obs: A "teoria" dos dois primeiros parágrafos pode sim ser furada

1 - O verdadeiro sonho do hexa começa em 2010
É fácil dizer isso agora, depois da derrota do Brasil, mas, na minha cabeça, essa "tese" já existia há um tempo (devia tê-la postado aqui para depois mandar o velho: "eu te disse, eu te disse"). O sonho do hexa ainda não existe. Pode estar começando agora, em 2010. Entre 2002 e hoje, o que existia no torcedor era um desejo, uma vontade de repetir experiências vitoriosas frescas em nossa memória. O penta-campeonato ainda é fato recente. A sede do público pela conquista do hexa e a desilusão pela honrosa derrota contra a Holanda, apesar de existirem, não se comparam à força das frustrações dos tempos da busca pelo tetra, a cada vez que perdíamos. Tínhamos e temos a hegemonia de cinco títulos, contra quatro da eliminada Itália e, se Deus realmente for brasileiro, 3 da Alemanha. Uma supremacia histórica solidificada e ainda próxima de nosso tempo. Mas 2002 vai ficando para trás, vai virando passado, como também as três finais consecutivas entre o tetra e o penta, e, devagar, o Brasil volta a ser aquele time que nunca passa das quartas de final.
Assim começará o real sonho do hexa, a verdadeira sede pelo sexto título. Na copa de 2014, em casa, o torcedor será bem menos benevolente com o brio do time. Será implacável e injusto como nos tempos do jejum de títulos, e aí saberemos que o desejo visceral de vencer uma copa para reendossar a auto-estima do país do futebol voltou a se apresentar entre a torcida. Três finais consecutivas e uma eliminação displicente fez o brasileiro esquecer do quanto é difícil ganhar uma copa. Estamos voltando a lembrar.

Para os jogadores sim, o sonho talvez existisse, não o do hexa, mas o de um título, pessoal e para a torcida, e, francamente, não se pode dizer que nossa seleção não teve espírito de copa do mundo na África. Teve defeitos, muitos dos quais enumerei aqui, como a dependência em Kaká sem que houvesse um substituto, mas sexta-feira esse problema não apareceu porque Kaká jogou, mesmo que abaixo da capacidade. Outro defeito, o de só atuar de um jeito, de abrir mão da técnica apurada de craques em prol da "mentalidade vencedora" de atletas menos talentosos, para construir um grupo coeso, leal, "raçudo", pode ter sido levada ao pé da letras demais, e montamos um meio-de-campo não tão bom, uma forma de atuar unilateral, poucas peças sobressalentes e um futebol que às vezes falhava na falta de refinamento e precisão de jogadores como Daniel Alves, que são bons, mas não craques, embora tratados como tal. Pense em Ronaldinho batendo aquela falta no fim da partida, ou todos os escanteios do jogo, colocando a bola com precisão na cabeça do atacante, mas até que ponto isso realmente fez diferença para esse duelo em particular contra a Holanda, não podemos saber. A carência de talento que mais apareneceu ontem não tinha remédio, pois era na lateral esquerda, onde não possuímos jogadores de nível em todo o plantel nacional, dentro e fora de nossas fronteiras. E a diferença entre a atuação primorosa do Brasil no primeiro tempo e a queda de rendimento no segundo esteve também na esperteza dos holandeses, que deslocaram seus dois melhores jogadores para aquele setor, sobrecarregando Michel Bastos, o elo fraco da equipe. Foi nessa atitude que a Holanda começou a ganhar o jogo.

2 - O descontrole
Outro fator preponderante foi o preparo psicológico das duas equipes para as adversidades naturais de uma partida como aquela. O histórico recente dos clássicos entre Brasil e Holanda em copas mostra que, pelo menos nos dois embates dos anos 90, houve uma série de mudanças situacionais ao longo da partida. Um time começou na frente, o outro empatou e o outro buscou o resultado. Não houve aquela coisa de um fazer gol e a partida não mudar mais, como também não houve o tal "tomamos um gol e está tudo perdido". O scratch de Dunga devia estar preparado para não se deixar levar demais pela euforia de um gol a favor ou pelo choque de um gol contra, como se o resto da partida fosse se definir em função de um estado de coisas momentâneo. Tanto em 94, quanto em 98, quanto hoje, o Brasil errou nesse ponto. Empolgara-se em demasia com o 2 x 0 de Bebeto no mundial dos E.U.A., abateu-se em excesso com o 2 x 1 de Bargkamp e por isso tomou o gol de empate, mas soube reganhar a postura em campo e marcar o terceiro com Branco. Em 98, levou um balde de água fria com Kluivert aos quarenta e tantos e só não tomou o cheque-mate em seguida porque a partida estava perto do final e Zagallo pôde aproveitar o intervalo para fazer sua magia recuperar o brio do elenco abatido. Sob esse aspecto, da frieza e da aptidão em não perder o foco no jogo em função de um placar adverso, os holandeses sempre nos venceram nesses encontros.

Ontem, o gol fortuito de Snijder conseguiu mais do que empatar um clássico. Desestabilizou a já tênue coesão do time brasileiro, e a velha tendência de cair no desespero das jogadas individuais tomou conta de nossos 10 minutos seguintes. Só que essa seleção de méritos coletivos já não possui os méritos individuais das antecessoras. Não pode contar com esse recurso como estas podiam. Uma vez que o coletivo pife, a máscara do individual cai e ele se revela frágil. Jogadores como Daniel Alves, Maicon e Michel Bastos mostram que são menos diferenciados do que se pensa, embora bons. Kaká, Robinho e Luis Fabiano não são eficazes sem união, não podem, como podia Ronaldo, ou Rivaldo ou Romário, chamar o jogo para si e tentar resolver na marra, quando nada mais funcionava. Os maiores craques desse time eram Juan e Julio Cesar; defensores, e até fizeram milagres na etapa final, evitando que a Holanda utilizasse nosso desespero para emplacar uma goleada.
Antes desses riscos de suicídio, houve o segundo gol da laranja, oriundo de um misto de sorte, mérito e demérito. A sorte foi a falta que Robinho sofreu ao puxar um contra-ataque pelo lado esquerdo, que o juiz ignorou, gerando outro contra-ataque para os holandeses. O demérito era a fragilidade desse setor, que obrigou Juan a interferir e precipitadamente mandar a bola para corner. O mérito? Da Holanda. Numa belíssima jogada ensaiada que colocou Sneijder na cara do gol.
Depois disso, mais desespero, mais falta de opções, umas boas chances de gol, um cartão vermelho para Felipe Melo, que caiu na pilha que a laranja armou desde o início; meia dúzia de contra-ataques holandeses que quase aumentaram sua vantagem, falta de comando no ataque, Kaká descobrindo a fragilidade do lado direito da zaga adversária, pedindo o jogo por ali, mas sumariamente ignorado pelos colegas que nem sempre acompanham seu raciocínio e inteligência, etc, etc. Escolaridade talvez faça falta nessas horas. Felipe Melo, ao contrário de Kaká, fugiu do colégio.
3 - Bope verde e amarelo
O comentarista José Trajano, da ESPN Brasil, fez uma observação interessante, tomando emprestada a frase de outro jornalista. "Viva Dunga, abaixo o Dunguismo", ressaltando as qualidades e o retrospecto positivo do trabalho do treinador enquanto criticava a postura pilhada e isolacionista que ele implementou ao selecionado. Jogadores como Robinho e Kaká, que não perdem a serenidade, não brigam e não costumam se meter em confusões, eram frequentemente flagrados com raiva, xingando, bufando, brigando, peitando o juiz, como se durante a concentração fossem induzidos ou orientados a assumir uma postura mais "Dunga" entre as quatro linhas, assim como o resto do grupo. Um Bope verde e amarelo, com atletas gritando "Caveira" enquanto a bola rolava. A Holanda analisou nossos jogos anteriores e viu nisso um ponto fraco. "Vibração" confundida com destempero. O treinador dava seus ataques na área técnica e o jogador o acompanhava em campo. O Juíz, fraco e indiretamente responsável por tornar viável a malandragem holandesa, ignorando infrações importantes a nosso favor, exercia seu papel de cúmplice. Talvez um Dunga em campo pudesse concentrar toda essa raiva em si, deixando aos demais papéis mais serenos. A bomba Felipe Melo explodiu e não adianta baterem na tecla de que ele não devia estar em campo. Quem jogaria em seu lugar? Josué? Tente imaginar o primeiro gol com um passe de Josué. Dunga não tinha escolha. Pode ter errado em convocações, mas não tanto na hora de escalar.

4 - Brasil perdeu de pé
Fora as críticas, deve-se admitir que o Brasil enfrentou um adversário de peso, daqueles contra os quais se vence ou se perde por detalhes fortuitos, então perder para a Holanda de 2 x 1 jogando bola não é uma catástrofe, não é para se envergonhar. Fácil para mim admitir isso agora, e talvez menos em uns 4 ou oito anos, ante uma derrota igual, quando não mais estivermos semi-saciados daquela antiga fome de títulos a ponto de encarar uma eliminação decente como tal em vez de atentado futebolístico. Por enquanto, com o penta recente, dá para digerir a eliminação como ela foi. Em 2006, sim, fizemos uma copa vexaminosa com mil e um defeitos, mesmo contando com a sorte de sair nas quartas de final perdendo de um a zero.
É sensato que os críticos hoje batam nas teclas que bateram antes, se pertinente for a relação delas com o resultado adverso. Minha tecla principal era o substituto de Kaká, que não fez falta ontem como faria em uma eventual ausência desse jogador. Quem me acompanha nesse blog sabe que sempre fiz uma série de outras críticas às visões do treinador, como também elogios. Parte dessas críticas fez diferença anteontem, parte não. No geral, o Brasil saiu da copa pela porta da frente, e para 2014 valerão mais as lições do que deve e do que não deve ser repetido. Abrir mão do talento diferenciado não é exatamente uma alternativa saudável, como pensou nosso treinador. Técnica individual faz diferença em jogo de alto nível, como também faz o trabalho de grupo enfatizado por Dunga.
Deve-se também pensar sobre os acertos, em como não desfazer alguns progressos oriundos de seu trabalho na seleção, em como não repetir o maior erro de Dunga, que foi desconsiderar tudo o que tinha a ver com 2006, sem fazer reflexões mais profundas. Entre os pontos positivos que Dunga acrescentou: mais jogada ensaiada, mais consistência, alternância de quem bate e quem recebe o cruzamento, mais padrão de jogo, equilíbrio, defesa, defesa pelo alto (irônico, considerando esse jogo), futebol coletivo.
Outra crítica que elaborei durante a Copa das Confederações e que vale para essa partida está na incapacidade do Brasil de mudar sua maneira de jogar, uma vez que o adversário passe a atuar diferente. O tal plano B e a versatilidade. A Holanda não permaneceria jogando igual no segundo tempo, depois de ir mal no primeiro. Mudou, usou o lado esquerdo da defesa brasileira, matou as jogadas de contra-ataque pelo meio, induziu Felipe Melo e Daniel Alves a dar passes equivocados, conseguiu um gol meio fortuito, e calou o jogo do Brasil, que teve dificuldades para mudar, como também teve na maioria dos embates da Copa das Confederações, à exceção do segundo tempo da final contra os Estados Unidos. Não é que o Brasil jogou pior no segundo tempo de ontem, como alegam tantos. A Holanda é que melhorou e, consequentemente, o Brasil decaiu. Não soube lidar com a mudança, nem tatica, nem psicologica, nem individualmente. Deméritos do treinador e dos jogadores.
Ressalto, todavia, que não se deve repetir o erro-mor da gestão Dunga e Jorginho, que foi passar uma borracha em tudo que o antecessor fez. Dunga deu muitas boas contribições como técnico, que merecem ser mantidas na seleção, assim como ele próprio merece seguir carreira como treinador.
Como disse eu mesmo em outro post. Nem oito, nem oitenta, porque perder também faz parte.
Fazer igual à Rede Globo hoje, comaparando 2010 com 2006, também é um absurdo. 2006 não foi um fiasco pelo retrospecto estatístico da campanha, não foi vergonhoso porque perdemos nas quartas-de-final. Se levarmos para este lado, colocaremos 2006 no mesmo patamar de 82. Há quatro anos, o Brasil teve sorte de chegar às quartas, apesar do time que tinha, e muito em função de talentos individuais que hoje não possuímos na mesma proporção. O trabalho de 2010 teve muitos méritos em relação à 2006, copa em que só fizemos um bom jogo, e com a equipe reserva. Em 2010, sequer tínhamos uma equipe reserva, e fizemos pelo menos 3 boas partidas, incluindo, admitamos, a derrota de sexta-feita, apesar de todos os defeitos já enumerados. 2006 foi uma vergonha pelo conjunto da obra nos cinco jogos disputados, onde dependemos de gols quase fortuitos para prosseguir, e da atuação insignificante diante da França, quando o goleiro adversário fez sua primeira defesa aos quarenta e tantos da segunda etapa. Zidane e a França humilharam o Brasil. A Holanda apenas nos venceu. Teve mais cabeça. E só.
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