse Brasil pouco criativo mas muito combativo manterá seu nível ofensivo de eficiência. O grande ponto de interrogação levantado na convocação dos 23 de Dunga será respondido daqui a 4 dias.
O que será do Brasil sem Kaká?
Os riscos de um gancho de dois jogos são remotos, mas existem. O provável e razoável é que ele pegue só um jogo mesmo.
O triunfo contra os elefantes pode ter nos custado caro demais nessa copa. Sequelas naturais de um "grupo da morte".

Sobre Portugal 7 x 0 Coréia do Norte
A Coreia do Norte foi mais uma vítima do complexo de cinderela nesse mundial. A isolada nação socialista se iludiu com o placar da estréia e achou que podia contra Portugal. Esqueceu a retranca e partiu para um jogo franco e corajoso que até produziu equilíbrio nos primeiros minutos, quando deram trabalho para o goleiro Eduardo em chutes de fora da área. Aos poucos, a verdade da diferença técnica entre as duas equipes foi se tornando visível. O gol de Portugal amadureceu e saiu aos 28 minutos com uma bela jogada em que Raul Meirelles vem de trás e recebe de Tiago após ultrapassar a linha defensiva adversária. O primeiro tempo terminou assim, um a zero, mas o segundo deu as caras anunciando furacões quando Simão, aos 8, recebe na frente do goleiro Myonge Guk e põe para dentro. Daí em diante, é Portugal humilhando a terra de Kim Jong-il via satélite na primeira transmissão ao vivo da performance de sua seleção em copa do mundo para o povo norte-coreano. Sete a zero. Goleada homérica. Resultado que mais reflete o real tamanho do time que a honrosa e suada derrota conseguida contra o Brasil após quase noventa minutos de abdicação de jogo. Quando quiseram jogar futebol, a copa do mundo não mostrou clemência. Foram, pelo menos, corajosos. Ingênuos, mas corajosos, e nunca se sabe o que o futuro lhes reserva no terceiro jogo, embora eu aposte em uma goleada marfinense.
Empolgados e desencantados, os lusitanos de Queiroz parecem ter achado seu jogo e enfrentarão o Brasil com a mesma confiança que os verde-amarelos conquistaram em cima dos elefantes.
E sem Kaká.
Vejamos o que acontece.
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