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Sunday, July 05, 2009

Copa das Confederações - Parte IV



Pode-se dizer que a derrota norte-americana para o Brasil de domingo passado pela Copa das Confederações foi a primeira experiência real dos Estados Unidos com sua seleção de futebol masculino, o primeiro trauma, o primeiro momento em que este país, seus cidadãos comuns, muitos deles pouco interessados ou relacionados com o "soccer", acompanhou a seleção nacional, torceu, desejou ver a nação de John Wayne triunfando no futebol como representante legítimo da auto-estima do país. Vibrou com o "dois a zero" um pouquinho como nosso Brasil na copa de 50 ao se ver pela primeira vez alçado à condição de grande força desse esporte, e lamentou em proporções reduzidas como nós lamentamos ao perder a final do torneio de virada. Não houve mais aquela honra de time pequeno pela respeito conquistado, o "estamos contentes por chegar até aqui". O espírito americano de "não podemos perder" enfim se encontrou com a seleção, e eles quiseram ser os Estados Unidos também no esporte mais popular da terra, mesmo que por um instante. Fãs de longa data do "soccer" no país pararam de torcer para seus times estrangeiros favoritos. Spike Lee parou de torcer pelo Brasil. Quem até então cagava e andava para o time de Donovan e companhia, no mínimo, soube do que acontecia na África do Sul como saberia de uma decisão da NBA, NFL ou Major League Baseball. Até então não havia isso. Talvez houvesse se ganhassem do Brasil em 94 ou da Alemanha em 2002, mas os Estados Unidos só aceitam torcer para seu time de futebol quando ele estiver entre os grandes para então ser chamado de "Estados Unidos". O triunfo sobre a Espanha trouxe esse espírito, que seria, pelo menos na mente ianque, consolidado com uma vitória sobre o Brasil, e David Letterman, Oprah Winfrey e tantos apresentadores, atores, cantores e personagens de seriado que conhecemos há gerações falariam mais de copa do mundo, de seleções de futebol e do Brasil de chuteiras, que parece não existir no planeta dessas celebridades. Sim, tirariam uma baita onda, como quis Aschton Kutcher no Twitter enquanto perdíamos de dois a zero. Seria a nova vitória no Hockey contra a Rússia em 80.

Perderam, para nosso alívio. Mesmo assim, o americano comum sentiu enfim o gostinho de uma "World Cup experience" e aquele desejo genuíno de vencer, de mostrar que seu país "pode", de reverter um trauma de batismo, e se essa coisa seguir como ocorreu aqui em 50, veremos o "gigante americano" se esforçar como jamais fez para integrar o mundo e a história do futebol internacional, como já faz no feminino.


Saturday, January 03, 2009

Patos pós-modernos



Assisti ontem ao filme Borat, com o audaciosíssimo Sasha Baron Cohen. O projeto funciona como um experimento e, segundo os envolvidos, muitas mudanças nos rumos do roteiro precisaram ser feitas, uma vez que ele foi posto em prática. Sasha já era conhecido na Inglaterra por personagens como Ali G – uma sátira à moda Gangsta Rap e aos wannabes do gênero e pelo próprio Borat que já tinha quadros no programa de Ali G. Nos Estados Unidos, sua popularidade era menor, mas ele já havia feito uma apresentação no show de David Letterman bem antes do famigerado filme ser lançado por lá.

Para quem não sabe, Borat, o personagem, é um repórter do Cazaquistão que faz um documentário nos Estados Unidos destinado a seus conterrâneos, mostrando, através de entrevistas com os americanos, as virtudes do povo que habita a nação mais poderosa do planeta.

Com este discurso em mãos, Borat convence suas vítimas a participar do experimento, que na verdade é uma grande pegadinha. Tanto o personagem quanto sua terra de origem são retratados no filme de modo absurdamente estereotipado, rude e politicamente incorreto, mas, no caso de Borat, verossímil o bastante em seu sotaque e trejeitos para serem tidos como reais pelos entrevistados. Com isso, o projeto expõe as limitações, a ignorância e a hipocrisia de algumas alas do povo americano aprisionadas em seu narcisismo ideológico de donos da verdade.

Um olhar mais atento nos mostra que o filme vai além disso. Na verdade, nem todos os supostos participantes involuntários do projeto são, de fato, vítimas, e com isso, Borat revela que somos nós também patos da pegadinha.



Mas Borat não é só uma pegadinha. É a celebração de algo que vem acontecendo na TV há tempos: uma mesclagem entre as linguagens tidas como ficcionais e realistas ao ponto do espectador se perguntar onde uma coisa acaba e a outra começa e, num nível mais profundo, aperceber-se de que os dois já se fundiram numa coisa só e geraram novos gêneros narrativos que o público atual não tem dificuldade para assimilar. Borat existe e não existe. Nós "existimos" e "não existimos". O mundo do espetáculo pode ser mais real que a realidade, ou ser a própria realidade. Pode se divertir com nossa passividade existencial como nos divertíamos com os espetáculos antes deles nos tornarem passivos. Somos espetáculo. Espetáculo do espetáculo. A vida é um complexo de peças operadas pela indústria cultural.



Andy Kaufman tinha feito isso nos anos oitenta, mas seu público era diferente e o resultado das pegadinhas que armava com celebridades se fingindo de vítimas e confusões simuladas para acarretar reações no público em programas ao vivo foi um turbilhão de problemas que praticamente o tiraram do showbizz e impediram que alguém noticiasse seu câncer até a morte do ator comprová-lo.

O espectador pós-moderno não liga em ser manipulado, em descobrir que a verdade era mentira, que a mentira era verdade, que a verdade pode ou não ser mentira e que a ausência de mentira ou de verdade é uma realidade. Borat celebra (sacaneando) esse mundo. "O que é o Cazaquistão? Um país? Ah, aquele país fictício que aparece no filme do Borat, mas existe de verdade. O tal carro de sorvete percorreu mesmo os EUA? A pegadinha da Pamela Anderson foi armada? Quantos documentaristas, de fato, ficavam atrás das câmeras enquanto as vítimas eram filmadas?" Sei lá. Nem quero saber. É cinema e televisão, e o que vale é o que aparece. Sempre foi assim, mas talvez nenhum público estivesse tão pronto para encarar isso de modo mais assumido e relaxado como nas duas últimas décadas, estendendo isso a seus cotidianos.



Ah, tudo bem! Falando na boa... Fiquei sim curioso e dei uma pesquisada na pegadinha da Pamela Anderson para saber se foi armada. Foi. Descobrir isso me fez gostar mais da moça que, cá entre nós, mandou bem para diabo ao ser ensacada e fugir. Não consigo deixar de rir ao rever o trecho. A luta dos caras nus também foi qualquer coisa de sublime.

Há cenas inéditas de Borat nos EUA filmadas para sua série britânica, com o título de "Guia de Borat para os EUA". Parte desse material pode ser acessada através do youtube. Veja alguns episódios:

1 - Borat visita uma partida de Baseball

2 - Borat não consegue entender o sentido de um museu na California, tenta comprar um escravo e vai a outro rodeio.

3 - Aprenda a se defender da garra de um judeu

4 - Borat no clube de tiro

5 - Borat aprende a degustar vinho

6 - Borat toma aulas de boas maneiras

7 - Borat participa de um encontro arranjado, mas antes, pede dicas à conselheira

8 - Borat na academia

9 - Borat conversa com um anti-semita e quer aprender a caçar judeus

E não é só nos States que ele expõe o preconceito da galera não. Dois quadros do Guia de Borat para a Grã Bretanha:

1 - Borat na universidade de Cambridge, expondo o machismo da galera e aprendendo a jogar criquet.

2 - Borat aprende a flertar e a ser um cavalheiro


Saturday, November 15, 2008

Amiga da Onça


Depois das porradas, o cinismo. Sarah Palin atacou Barack Obama de tudo quanto é jeito em sua campanha. Associou-o ao terrorismo, ao socialismo, à William Ayers e um monte de gente considerada perigosa pela ala paranoica do povo americano, e isso sem jamais exibir provas para suas alegações. Agora o cara está lá, na Casa Branca, e todo mundo vira amiguinho, todo mundo vem puxar o saco, não é Sarah?

Segue o texto retirado do Site Globo.com


Sarah Palin se diz 'muito otimista' com futuro governo Obama

'Este é um momento histórico para o nosso país', disse ela.

A ex-candidata republicana à vice-presidência dos Estados Unidos e atual governadora do Alasca, Sarah Palin, se disse animada com a futura administração do democrata Barack Obama, durante uma entrevista concedida nesta quarta-feira (12).

"Estou muito otimista. Este é um momento histórico para o nosso país", afirmou Palin, durante um encontro de governadores republicanos em Miami.

"Os americanos vão estar unidos, democratas e republicanos, trabalhando atrás do novo presidente pelo progresso do país", afirmou.


Thursday, October 16, 2008

Roubini, o homem que previu o pior



O texto a seguir foi extraído do blog da Míriam Leitão

O economista Nouriel Roubini, o bola de cristal de ouro do mundo, que previu tudo isso que está aí, mandou para seus clientes uma análise demolidora sobre os próximos riscos.

O que pode acontecer de pior a um sistema financeiro? O risco sistêmico. Pior que isso só um risco sistêmico global. É o que ele acha que pode acontecer agora.

O que de pior pode acontecer à economia real? Uma depressão. Pois esta palavra está na análise dele.

O pior de Roubini é que quando ele previu a recessão, a crise financeira e a quebra de instituições até como a gigante Fannie Mae e Freddy Mac ele foi ridicularizado pelos economistas do mundo inteiro. Riram dele. Isso foi em 2006. Em 2007, ninguém mais achava muita graça, mas a frase mais comum sobre que ouvi de alguns bons economistas brasileiros é: até relógio está certo duas vezes por dia. O pior de Roubini é que ele tem estado certo o tempo todo. E agora dobra a aposta. "O mundo está em um severo risco de um derretimento financeira global sistêmico e uma severa depressão global".

Ele acha que por isso é necessário uma ação urgente global. Como o G-7 está reunido neste fim de semana, quem sabe eles são tomados pelo sentido de urgência.


Quando ele fala global, ele está falando principalmente de "Estados Unidos e economias desenvolvidas". Ufa! nunca gostei tanto de não estar na lista dos países mais ricos. O problema é que os Estados Unidos, Europa, Japão, Canadá, Austrália, Nova Zelândia representam, ele lembrou, 55% do PIB mundial e por isso afetarão todos os outros países se entrarem todos em recessão.


- Por isso, mesmo países com bom desempenho como os Brics - Brasil, Russia, India e China, estão sob ameaça de um "hard landing" ( uma queda forte e rápida do nível de atividade).
A tese dele desde o começo é que existia um sistema bancário na sombra. São os fundos, bancos de investimento, brokers dealers, não bancos emissores de hipotecas, firmas de private equities, tudo aquilo que estava fora do radar das autoridades. Ele disse que agora está se vendo um desmonte desse sistema das sombras e isso é que está por trás da queda livre das ações e da paralisação do sistema bancário com as taxas de riscos subindo muito e os negócios parando.
Previsões pessimistas têm uma vantagem: alertam as autoridades para o tamanho do risco e por isso ajudam a prevenir o pior. Essa é a grande vantagem de Roubini, que tem sido o mais pessimista dos economistas do mundo e tem acertado com uma precisão de relógio, infelizmente. Em parte porque quem deveria levá-lo a sério ainda não levou. Acham que ele é um exagerado.


Mais sobre Roubini (em Inglês) neste link do New York Times e em seu blog pessoal.



Thursday, October 09, 2008

Obama e McCain - Round 2



Para quem viu o primeiro debate entre os presidenciáveis norte-americanos John McCain e Barack Obama, o segundo, ocorrido anteontem, pode ter soado como a versão mais extensa de um mesmo filme, um "American Apocalypse Now Redux", com cenas extras, principalmente na primeira metade, quando se falou mais da crise nacional e de sua relação com a classe média. Em essência, não vimos um filme muito diferente do anterior.

Como no primeiro debate, McCain procurou aproveitar as questões de política externa para mostrar ao público o quanto Barack Obama é ingênuo e despreparado para lidar com detalhes de negociação internacional e estratégias militares, como quando este propõe uma retirada do Iraque com data marcada ou quer sentar na mesa com líderes de nações "hostis" sem antes estabelecer pesadas pré-condições, como Bush tem feito. O problema é que os desfechos recentes não favorecem McCain, e a cada ataque, Obama simplesmente responde que as políticas militares e diplomáticas apoiadas por seu adversário vêm fracassando no plano prático, afastando os EUA do resto do mundo.



É duro para McCain, ainda que seja considerado uma força renegada em seu partido, distanciar-se da posição de situacionista ante os espectadores. E num momento político e econômico tão negativo, isso lhe é brutal. Indicar Sarah Palin para vice pareceu uma tacada de mestre, na opinião de muitos, quando ela roubou parte do brilho e "jovialidade" da campanha adversária, mas suas gafes vêm transformando este sucesso inicial num problema. A atenção que ela naturalmente ganhou faz com que cada erro seu reverbere em incessantes críticas, paródias e sarcasmo midiático, manchando-lhe a imagem política até para depois da eleição, quer perca ou ganhe. Palin definitivamente não estava preparada para os empecilhos de uma campanha à vice-presidência.

Obama tem frases belas e um perfil que parece cair como uma luva para este momento de possível transição na história americana. Se sua inteligência, serenidade e postura política transgressora são mais retórica que realidade, só saberemos depois de novembro, caso vença. Por enquanto, ele só precisa parecer apropriado, algo que tem feito, evitando contra-atacar todas as investidas de McCain ou partir para uma postura agressiva. Suas hesitações do primeiro debate, onde de fato aparentou leves ares de desperaro ou desconhecimento em questões como a mudança da política militar americana na guerra contra o terror, foram abrandadas no debate seguinte, ainda que seu discurso não mudasse muito. Quis denotar força ao falar em jogar duro com Paquistão e Rússia, mas nele se nota uma certa ingenuidade de juventude, a mesma que prejudicou os primeiros anos do mandato de Kennedy e seus encontros iniciais com Nikita Kruschev. Há situações em que inteligência precisa de rodagem, e só a vivencia resolve isso. McCain tentou explorar esse aspecto do adversário sem sucesso.



Outro foco chave do debate foi a questão energética. McCain falou em auto-suficiencia e deixou claro, ainda que mencionasse energia alternativa, que seus principais investimentos serão energia nuclear e novos poços de petróleo. Para Obama, as fontes alternativas de energia parecem estar mais em pauta, embora a nuclear também apareça em sua agenda.

Houve importantes pontos de discórida entre os dois quanto à políticas de impostos e mudanças no sistema de saúde. McCain quis mostrar Obama como alguém que pretende, em sua plataforma de cortes e gastos, gastar mais do que cortar e tirar mais dos pequenos empresários num momento de crise em que seus impostos não podem ser aumentados. Obama defendeu-se, alegando que não pretende gastar mais do que cortar, e sim o inverso, remanejando a distribuição de gastos e arrecadação pública a fim de torná-los mais proveitosos para o país e o povo. McCain contra-atacou e acusou Obama de votar a favor de Bush ou do partido em diversas questões, como energia ou aumento de gastos.



Ao falar da crise, os presidenciáveis culparam a crescente "desregulação" das transações financeiras na última década. McCain ligou Obama aos trabalhos da Freddi Mac e Fannie May, colocando-o como o segundo maior receptor de doações dessas duas companhias, ao passo que ele, McCain, teria sido contrário as propostas de aumento de crédito imobiliario que elas incentivaram. Obama soube responder a altura e este talvez tenha sido seu melhor contra-ataque em todo o debate. Primeiro, fez um breve retrospecto de sua posição e da do adversário em relação à desregulação em Wall Street nos últimos anos. Em seguida, afirmou que jamais deu apoio à Fennie May, ao contrário do diretor da campanha de McCain, cuja firma é lobista da empresa.

No mais, o que todo mundo viu foi um repeteco elaborado do debate anterior, com McCain criticando a retirada de tropas proposta por Obama e suas "ameaças" abertas ao Paquistão, Obama retrucando com "Bomb, bomb, bomb Iran" e o fato de ter sido contra a guerra no Iraque desde o começo, McCain defendendo o sucesso do "surge" e acusando o oponente de não tê-lo apoiado, Obama técnico, holístico e perdendo chances de atingir McCain com mais eficácia enquanto este desferia jabs fracos e longes do alvo. Talvez a raíz do "fenômeno reprise" estivesse na própria natureza dos temas, praticamente os mesmos do debate anterior. Russia, China, energia, Irã, Iraque, Afeganistão, Paquistão, nada de imigração, nada de america latina ou políticas conjuntas de desarmamento mais eficazes. O momento agora parece ser de "fortalecer a America" e todas as perguntas e respostas seguem nessa direção. As recentes acusações de Palin sobre associações entre Obama e Billy Ayers não foram levantadas.



Quanto à linguagem corporal dos candidatos, elemento importante na opinião de boa parte do público, Obama parece ter levado vantagem. Mostrou-se mais sereno ao falar ou ouvir críticas do oponente. Olhou-o nos olhos enquanto McCain lhe virava as costas ou se referia ao democrata como "that one" em tons de sarcasmo.

Para a mídia, Barack venceu este round. Para mim também, com uma pequena diferença. Foi mais claro em suas propostas internas (ou menos vago, como preferirem). Se a campanha de McCain não achar um podre do adversário até novembro ou Obama não cometer grandes deslizes, teremos, em 26 dias, o primeiro presidente negro da história estadunidense. Ou isso, ou estamos só testemunhando uma nova edição do "efeito Bradley", o que, espero, não seja verdade.

Enquanto isso, Tina Fey mostra que está ainda mais afiada em seu novo personagem. A imitação que faz da "quase irmã gêmea" Sarah Palin no debate dos Vice-Presidentes é de tirar o chapéu.


Tuesday, September 23, 2008

Tina Fey interpreta Sarah Palin



Desde o primeiro anúncio de Sarah Palin como postulante à vice-presidência dos Estados Unidos, estava escrito na mente de todos o nome da atriz que deveria parodiá-la no famoso Saturday Night Live. Tina Fey, uma das maiores comediantes americanas da atualidade, já estava fora do elenco regular do programa, mas foi chamada de volta a um papel que não poderia ser dado a outra pessoa. A nova temporada do Saturday Night Live estreou essa semana e com o pé direito: um pronunciamento conjunto de Sarah Palin e Hillary Clinton, interpretadas respectivamente por Tina Fey e Amy Pouhler.

Wednesday, September 10, 2008

Reaças em alto mar



Enquanto o resto do mundo reza para que Barack Obama crave um fim na era Bush e devolva um pouco de sensatez à Casa Branca, há uma parte significativa do povo americano unindo forças para perpetuar o absurdo de suas já conhecidas crenças e, conseqüentemente, seu estilo de vida. Gente que vê nos Estados Unidos da América o guardião mundial dos bons princípios do planeta e o direito de dirigir e explorar povos que mal conhecem e dos quais dependem a fim de manter sua redoma artificial de débito, consumismo, corporocracia, isolamento, poluição e ignorância, hoje em crise ante os olhos da política e economia mundial. Para tantos entre nós parece absurdo que, no evidente fracasso do mandato de George W. Bush, John McCain ainda consiga se manter empatado com Obama nas pesquisas. Quem são esses americanos que sustentam a gangue de Karl Rove na Casa Branca há oito anos? Quem são os alienados que insistem em ver na invasão do Iraque um sucesso inquestionável e uma missão com propósitos divinos? Sabemos que, sob o ponto de vista interno, duelos entre democratas e republicanos dizem respeito a mais coisas do que as questões internacionais que nos chegam via TV e internet. O eleitor yankee comum pode ser tão egoísta quanto qualquer outro, e se somarmos este egoísmo ao egoísmo cultural que a mídia, os códigos vigentes e sua própria voluntariedade o submetem, temos um conjunto de populações isoladas da realidade pela fé em princípios ultrapassados. Um tradicionalismo político-religioso de trocentos anos afundando ao sopro dos novos tempos, insistindo em agarrar-se no que pode, demolindo o mundo inteiro, se preciso, para não perecer. Sarah Palin é a nova cartada dessa gente. Uma figura de ares joviais, um neo-feminismo anti-feminista, uma aura de vencedora, de boa mãe, boa esposa, embalagem sofisticada e "hip" o bastante para atrair novos públicos a velhos ideais, como a volta do criacionismo às escolas, o fim da lei do aborto e do casamento homossexual. Se os liberais têm em seu Obama um possível elo com uma nova América, os conservadores apostam em Palin para dizer que o velho também pode ser novo, ou ao menos parecer novo. E na terra da ilusão e do entretenimento, o "show de luzes" tem mais importância do que palavras na hora de aumentar o rebanho.



Lembremos que Sarah será vice de um homem de 72 anos, com várias reincidências de câncer e um histórico médico que, nos últimos 8 anos, ultrapassa as 250 páginas.

A leitores curiosos sobre quem seriam ou como pensam esses republicanos comuns (e incomuns) que pouco aparecem na MTV, um artigo interessante. A revista Le Monde Diplomatique publicou em fevereiro uma matéria sobre um cruzeiro realizado para assinantes da National Review, bíblia do conservacionismo americano. O jornalista inglês Johann Har penetrou a "nau dos reaças" para analisar o perfil de seus viajantes; o que eles dizem quando longe de "ouvidos indiscretos". A matéria é de tirar o chapéu.

Para lê-la, clique
aqui




Thursday, August 21, 2008

Ecos de Pequim - Parte 2

Por que elas não conseguem vencer?



Aconteceu de novo.

O melhor time do mundo, da melhor jogadora do mundo, do melhor futebol do mundo, morrendo na praia para onze "branquelas" (ou quase isso). Aliás, perdoem-me o termo. Longe de mim qualquer alegação racista contra nossas oponentes, que, de algum modo, mereceram seu ouro ou título cada vez que o conquistaram.

Por que, perguntamos, nossas moças não conseguem vencer? Por que uma geração tão prodigiosa, tão constante na presença em finais e superior às adversárias em iniciativa erra trocentas chances e é surpreendida numa jogada corriqueira, um contra-ataque ou uma bola que sobrou? Haverá explicação plausível ou seria só um capricho do destino?



Na TV, ouvimos o locutor lamentando uma repetida injustiça contra nossas "guerreiras", nosso talento superior e merecimento. "A bola insiste em não entrar", ele grita. "Essa prata vale ouro", ele diz. Acho justo que se reconheça o mérito do esforço, da garra, da perseverança e superação: alicerces do princípio esportivo, recompensáveis no triunfo e na derrota desde tempos imemoriais, quando a primeira competição foi inventada. Igualmente justo reconhecermos o talento mais elevado, a melhor jogada, jogador, atuação, e nisso o Brasil sobrou neste futebol olímpico feminino, como também em Atenas há quatro anos e no último mundial. Jogou, brigou, galgou bem cada passo na trajetória rumo ao título até perecer na grande final, desmerecidamente, ao menos em duas ocasiões.

Então é isso? Trapaça do destino? Mérito irreconhecido pelos Deuses dos esportes?

Não creio.



Nosso merecimento é louvável, mas num jogo como o futebol, questões como superioridade técnica e garra podem ser essenciais, mas insuficientes na construção de um campeão. A categoria masculina amargou 24 anos de jejum proclamando-se campeã moral a cada copa perdida, a cada semi ou quarta de final onde nosso "melhor futebol" desvanecia ante um oponente teoricamente mais fraco que sabia aproveitar uma chance e segurar-se na defesa. Levamos 24 anos para entender ou reaprender que um campeão também é forjado em detalhes; que erros ou acertos de segundos podem ser mais relevantes numa decisão do que uma partida inteira bem realizada. A "geração Dunga" tinha talento em Romário e Bebeto, mas não era melhor que a de 82, por exemplo, que perdeu duas copas seguidas. Os tetra-campeões venceriam pela garra, pelo talento, sorte, mas também porque foram bem preparados para detalhes que diferenciam grandes equipes de campeões do mundo, nem sempre tão excepcionais. Defenderam-se bem, erraram pouco, não deram contra-ataques, prezaram em não perder gols, ainda que os desperdiçassem em alguns jogos; treinaram situações adversas e souberam aliar talento individual à interação coletiva, com e sem a bola nos pés, coisa que, a meu ver, sempre faltou a essa seleção feminina, ainda que conseguisse compensar isso na qualidade ímpar de algumas atletas e por isso chegar longe.



Nosso brasil de saias ainda é um time individualista, e no futebol, o jogo não se faz apenas onde a bola está, mas onde ela não está. Quantas vezes vimos Marta ou Cristiane ou Daniela tentando resolver um lance sozinha enquanto as companheiras, carentes de noções básicas de colocação sem bola, mal se movimentavam, ou o faziam para o lado errado? Alguém se lembra de Ronaldo e Rivaldo na final de 2002? De Romário e Bebeto? Do "toca daqui que eu deixo de lá"? De 2, 3, 4 ou 5 jogadores, um entendendo o outro, um facilitando o trabalho do outro, um deslocando a marcação para o outro em séries de dribles, fintas e triangulações de caráter coletivo, como se juntos formassem um organismo fluido chamado "ataque"? Alguém recorda o gol do Carlos Alberto na final de 70, uma das maiores obras do gênio coletivo na história das copas? Nosso futebol não foi o melhor do mundo tantas vezes só pelo talento de indivíduos, mas também na capacidade desses gênios em unir seus dons, tornando-os complementares, coisa que não fizemos em 2006 e que sempre faltou a essa seleção feminina, ainda que ela seja, a meu ver, a melhor do planeta há anos. Não conseguiu transpor a fase ingênua do futebol, pura, "peladeira" e passível de erros bobos. É mais ou menos como uma Nigéria ou Camarões nos anos noventa, mas com adversárias talvez menos infalíveis e por isso chegaram tão longe e até poderiam vencer, apesar dos defeitos.



Lembremos também que as americanas tiveram oportunidades claras de gol e uma bola na trave. Feitos pouco mencionados por Galvão Bueno em sua avaliação do jogo. Souberam usar a inteligência, a tradição e a experiência para dificultar a troca de passes do Brasil em sua defesa, tornado nossas jogadoras dependentes de sobras em "bate-rebate" e de lances individuais, cansando-as, já que "se moviam mais que a bola" para atacar. Nossa escassez de bons passes longos e curtos ou cruzamentos também colaborou para a derrota.

Não digo que isso explique sumariamente porque um time ganha e outro perde, já que o futebol também é feito de imprevistos, injustiças e lances inusitados de caráter decisivo. É importante, todavia, que se procure entender e raciocinar sobre os possíveis fatores que repetidamente impedem uma geração talentosa de fazer valer sua superioridade na obtenção de títulos. Lamentar a falta de sorte ou exaltar o espírito olímpico e a habilidade de nossas atletas pouco agraciadas pela balança da fortuna é menos importante do que desconstruir vícios entranhados em nossa mentalidade e modo de jogar. Devemos lapidar estes talentos sob o ponto de vista coletivo, aprimorar fundamentos e jogadas básicas, às vezes não tão belas, mas essenciais em se compor um leque de opções para jogos decisivos quando o "prato principal" não funcionar. Lembremos que gols de cabeça, de barriga e gols contra valem tanto quanto os de bicicleta.


Tuesday, June 10, 2008

Faroeste estudantil



Acuados ante a crecente onda de assassinatos em massa nas escolas e faculdades, estadunidenses cogitam a possibilidade de estudantes poderem andar armados em tais instituições. O estado de Utah já aprovou a idéia. Aos poucos, o povo yankee vai encontrando brechas para resgatar, no plano prático, seu mais sórdido desejo ancestral. A volta da terra de Marlboro. É cada um por si, e quanto mais cedo aprender, melhor. Saiba mais lendo esta matéria aqui.

E para quem ainda pensa que atirar é como jogar Counter-Strike...




Sim, eu sei... a resenha do Indiana Jones vai chegar. Não se preocupe!


Friday, May 02, 2008

A ponta do dedo de um homem, um enorme passo para a humanidade

Cientistas da universidade de Pittsburg desenvolveram, à partir de bexiga de porco, um pó cuja finalidade e eficácia esboçam aquilo que pode ser o primeiro passo para a realização de um antigo sonho humano. Regenerar partes perdidas.

Lee Spievak, 69 anos, perdeu a ponta do dedo indicador ao tocar a hélice de um aeromodelo em movimento. Pelos processos naturais e métodos de cura conhecidos, seu membro só poderia cicatrizar, mantendo-se decepado. O irmão da vítima, que trabalhava no projeto do pó regenerador, usou Lee como cobaia e conseguiu fazer seu dedo ser competamente restituído em quatro semanas.

Façanhas como esta podem marcar o início de um processo revolucionário na medicina. Tecidos queimados e perdidos, ossos, partes de membros ou orgãos, ou - quem sabe? - orgãos inteiros regenerados no futuro. As forças armadas americanas já se interessam pelo projeto e pretendem usar o pó "mágico" em soldados que perderam as pontas dos dedos em ação.

A escalada rumo ao shangri-lá de nossos filmes de ficção científica será longa, porém possível e compensadora.



Enquanto isso, em Brasília, sorrisos emergem.


Charge por Lézio Junior


Para saber mais sobre a notícia, clique
aqui e aqui


Tuesday, March 18, 2008

Pérolas do youtube: Americanos idiotas

Muitos dizem que os americanos (ou estadunidenses) são um povo narcisista, auto-centrado e ignorante acerca de questões que envolvam outros países a ponto de cometer gafes inimagináveis. É fato que não podemos julgar uma população inteira pela índole de certos indivíduos. É fato que ignorância e erudição são encontráveis em qualquer parte do mundo, mas devemos admitir que esta nação em particular possui peculiaridades que justificam a má fama e até nos fazem pensar se seus elementos geradores compõem realmente uma exceção e não a regra. Videos como os que seguem abaixo nos ajudam a entender como um país tão rico, "civilizado" e poderoso colocou Bush duas vezes na Casa Branca. (Legendas em português)







Sunday, March 09, 2008

Os números da vergonha



Uma das mais recentes atrações previstas para o cinema, e já em cartaz no youtube, é o filme Sicko, de Michael Moore (ver trailer), que critica o sistema de saúde dos Estados Unidos, expondo suas deficiências e as sacanagens inerentes à única rede de atendimento hospitalar do ocidente desprovida de um serviço público, e também as perniciosas relações entre governo e empresas seguradoras que costumeiramente deixam clientes de planos privados na mão; sem atendimento.

Uma das cenas mais marcantes do trailer mostra os Estados Unidos, hoje nação mais rica do planeta, ocupando a trigésima sétima posição no ranking dos melhores sistemas de saúde do mundo, ligeiramente a frente da... Eslovênia. Concordo que é uma revelação de levantar os cabelos, mas aí fiquei pensando em qual seria a posição do Brasil nesse mesmo ranking. Estaria ele um pouquinho abaixo de Cuba e Bahrein, que aparecem logo atrás da Eslovênia? Por que não, se o Chile, que não é nem a primeira e nem a segunda maior economia da América Latina, vem em trigésimo terceiro?

Pois bem... não resisti à tentação e procurei o site que aparece no filme para ver a colocação do famigerado sistema de saúde tupiniquim neste ranking. "Sicko" levanta o desparate entre os Estados Unidos serem a nação mais rica do mundo em termos de produto interno bruto e ocuparem apenas a trigésima sétima posição da lista. O Brasil é hoje o oitavo colocado entre os maiores PIBs do planeta. Quer saber nossa posição no ranking mundial da saúde?


Chore aqui!




"Não fique assim! Veja pelo lado positivo. Podíamos estar morando na China ou na Rússia!"


Friday, November 30, 2007

Leonidas X Beowulf - Quem berra mais?


Depois ficam perguntando por que costumo passar longe de certas superproduções hollywoodianas de sucesso. Como se não bastasse a modinha "pós-senhor dos anéis e gladiador" de reproduzir infinitamente os mesmos dilemas, personagens, seqüências, situações, adicionando técnicas pseudo-inovadoras para criar uma impressão de upgrade de um mesmo filme que, pelo sucesso original, merece ser repetido "ad eternum" em novas versões à públicos indiferentes ao fenômeno, compulsivos, ávidos em "sentir aquilo de novo", reviver a batalha dos campos de Pellenor quantas vezes for imaginável, em formas, ângulos, "épocas" diferentes, desde que evoquem o mesmo conjunto mítico de espadas, flechas, guerreiros sarados e destemidos, mulheres exuberantes e muito sangue, não bastassem estas reproduções preguiçosas e vazias que mais parecem videogames onde nossos arquétipos cognitivos estão sendo "jogados" pelos personagens da tela, a "sétima arte hollywoodiana" deseja ir além, e de modo mais bizonho. Vem aí a nova versão "Gladiador-Senhor dos Anéis-Tróia-Alexandre-Cruzada-300" do mercado.


O nome é Beowulf, e pouco importa em que lenda ou mito nórdico, grego ou germânico esse filme se baseie. O mito do enredo é irrelevante quando a questão maior está em rebatizá-lo para novos padrões high tech, corporocratas, republicanos, repetiticionistas, insosos de frases prontas e personagens unidimensionais que sonham em tornar a complexidade daquilo que um dia chamamos de mundo real tão simples, manipulável e desprovida de "periféricos complicados, insolúveis e indecifráveis" quanto um The Sims II ou Ultima Online (na verdade, bem pior). Antes de criticar este filme como obra, até porque por mais que um filme pareça horroroso, é sempre injusto criticá-lo antes de assistí-lo, prefiro me ater no produto, àquilo que as redes de associações evocadas pelos trailers me suscitam. Ora essa! Mesmo o espectador mais "blockbusterizado" da existência não consegue evitar uma pontinha de riso ao ouvir o protagonista Beowulf mimetizando o Role Model "herói macho" da moda estadunidense em seus berros "pit bichais". Aguentar os ataques histéricos de Leônidas em 300 já "dava no saco". Encarar um clone daquele troço é o fim do mundo! De que adianta pesquisarem um calhamaço de referências mitológicas, históricas, indumentária, arquitetura, costumes, se, no fim, tudo se reduz a um "This is Sparta"? E não é só! O filme faz claras alusões a personagens e situações de "Senhor dos Anéis" e seus filhos bastardos, trazendo de volta a "sempre igual" Angelina Jolie, mulher fatal de uma cara só, de um personagem só, de uma boca só (salvo raras exceções, e esta provavelmente não é uma delas). A mensagem subliminar "não tão subliminar" do produto é clara: "Se você gosta deste joguinho conhecido, compre a versão 2008! Tem Leônidas e Angelina com novas habilidades, "skins", apetrechos e opções, tem versão aprimorada do Gollum e outros monstrinhos digitais, animação computadorizada, guerra na chuva em câmera lenta com flechas voando, grandes exércitos, brados épicos despropozitados e tudo aquilo que você aprendeu a curtir repetidamente. Pelos trailers, Beowulf mais parece um FIFA 2008 dos épicos, ou pior, um joguinho concorrente tentando imitar a imitação que a "bola da vez" anterior fez da "bola da vez" anterior. Chega desses épicos high tech de fachada! Outro Leônidas já é sacanagem!!!

Na foto acima, Leonidas (versão oxigenada) e Gimli, digo... Beowulf e Wiglaf

De positivo... certos nomes do elenco, talvez chamados para conceder auras de legitimidade, qualidade e talento a algo tão descaradamente imitativo. John Malcovich, Anthony Hopkins e o diretor Robert Zemeckis têm um currículo invejável nas costas, mas também tinham Ridley Scott e Oliver Stone antes de Cruzada e Alexandre (tudo bem que com alguns tropeços pelo caminho). Não lembro de um longa de Zemeckis que tenha me desagradado. Curti Náufrago, Forrest Gump, a franquia "De Volta Para o Futuro" e outros filmes do sujeito. Seria esse o primeiro abacaxi em que ele resolveu se meter? Bom... esperemos para ver!

Para quem tem saudades do Leônidas, uma palhinha de seu clone Beowulf.



"Tonight, we die in Hell!" Quer dizer... "We will be different!", "This is SPARTAAAAAA!", porra, errei de novo! "I AM BEOWULF!!"

E se você acha que não gostei de Senhor dos Anéis, enganou-se, pois, apesar de visivelmente comercial e hollywoodianamente engajado, este filme funcionou mais como um referencial de modismos do que como um seguidor decerebrado, como foram seus filhos bastardos Tróia, Alexandre, Cruzada, 300 (derivado da obra de Frank miller), e, muito provavelmente, Beowulf. "Lord of the Rings" pode ter lá seus defeitos, mas dá chocolate em todos estes filmes juntos.


Para fechar, uma prévia do confronto final entre os berros de Leonidas e Beowulf. Quem levará a melhor?



Friday, September 28, 2007

Avante, guerreiras da bola!!!



Há trinta anos, quando Pelé aceitou jogar futebol nos Estados Unidos pelo extinto New York Cosmos, a empreitada tinha como objetivo popularizar este esporte por lá. Não deu certo. Pelo menos não para os homens. Às mulheres, foi sucesso total. Do fim da década "disco" até hoje, nosso "soccer" virou a opção esportiva "light" popular do "sexo frágil" em solo yankee. Se na America Latina e boa parte da Europa, futebol foi esporte bruto "para macho" até pouco tempo, nos lados do Tio sam era "jogo de mulherzinha". "Homem que era homem praticava baseball, futebol americano, hóquei ou basquete."

Tal popularidade precoce tornou os Estados Unidos uma espécie de potência mundial precursora. Se, com os marmanjos, passaram quarenta anos sem ir a uma copa, com as moçoilas fulguraram sempre entre os três primeiros, ostentando dois títulos em quatro edições disputadas. Nomes como Michelle Akers, Mia Hamm e Shannon McMillan logo alçariam condição de referência global.





Abaixo do equador, o clima era outro. Mulheres jogando bola tachadas de lésbicas ou coisa pior. Falta de incentivo à formação e profissionalização de atletas tornaram a América do Sul terceiro mundo no futebol de saias, e a coisa pouco mudou desde então, exceto por um detalhe.

Um detalhe chamado seleção brasileira.


Ocorreu devagar. Lampejos de uma geração prodigiosa e guerreira que, desde sempre, lutou contra tudo e contra todos para não perecer. Marta, Formiga, Pretinha... surgiram como curiosidades, ganharam simpatia pública e viraram ícones de garra e perseverança, heroínas nacionais. No começo, tiravam onda nos trópicos com homéricas goleadas, mas caíam ante as "gigantes" chinesas, norueguesas e americanas. Para cada mundial perdido, um choro por apoio e meses de esquecimento até o próximo compromisso importante. Promessas não cumpridas, mal-entendidos, crocodilagens e a eterna superação de um time que de zebra virou "pedreira" e agora quer ser grande. Mereceu ganhar ouro em atenas, faturou dois panamericanos e por fim, enfim, desbancou o antigo carrasco, candidato a freguês. Nosso Brasil também quer ser potência entre as meninas, e pode, se nós aqui deixarmos.





Torcerei por elas na decisão, claro, e ainda mais depois. Torcerei para não serem esquecidas. Para que a TV, empresas, federações, e nós, o público "pagante", não as deixemos de lado, ou viverão sempre comendo migalhas dos rapazes, apesar do esforço e glória alcançados.

Nos "states", o fenômeno é inverso. A velha zebra yankee da seleção masculina, ressurgida às copas de 90 para cá, mostra sinais evolutivos claros. Fez bonito em 2002, deu azar em 2006 com uma chave difícil e hoje consegue encarar o Brasil de Kaká e Ronaldinho quase de igual para igual. Não duvido que em alguns anos, os homens, e não as mulheres, sejam o sexo forte no futebol de lá. A pergunta é: Isso bastaria para popularizar o "soccer for men"? E aqui? Algo inverso ocorreria com um título feminino em copa do mundo?


Bom... Vamos aguardar.




texto também publicado no blog Fanáticos por Copa e no site Domínio Cultural



Sunday, May 06, 2007

Xuxa politicamente correta

Navegando pelo Youtube como de costume, eis que me deparo com trechos do programa que Xuxa Meneghel fez para a TV americana em meados de 93, nos tempos em que tentava ampliar seus poderes de rainha para o lado saxônico do continente, e, conseqüentemente, para o resto do mundo.



(Alguns trechos do "Xou da Xuxa" americano (lá chamado apenas de "Xuxa") podem ser encontrados aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui)

Pouco sei sobre detalhes deste programa. Pelos videos postados, vemos que o show procurava passar um clima de aldeia global, com bandeiras de vários países tremulando em meio ao público infantil. Seu formato e características não diferiam muito daquele com o qual nos acostumamos anos antes. Personagens em forma de bicho, brincadeiras de palco, crianças em volta, paquitas. Um urso panda dividia o palco com a apresentadora, assumindo o microfone na hora de fazer explicações mais complicadas sobre as brincadeiras, já que xuxa ainda não dominava totalmente a língua inglesa.

O que mais me chamou a atenção foi a forte diversidade racial do programa, significativamente superior àquela vista no Brasil, contando, inclusive, com a presença de uma paquita negra. Sabemos, claro, não se tratar de uma diversidade espontânea, mas meticulosamente premeditada para angariar simpatia das "minorias" e preencher requisitos politicamente corretos para elaboração de material infantil em solo americano. Mesmo assim, este quadro étnico - tão diversificado quanto o quadro étnico populacional brasileiro - não deixa de nos parecer incomum, visto que não estamos tão acostumados a vê-lo refletido em nossas telinhas. A multiracialidade de programas como o "Xou da Xuxa" na versão nacional tinha tendencias caucasianas, "pró-claras", paquitas brancas e loiras, crianças negras sendo sempre exceções em volta do palco. O racismo da TV nacional revela um ideal estético pós-escravista, ainda arraigado em preceitos coloniais, um brasil "mítico" mais branco do que negro, mais claro do que escuro, mais "europa morena" do que "indo-áfrica clara". A TV e a publicidade, ao contrário do cinema, não buscam alcançar verdades, mas alimentar mitos, aspirações ainda fortes no inconsciente coletivo de nossas classes média e alta, sonhos que acabam por contaminar também a mente dos desfavorecidos, rejeitados por uma multiracialidade que se quer mais clara, de olhos mais verdes, mais azuis, com cabelos mais lisos; a multiracialidade de "caprichos", novelas, "playboys" e "coleguinhas" do Luciano Huck, uma miscigenação que pouco condiz com as reais proporções étnicas da nação.



O Brasil da TV exalta o Brasil da realidade como algo abaixo dele, algo para ser reverenciado enquanto ocupa seu devido lugar de notícia de jornal, documentário, "agora ou nunca", "o povo fala" e "se vira nos trinta". Na telinha, a representatividade estética do "povo" só ganha status de maioria quando participa como "povo", virando exceção ou "acessório" no terreno dos grandes referenciais de desejo coletivo, o que só contribui para minar a auto-estima e os sonhos daqueles que se vêem pouco refletidos no "mundo ideal da TV".

Mudanças significativas vêm ocorrendo nesse sentido durante a última década, inclusive no que diz respeito ao trabalho da "rainha dos baixinhos", mas tais progressos são pequenos perto do que ainda precisa ser elaborado. Sabemos o quanto falta para nossa diversidade "espontânea" da TV atingir níveis ao menos próximos de nossa realidade e, ironicamente, da multiracialidade fictícia que alguns canais americanos politicamente corretos propagam.

(Alguns trechos do "Xou da Xuxa" nacional podem ser encontrados aqui, aqui, aqui ou aqui)

Tuesday, April 24, 2007

A matrix americana

Como tantos jornalistas, pseudo-colunistas, experts de plantão e palpiteiros orkutianos ao longo da semana, meto também minha colher no caso Cho seng-Hui, o coreano da universidade tecnológica de Virginia, que num dia de fúria premeditado, decidiu assassinar 32 estudantes, sublimando assim aquele desejo secreto partilhado com boa parte de seus compatriotas. Dar uma bela porrada no sistema.



Vejo muita gente fazendo comparações entre este tipo de crime e os que comumente ocorrem na guerra do tráfico do Rio de Janeiro ou nas escolas de classe baixa no Brasil.
Há correlações, claro, mas, sobretudo, diferenças cruciais que jamais poderiam ser ignoradas. "Spree killing", que é como este tipo de violência é chamado na terra do tio sam, e "Serial Killing" são bem menos comuns por aqui do que por lá, onde a panela de pressão social estoura com muito mais freqüencia entre cidadãos comuns de classe média, então transformados em criminosos do dia para a noite. A violência das favelas daqui tem maior relação com os problemas de gangues dos guetos de lá ou a violencia freqüente das escolas pobres americanas onde alunos recebem um péssimo serviço e se vêem fortemente próximos à criminalidade desde os primeiros anos de vida.

Casos como Virginia Tech e Columbine possuem elementos únicos em suas origens, presentes em qualquer parte do mundo, porém mais visíveis em certos países ricos do ocidente, e ganhando destaque especial nos Estados Unidos da América.



Especialistas de cada canto continuam emitindo opiniões a respeito, algumas bem razoáveis. Fala-se da facilidade em se adquirir armas de fogo e do fascínio que elas exercem sobre os norte-americanos. Fala-se da "falta de toque" e de "calor humano" nos contatos diários entre seguidores de culturas protestantes. Discute-se o estado mental dos criminosos, o consumo de celebridades instantâneas, a glamurização, espetacularização ou banalização da violência, sexualidade reprimida, videogames impróprios, filmes violentos, música "degenerada", etc. Uma psicóloga da PUC chamada Sandra Dias chegou a destacar durante o Bom Dia Brasil de terca-feira na Rede Globo a relevância do fator consumismo que hoje assume a condição de sujeito no imaginário estadunidense, transformando, sob tal ótica, o crime de Cho Seng-Hui num ato de heroísmo, mesmo que "negativo". Dito isso, o entrevistador da emissora corta este depoimento para ouvir o testemunho de um brasileiro que esteve no prédio da universidade durante o tiroteio. Retoma a entrevista em seguida, levando Sandra a falar sobre o fácil acesso à armas de fogo e então encerra o assunto, impossibilitando-a de completar aquele pensamento anterior. Na quarta-feira, todo o conteúdo da entrevista foi cortado do programa no site Globo.com, como se ela sequer tivesse começado.




Edições à parte, penso que muitas dessas opiniões podem nos ajudar a elucidar causas pertinentes enquanto outras só conseguem confundir ao imbuir culpa em conseqüências, sintomas, como se neles estivesse a origem da doença. Seria como culpar uma letra do Marilyn Manson pelo suicídio do fã. Ambos, letra e suicídio, são elementos posteriores de um mesmo sistema fenomenológico e possuem raízes comuns. Raízes nascidas justamente na "caretice" de seus "santos" detratores.

Longe de mim tentar desvendar este mistério por inteiro, mas creio que uma peça importante do quebra-cabeças seja justamente a relação fechada que um cidadão americano comum (especialmente no que diz respeito às tradições culturais difundidas pelos fundadores do país e hoje presentes, em maior ou menor grau, nas demais "americas" que com seus descendentes interage) desfruta com aquilo que considera "as regras do jogo da vida".

Cho Seng-Hui realizou o desejo secreto da maioria dos compatriotas. Ele "deu um soco", "um tiro" no sistema fechado de "como as coisas são e devem ser" na América. Desde a escola, um americano comum de classe média está inserido numa imensa rede de divisões e sub-divisões analíticas e deterministas que o classificarão e "ranquearão" perante os demais. Seus teste de Q.I., notas no ano letivo, deslizes comportamentais, atividades extra-curriculares, "raça", sexo, aparência, roupas, condição social, etc, servirão para enquadrá-lo no sistema acadêmico e no sistema social, sendo que ambos possuem regras próprias, mas fortemente inteligadas, seguindo princípios competitivos semelhantes. Seu "nível de popularidade" determinará onde poderá se sentar no refeitório, com que alunos pode ou não interagir, a que festas pode ir. Se por acaso o "nerd invisível" da classe consegue "dar uns amassos" na líder de torcida que namorava o capitão do time de futebol, ele é automaticamente promovido e realocado, muda de mesa, de hábitos, de amigos, de status na vida. Se Johnattan Mason está fumando maconha e é flagrado, precisa passar uns meses na classe dos desajustados para se reabilitar e voltar à parte sadia da máquina, "salsichas defeituosas classe C para procedimento FGF". O deslize, claro, permanecerá em seu currículo para futuras etapas de avaliação, classificação e ranqueamento, quer na escola, na universidade, no emprego ou nas relações sociais, podendo minar cumulativamente sua marcha rumo ao shangri-lá do SUCESSO PESSOAL. Cada sistema complementa o anterior, para a frente, para os lados, para cima e para baixo, girando sempre em torno de imperativos pragmáticos, analíticos e consumistas. Cada etapa da existência tem suas regras e objetivos racionalmente inteligíveis, "dar uma de rebelde pode ser tolerável e até bonito na adolescência, mas é inadmissível para um homem maduro", "se come a mina de 17, vai preso como pedófilo pervertido; se espera um mês até ela fazer 18, é um sujeito sadio, normal e cumpridor dos deveres". O americano aprende a pensar a vida dessa forma, como um grande sistema racional de causa e efeito que opera em freqüência única de caráter linear, reducionista e absurdamente simplório, mesmo quando comparado aos sistemas reducionistas de nações ocidentais que também sofrem desse mal. A Matrix americana só consegue pensar o indivíduo dentro ou fora, e o indivíduo só pode se pensar dentro ou fora dessa Matrix. Não há fuga sem rompimento. Não há "jeitinho brasileiro", saídas criativas que o permitam fugir e estar simultaneamente. Não há sentimento de infinitude ou subversão sem confronto.




Se não consegue cumprir as metas sociais estabelecidas, se não consegue ganhar destaque em seu nicho ou em qualquer outro, se não é capaz de triunfar dentro daqueles principios consumistas americanamente aceitos como sinônimos de sucesso, o sujeito ganha status de "perdedor', do individuo que precisa existir para endossar os méritos de quem "chegou lá", "the people who made it", e se esse "perdedor" não encontra uma forma de se realizar dentro dos papéis que seu status lhe oferece, se não é capaz de sobreviver como tal ou ao menos criar alternativas usando as ferramentas disponíveis, torna-se ele uma espécie de bomba-relógio que pode implodir em suicídio ou explodir em transtornos psíquicos capazes de culminar nos fenômenos de que falamos: serial Killing, spree Killing ou simplesmente "um dia de fúria a lá Michael Douglas".



Não é a toa que quando têm uma chance para perder a linha - geralmente em épocas da vida e lugares premeditados, como no caso dos springbreaks universitários - os americanos vão fundo, perdem a linha mesmo, e da maneira mais desengonçada possível, já que não estão acostumados à constantes permissividades. Porra louquice fora de época e lugar tem de ser feita longe da polícia, senão rola cadeia da braba por perturbação da ordem. Muitos heróis modernos do cinema americano não hesitam em mostrar certo repúdio àquela ordem social por que devem lutar, fazendo tudo do seu jeito, desferindo socos e tiros como e quando querem, dando porrada no sistema a torto e a direito, rindo da cara dos burocratas, dos oficiais, dos comissários de polícia inaptos em controlá-los, dos carangos de milhões de dólares que pegam emprestado e depois destroem, justificando-se com um pedido de desculpas e um sorriso maroto. Esse é o escapismo do cidadão americano comum que vive envolto em regulamentos e manuais de instruções, mesmo onde eles não deveriam existir. Até o nerd Lewis Skolnick precisou dar um soco no líder Alfa-Beta para deixar de ser LOSER. George McFly só largou a vida de bunda-mole quando socou Biff - representante-mor da ordem social do colégio - bem no meio das fuças.
Rambo, Cobra, John McLaine, os personagens do Schwarzenneger... eles não apenas simbolizam o belicismo conquistador impassível do povo americano, mas também são a vontade do indivíduo de se rebelar contra a máquina. Seus heróis e seus criminosos pervertidos possuem desejos em comum, e não é a toa que estão ficando cada vez mais parecidos na crueza do caráter, diferenciando-se meramente na eficiencia com que matam (vide Blade, Bad Boys II e, pasmem, Matrix). Ambos adorariam destruir a casa branca e o world trade center juntos. Seriados como CSI mostram os mocinhos investigadores quase se regozijando enquanto conversam sobre os detalhes morbidos de cada crime. São o mesmo tipo de gente, mocinhos e bandidos. Psicopatas. Não foi a toa que um ator da série emitiu o seguinte comentário: "Os caras maus fazem o que os caras bons sonham." Caras bons? Não seriam psicopatas enrustidos?




Não digo que esse tipo de problema inexista no Brasil, mas aqui as frestas para respirar são infinitas e a criatividade abunda em cada canto. Fugir dos manuais é inevitável. Seguí-los a risca é complicado. Se nosso jeitinho brasileiro gera mil problemas novos a cada solução apresentada, também nos propicia mil soluções ante cada problema aparentemente intransponível, mesmo que os abismos sociais sejam mostruosos, pois se para cima há uma imensa cerca de arame farpado, para os lados há terreno fértil onde a criatividade consegue fluir e gerar saídas alternativas, novas "freqüências existenciais", felicidade e vitalidade onde isso não deveria existir.

Nosso caldeirão de heranças culturais aliado a rituais como o carnaval permitem que interajamos com a vida de modo mais maleável, menos determinista, sem esquemas e verdades prontas para cada etapa da vida. No Brasil das injustiças sociais acachapantes, do jeitinho, do "deixa a vida me levar", pode-se sair e ficar na Matrix simultaneamente com bem mais facilidade, já que ela funciona pela sobreposição de "freqüências existenciais múltiplas", "mundos paralelos" que se fundem num mesmo habitat e num mesmo sujeito cultural, confundindo nossos desejos conscientes de linearidade racionalista com uma complexidade social infinita quase impossível de diagnosticar. Muitos brasileiros odeiam que certas leis jurídicas não "colem" na vida prática, que "não pisar na grama" não signifique "não pisar na grama", que chegar as quatro horas da tarde num lugar pode significar quatro e dez, quatro e vinte, ou quatro horas mesmo, que nossa liberdade de expressão ostente "poréns" incomodos e incompreensíveis pertencentes ao terreno do inconsciente coletivo em determinadas situações, e que miseráveis consigam ser felizes na favela em meio à guerra do tráfico e falta de oportunidade enquanto ricos com tudo na mão vivem se drogando e tomando anti-depressivos. Até onde é bom ou ruim viver numa sociedade de regras invisíveis, multilaterais e mutantes, não sei. Se os americanos têm seus spree killers, temos aqui nosso conformismo endêmico. Se a unilateralidade deles implica em altíssimos preços a pagar, nosso "jeitinho" também não vem de graça.

Ressalto outra vez que não pretendo, através desse texto, estabelecer um diagnóstico para o caso Virginia Tech, mas apenas apontar fatores que certamente exercem peso significativo nos quadros sociais geradores desse tipo de crime. Tampouco alego que a criatividade não se faça presente no histórico cultural americano. Seria de absurda leviandade afirmar isto, até porque a construção dos Estados Unidos também passa pela absorção de influências que não as de seus fundadores, tendo decerto as de origem africana e latina exercido um papel vital na geração de trilhas que alimentem impulsos criativos. Todavia, não é leviano dizer que hoje os Estados Unidos respiram um ambiente cultural onde a criatividade recebe pouquíssimo incentivo para se desenvolver livre no espírito das pessoas. Se por acaso ela consegue resistir à essa vontade imensa de castrá-la e "sai do armário", tende a emergir maculada, ferida, contaminada pelo instinto americano de morte, refletindo os recalques de uma nação repressora, procurando pelo negativo, pelo agressivo, pela violência, competitividade e perversão, sendo essencialmente crítica e pessimista, mesmo quando se pensa positiva, pois lá a criatividade positivizada é exceção. Aqui é a regra.