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Tuesday, March 10, 2009

Watchmen - um clipe metido a filme



Sou fã da série Watchmen dos quadrinhos. Li há pouco tempo e achei fantástica. A "Graphic Novel" de Alan Moore e David Gibbons tem tal relevância no mundo dos gibis e da ficção, que recebeu honrarias dedicada à pérolas da literatura. É a única HQ a constar na lista das 100 maiores obras literárias em língua inglesa escritas desde 1923, elaborada pelos críticos da revista Time, por exemplo. Com isso, choveram intentos para adaptar Watchmen à telona. Entre os candidatos, Terry Gilliam, que até tentou, mas achou a história intransferível devido à características fortemente relacionadas à midia original. Além disso, o enredo é longo e profundo, com histórias dentro de histórias dentro de histórias, todas densas, concatenadas e repletas de mensagens subliminares que nos fazem ingressar num mundo vivo, vibrante e que diz muito sobre a modernidade e a década em que foi escrito. Não foi por acaso que levaram vinte anos para transformar Watchmen em filme.

O desafio era imenso; os fãs da série, exigentes. Desconfiança pairava no ar, mas os primeiros sinais de recepção foram favoráveis. Críticos de alto calibre como Pablo Villaça, de quem sou fã, elogiaram o filme, como também o bonequinho do globo e outras mídias especializadas. Dos fãs, resposta igual, e apesar de minhas desconfianças (uma vez que assisti ao trailer e também fiquei ciente de quem dirigia o projeto), pensei que, no fim, fosse concordar com a opinião hegemônica de que, ao menos como versão, Watchmen, o filme, era bom. Desencanei e desembolsei dezesseis reais por uma cadeira no Roxy de Copacabana, esperando me divertir.



O longa começa. Empolga-me, o início. O Comediante era parecido com o do quadrinho e sua morte seria encenada em vez de insinuada em flashes como na HQ. "Ok. No problem". Veio a primeira luta e meus temores ganharam forma. Sim, as tais piruetas de enquadramento girando em 360 graus enquanto a imagem alterna lentidão com rapidez estavam acontecendo de novo, exatamente como naquele filme sobre espartanos, como é mesmo o nome? Ah, "300". Do mesmo diretor, não é? Ignorei-as e perdoei o virtuosismo besta me distraindo da história. O comediante quebra o vidro, a câmera pára e gira e volta e close no smiley ensangüentado quicando no chão. Com cinco minutos de filme, a empolgação inicial dá lugar ao tédio. Sim, aquilo era mais ou menos o que meus maus pressentimentos temiam. "300" com roupa de super-herói. Alan Moore não merecia isso.



Watchmen, o filme, é um fracasso. Terry Gilliam faria melhor. O roteiro precisou ser mudado e adaptado à curta duração do projeto e nisso os responsáveis mostraram empenho. Muitos diálogos do quadrinho estão lá, linha por linha, ou com passagens inseridas em outras falas. Flashbacks foram enxugados ou realocados, preservando suas sub-tramas básicas dentro do possível. O enredo do filme, embora enxuto e diferente, mostra-se fiel ao gibi, e talvez tenha sido isso a me revoltar mais que tudo, ver falas que eu tão bem conhecia mudando de contexto a ponto de "desdizer" o que diziam no quadrinho. A aparente fidelidade da adaptação funcionando como um álibi para que Zack Snyder, "o virtuoso", fizesse seu videoclipe de duas horas e meia sem importunações. E é isso que Watchmen é. Um clipão chinfim de duas horas e meia amparado por falas supostamente geniais desprovidas de um contexto que as faça dizer o que querem.

A HQ funcionava em níveis múltiplos de percepção, mas o filme se mantem no nível 1. Cada quadro precisa ser tão impactante quanto uma capa de revista. Mas uma sinfonia não pode ser tocada no apogeu do início ao fim. Musicalmente, ela deve "contar uma história", assim como Watchmen deve contar uma história, e uma história tem etapas, tem introdução, apogeu, conclusão... No caso de Watchmen, vai além, mas possui altos e baixos e nuances e silêncios reflexivos que fazem um emaranhado de elocubrações e situações ganharem sentido. Snyder ignora isso. Para ele, tanto faz se é um filme de faroeste, espartanos machistas de sunga ou super-heróis aposentados às vésperas do armagedon, o que vale é manter o espectador em contínuo deslumbre visual, olhos gozando a cada granulação de frame, cada salto, coreografia, gota caindo do cabelo meticulosamente esvoaçante do protagonista. Não há tempo ou espaço para pausas dramáticas, silêncios reflexivos, "ascendente e descendentes" que permitam a devida ingestão do que os diálogos propõem. As falas do roteiro têm de dar espaço ao exagero estético que nunca "afrouxa" e, por isso, mal se ouve o que é dito ante o show de estímulos. Talvez fosse melhor que não houvesse falas.


Chego a pensar nesse filme como um atentado à grandeza do quadrinho. Excedo-me? Duvido. Snyder pegou os diálogos de Moore e os anulou. Fez com que trabalhassem em prol do que questionavam. A crítica aos tempos republicanos, a Reagan, às visões unilaterais e suas conseqüências, às inversões de valores de uma sociedade doente que gera gente como Rorschach e o Comediante, "guardiões" de um mundo "torto", tudo isso virou apologia e brincadeira na mão de Snyder, como também a violência, presente na HQ, mas não de modo gratuito, gerando-nos, por isso, impacto e empatia com personagens e situações. No filme, não há empatia, ou humanismo, ou pontes que nos permitam entrar na história, pois não há história, só uma seqüência vazia de eventos.



O filme é um simulacro bidimensional do quadrinho. A morte do anão se finge fiel à obra, mas só quer mostrar sangue, maldade, maldade divertidinha. O Coruja não se choca com a atitude do ex-colega. Apoia-o numa careta como se dissesse "hell, yeah, kill this motherfucker" por dentro; o mesmo prazer mórbido dos espectadores que acharam engraçado quando Rorschach picou a cabeça de um assassino com um cutelo. "A seqüência foi quase igual ao quadrinho, com uma mísera diferença!" brada a mim um fã, no que respondo: Não. Não foi "igualzinha" ou quase. Fingiu que era. Simulou para legimimar o que Snyder queria que o público quisesse ver. A porrada, o braço cortado, o sangue digital que é "super maneiro, cara!". Esse Watchmen é um pornô onde os diálogos só prestam para entremear a ação que todo mundo espera. Mas a "ação" da HQ se dava "dentro da ação" ou onde ela não existia, uma "ação" que ocorria em nossos interiores pelo que não podíamos deixar de pensar, sentir, associar, na relação com o que a história nos comunicava. O psiquiatra só aparece no filme para que o filme nos diga que ele aparece, como uma penca de personagens, falas e seqüências dispensáveis; para que os fãs exclamem: "Ih, olha lá o psiquiatra da HQ! Ih, agora a seqüência das figuras! Ih, vai falar do cachorro agora, olha o cachorro, ih, legal, sinistro, assim desse jeito!" Nada acontece que não seja para justificar o lusco-fusco, o "verdadeiro filme de Snyder" como obra cult ou algo mais que um mero videoclipe.



Se entivesse vivo, Baudrillard consideraria a associação entre o longa e a HQ uma alegoria muito melhor de seu "Simulacros e Simulações" do que Matrix, onde se adorava citar o filósofo nos bastidores. As atuações em Watchmen seguem caminho idêntico. À exceção dos momentos de raiva, ironia, etc, as emoções são sempre em falsete; os personagens nada sentindo. São eles, não os atores, os verdadeiros intérpretes. Psicopatas interpretando humanos. Psicopatas simulando choque, tristeza ou compaixão a cada necessidade do enredo. Suas verdades interiores estampadas na máscara mórbida que, quando podia, deixava transparecer o material sádico e impassível do qual era feita.

Talvez o fato de poucos perceberem isso, que a mim parece óbvio, seja um sinal de que a doença que Moore denunciou em sua obra tenha contaminado o consenso público. Estamos mais rorschachiados e comediantizados do que nossos predecessores. Esses filmes e nossa aceitação deles refletem isso. Watchmen é a "grande piada" do Comediante Snyder para os Rorschachs dentro de nós.



Não creio que não existam qualidades no filme, mas estas são inofensivas frente ao desastre do conjunto. Para não dizer que odiei tudo, penso que um esboço de trama ameaçou dar as caras nos minutos finais, e de repente as falas moveram-se nas tumbas, levantaram-se, ameaçaram fazer-se valer e lutar contra o exagero visual pela atenção do espectador, estrebucharam e desfaleceram, pois era tarde e o estrago estava feito. Tecnicamente, muitas das soluções do roteiro adaptado fizeram sentindo (há falhas também), incluindo o fim alternativo, que precisou de menos retrospectos que o fim original requeriria, parecendo-me eficiente.

Tenho mais a falar de Watchmen, para o bem e para o mal, porém o choque negativo pela escolha do diretor, por sua interpretação do trabalho de Moore e pelo fato de tantos não terem exposto sua mediocridade me fez querer "botar para fora" em palavras e deixar de lado questões mais específicas do roteiro ou desse e daquele ator. Sei que não sou dono da verdade, e também não quero posar de politicamente correto, ou anti-estético, ou anti-violência, que para mim pode ser um recurso ótimo, desde que nas mãos certas, quer críticas ou sádicas. Um projeto como Watchmen merecia um diretor comprometido com a essência da trama.



Snyder é péssimo. Exagero por exagero, sanguinolência, impacto, porrada... prefiro Tarantino ou Rodrigues. Nenhum dos três faria Watchmen, dependendo de mim, mas Tarantino sabe diferenciar filme de videoclipe e Snyder não.




Nota posterior do autor: Escrevi este texto ontem (9/3) e o publiquei aqui na última madrugada. Sei que 90% da crítica apoia o filme, mas, aos poucos, vou descobrindo opiniões de fãs e especialistas com visões parecidas com a minha. Há minutos, esbarrei com um comentário de Isabela Boscov, da revista Veja, que tem muito a ver com o que escrevi. Para quem quer conferir o que ela disse, basta clicar aqui.


Tuesday, April 03, 2007

Sobre a arte de nossos tempos

ATO I


por André Dahmer




fonte: malvados.com.br



ATO II


por Jean Baudrillard


A partir do século XIX, a arte se quer inútil. Ela faz disso um título de glória (o que não é de forma alguma o caso na arte clássica na qual, em um mundo que não é ainda nem real, nem objetivo, a questão da utilidade ou da inutilidade nem mesmo se coloca). É portanto lógico que exista uma predileção pelo dejeto, que por definição também é inútil. Basta levar qualquer objeto à inutilidade para fazer dele uma obra. É precisamente isso o que faz o ready-made, quando se contenta em desinvestir um objeto de sua função, sem nele nada mudar, para dele fazer um objeto de museu. Basta fazer do próprio real uma função inútil para dele fazer um objeto de arte, como uma presa da devoradora estética da banalidade. O mesmo ocorre com as coisas antigas, revolutas e portanto inúteis – elas adquirem automaticamente uma aura estética. Seu distanciamento no passado equivale ao gesto de Duchamp, e elas também se tornam ready-mades, vestígios nostálgicos empalhados tais quais.
Portanto, através do dejeto, da figuração abstrata do dejeto, da obsessão do dejeto, a arte se empenha em encenar e em materializar sua inutilidade. Ela manifesta seu não-valor de uso, seu não-valor de troca (ao mesmo tempo em que se vende muito caro). Mas a inutilidade não tem valor em si, é um sintoma secundário e, sacrificando suas apostas a essa qualidade negativa, a arte se engana em uma gratuidade inútil. É um pouco o mesmo cenário da inutilidade, de pretender ao não-senso, à insignificância, à banalidade, à minimalidade, ou até mesmo ao desaparecimento e à ausência – o que testemunha uma pretensão estética redobrada. A anti-arte, sob todas as suas formas, se esforça para escapar da figura, da representação, da dimensão estética. Mas esta é irremediável, a partir do momento em que, com o ready-made, anexou a própria banalidade, e que tudo, mesmo nossa vida cotidiana, tornou-se arte (é bem por isso que não há, propriamente falando, nem arte, nem vida cotidiana). Fim da inocência do não-senso, da não-verossimilhança, da não-perspectiva, da não-transcendência. Tudo isso, que desejaria ser ou voltar a ser a arte contemporânea, só faz reforçar o caráter abominavelmente estético dessa anti-arte. Voltar ao elemento puro do objeto, à condição radical de só ser "uma coisa dentre outras", voltar a ser uma coisa absolutamente qualquer, mas guardando seu privilégio e sua singularidade: eis o que está além das forças da arte como tal. Há acidentes irônicos que a isso nos conduzem (o visitante sacrílego que urina no mictório de Duchamp, os lixeiros de Beaubourg, a Cadeira de Kossuth). Mas mesmo isso não põe fim à série estética do não-senso.


Texto extraído da "Perspicácia da motivação das banalidades "bienálicas" dos empresários e artistas contemporâneos" pertencente ao artigo "A fotografia como mídia do desaparecimento", postado neste link do orkut.

Sunday, March 27, 2005

Fernanda Breta. Ficção ou realidade?




Orkut é um "planeta"; disso todos sabem, mas um "planeta" habitado também por personagens, que mistura opiniões sinceras com blefes sacanas e sarcásticos, onde perfis reais mentem para personagens cheios de verdades para falar (ou seria o oposto pelo avesso ao contrário?). Num contexto assim, o espaço aberto à criatividade e à fantasia é total e podemos, a partir de nós ou outros, ampliar e reformular intensamente nossos horizontes de influencia dentro e fora da net.

E foi numa de minhas navegações orkutianas de rotina, explorando comunidades longínquas, descobrindo gente e idéias exóticas ou comuns, que acabei esbarrando com ELA. Tinha emitido comentários discretos sobre transar com rapazes mais novos enquanto exibia um rosto lindo e radiante na foto principal do perfil. Não resisti e rastreei-lhe a ficha.


Nome: Fernanda Breta
Profissão: Veterinária
idade: 29
para mais detalhes:
http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=8827583318061661884






Partindo do que diz o perfil, supõe-se tratar-se de uma moça simplesmente maravilhosa que, descoberta por um hábil desenhista chamado André Leal, prestou-se a servir-lhe como modelo e musa, possibilitando ao distinto felizardo o raro privilégio "Basil Howardiano" de ser guiado, inspirado e magnetizado por um autentico "Dorian Gray" enquanto expressava seus desejos artísticos numa relação idólotro-criativa. Senti uma pontinha de inveja do moço. Ele podia não tê-la como amante, mas a "possuía" como nenhum amante seria capaz, embora possivelmente de um modo diferente daquele que imaginei.

Ao se ler o perfil de Fernanda, observar suas fotos, os comentários transcritos, sua página pessoal repleta de desenhos, a naturalidade de suas opiniões, gostos pessoais, etc, fica difícil imaginar que aquilo pode não ser real. São imagens bem críveis, apesar de estranhamente difíceis de encontrar fora do âmbito orkutiano para uma suposta "musa famosa". Afinal, na net, Fernanda Breta só aparece em desenhos como esse aí de baixo.





Talvez minha vontade inconsciente àquele momento (e não sou desses que ficam babando por qualquer rabo de saia que aparece) fosse roubar a musa de desenhista, ou pelo menos fingir isso para mim mesmo. Naveguei um pouco mais pelo "cyberspace" e logo encontrei uma entrevista reveladora, creditada à André Leal, onde ele admite em primeira mão que Fernanda é só um personagem. Não existe. Um personagem que diz ser alguém real que "virou personagem", entende?

Muito criativo. Fiquei sem saber se tirava o chapéu para o cara, me entristecia com a notícia ou simplesmente não acreditava, já que não havia provas no site de que o "furo" era autêntico.



De verdade ou de mentira?



André posa com sua "musa"


Minhas buscas subseqüentes trouxeram pouca coisa a mais de relevante (a própria "entrevista-revelação" parece ter sumido da rede), e tudo o que pude fazer em seguida foi refletir sobre o assunto. A linda Fernanda Breta existe ou não? Se de fato é um personagem, parabéns para André Leal, por criar algo tão crível e tão fascinante. Não só as fotos da moça são ótimas, mas também seus comentários, absolutamente naturais. André pode ter nos mostrado um pouquinho daquilo que nosso futuro reserva, quando fotos ou vídeos não mais poderão servir como provas irrefutáveis de eventos ou gente de verdade, pois serão demasiadamente fáceis de manipular e não mais deixarão qualquer traço fronteirísrico entre real e imaginário nas imagens registradas. Uma era onde robôs e programas de computador interagirão conosco sofisticadamente o bastante para que não consigamos destinguir uma resposta humana de um simulacro. E não estou falando em inteligencia artificial consciente (ou estou?) mas em simulacros quase perfeitos, elaborados "para a percepção do outro" e não para a própria.
Aliás, Inteligencia artificial com consciencia talvez seja papo para outro tópico (e, nesse caso, não teremos mais simulacros, e sim de formas de vida no verdadeiro sentido da palavra)







Para ver o site do desenhista:

http://www.bibifonfon.blogspot.com/2003_08_01_bibifonfon_archive.html


Site da musa:

http://www.sitedagarota.com.br/down.html


Algumas poucas fotos de fernanda disponíveis:

http://www.orkut.com/AlbumView.aspx?uid=8827583318061661884


Mais um portfólio de André Leal:

http://www.fotolog.net/leal/



Infelizmente ainda não consegui reencontrar a tal entrevista onde André admite que não existe uma Fernanda de carne e osso. Se achar, ponho um link aqui.



Até daqui a pouco.