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Saturday, December 13, 2008

Coisas para se fazer antes de perecer



Recebi um meme do Elton, do blog Tendências SA, que consiste em escrever oito coisas que o blogueiro gostaria de fazer antes de ir para a cova. Imaginei algumas bem sacanas, pensei em atitudes altruístas, mas fiquei com a sinceridade, ou pelo menos a sinceridade daquilo que consegui refletir e lembrar enquanto escrevia. Penso em meu altruísmo quase como uma espécie de conseqüência natural de coisas que encaro como missões. O ato de escrever, por exemplo, de inspirar, de esmiuçar temas complexos em palavras simples (temas às vezes pouco explorados pelas idéias correntes), ajudar outros a "ligar peças" e compreender com clareza mensagens subliminares que seus instintos lhe enviavam há tempos, mas até então não conseguiam "decifrar a mensagem". Escrever tem muito disso, mesmo quando fazemos ficção. Construímos um elo, uma troca com almas primas e almas gêmeas; semeamos idéias, elas germinam e influenciam em definitivo a vida de outros. Um altruísmo indireto não menos nobre e duradouro do que construir uma escola ou contribuir, pelo exercício do magistério, com o desenvolvimento de centenas de futuros cidadãos. O cumprimento de nossas missões interiores tende a nos tornar altruístas do melhor modo possível, ainda que inspirando terceiros sem agir diretamente sobre eles. Isso, claro, quando estamos conectados a esse "conjunto de motivações da essência" e conseguimos lhe dar uma cara através de uma atividade correlacionada, algo dificílimo na maior parte dos casos, visto que passamos a vida cercados de influências que nos desviam de nossas reais buscas, impondo outras em seu lugar.

Ademais, segue minha lista. Algumas coisas bobas, outras menos. Peço perdão ao Elton porque minha lista possuirá dois itens extras, que não podem ser omitidos. Nenhum deles pode.



1 - Publicar um romance que escrevi recentemente, e outros livros no futuro, em diferentes estilos e sobre diversos temas, alguns em conjunto com outros escritores.

2 - Conhecer países como Inglaterra e Estados Unidos, que tanto vemos na TV, e, no meu caso, ainda não tive a oportunidade de visitar. Sei que a maioria das pessoas, quando pensa em viagens internacionais, prefere conhecer lugares como Machu Picchu, Nova Deli, Cairo, Roma, Atenas, Paris, Havana... também tenho vontade de ir a essas terras, mas Inglaterra e Estados Unidos estariam no topo da minha lista, dada, talvez, a familiaridade que eu tenha com a língua e diversos aspectos da cultura anglo-americana.

3 - Encontrar minha cara-metade, se é que isso de fato existe.

4 - Ficar em paz com meus familiares, conseguir deixar de lado os conflitos do presente e do passado, dar o passo seguinte e conseguir ver o lado bom de pessoas que foram tão importantes em minha vida. Às vezes, é preciso viajar o mundo para se compreender o valor dos tesouros que sempre nos cercaram. Faz parte da jornada do homem. O mesmo vale para amigos e ex-inimigos, pessoas que infelizmente ainda estou longe de conseguir perdoar do fundo do coração, algo que espero realizar um dia. O mesmo vale para mim. Perdoar-me pela própria inflexibilidade.

5 - Mudar-me para outra cidade, ou ao menos outra parte do Rio de Janeiro, e viajar por diversos cantos do Brasil onde ainda não pude estar.

6 - Fazer uma consulta ou bater um papo com José Ângelo Gaiarsa. Posso mandar um e-mail para ele, mas ainda não o fiz.... (Juro que faço em 2009)

7 - Voltar a dublar filmes como outrora.

8 - Revisitar parentes que não vejo há anos e reencontrar amigos de outros tempos


Itens extras:

1 - Reeditar um certo programa de rádio que fiz em 2001, com o elenco original, hoje espalhado pelo país. Mesmo que seja de graça só para colocar na internet. O programa era muito bom de se fazer.

2 - Dar um basta nessa minha preguiça e procrastinação.


Reenvio o meme para alguns chegados. A regra diz oito, mas o próprio Elton não a obedeceu. A lista publicada no blog dele possui 5 endereços. Mando então para meus parceiros Vulgo Dudu, Sumpa, Ellie, Surfista Platinado, Marcelo e Phernando Faglianostra.


Seguem as regras:

- Escrever uma lista com 8 coisas que sonhamos fazer antes de ir pro beleléu;
- Convidar 8 parceiros(as) de blogs amigos para responder também;
- Comentar no blog de quem nos convidou;
- Comentar no blog dos nossos(as) convidados(as), para que saibam da "convocação";
- Mencionar as regras.

Grande abraço.


Friday, November 21, 2008

Os 10 horrores da sala de cinema



Pegarei carona em um dos memes recentemente postados por nosso colega Vulgo Dudu do blog Cinéfilo, Eu?.

O meme em questão consiste em apontar, na opinião do blogueiro, quais foram os 10 piores filmes por ele já vistos em sua história de espectador. Confesso: fazer uma lista dos 10 piores não é fácil. O número de abacaxis que trespassa meu raciocínio é infinito, e acaba sendo necessário criar algum parâmetro, mesmo que incoerente e ininteligivelmente subjetivo, para justificar as escolhas. Deixei de lado aqueles filmes inocentes, já feitos para ser uma porcaria, reconhecidos como tal e ganhar reprise no "Cinema em Casa". Refleti e conclui que optaria, entre tantas, pelas produções que mais me desapontaram, pelos mais pretensiosos (em alguns casos, até nocivos), por filmes que carregavam uma marca de time grande e jogaram como timinho, ou por casos em que meu horror ante a falta de qualidade foi tanto a ponto de não haver modo de não mencionar a causa, independentemente dos porquês ou de haver porquês. Meu principal parâmetro foi a experiência individual, emocional, inominável. Ainda assim, procurei colocar ao lado de cada escolhido, uma justificativa, o provável motivo que o fez constar em minha lista de traumas, decepções ou mero desprezo cinematográfico.


Seguem os 10 horrores:


1 - Independence Day - Um de meus primeiros mega-desapontamentos com o cinema de ação estadunidense. Devo lembrar que este filme foi lançado ainda no fim da minha adolescência, período em que meu olhar crítico para com Hollywood estava pouco desenvolvido. Pelos comerciais, eu esperava um novo Star Wars, algo grande que marcaria a história do gênero por décadas e me deparo com um roteiro com QI de ameba. "Vírus de computador"? Valha-me Deus! O cara desenvolve um virus em um computador "made in terra" para infectar um sistema de processamento de dados alienígena que ele nem conhece? E o Will Smith aprendendo a pilotar o caça alien em um minuto, simplesmente virando o papelzinho de cabeça para baixo? Independence Day não entrou para o currículo do gênero pela porta da frente como se esperava. Virou apenas um entre infindáveis "trash movies" involuntários de mau gosto e orçamento gigante que marcaram Hollywood.

2 - Pearl Harbor - Outro Trash da linha do Independence Day. Dessa vez, claro, eu estava mais vacinado quando em contato com o "virus". Pearl harbor é uma tentativa patética de juntar a fórmula "high budget - mela cueca" de "Titanic" com a receita patriótico-mitológica de produções como "Resgate do Soldado Ryan". O resultado é bizonho. Um filme careta, idiota, com personagens cheios de certezas burras e frases feitas como se pudessem, a cada momento, sintetizar o drama de situações complexíssimas com meia dúzia de palavras. Cinema reducionista em seu estado bruto, Pearl Harbor é uma das grandes decepções da história da sétima arte. Algumas cenas de ação até chegam a ensaiar algo empolgante, mas depois frustram, descambando para uma inverossimilhança demasiadamente forçada e maniqueísta.

3 - As Panteras Detonando - Seu predecessor, "As Panteras", encabeçou a primeira leva dos "Filhotes de Matrix" que dominariam uma parte significtiva do gênero ação nos anos seguintes, um "cinema-videogame" photoshpado onde tudo é possível aos indivíduos de carne e osso graças às maravilhas da virtualidade no mundo real. "As Panteras" pelo menos funciona dentro de seu nicho, algo que definitivamente não ocorre com "As Panteras Detonando", que, de tão ruim, decepcionou até os fãs mais xiitas do trio. McG era diretor de comerciais e videoclipes quando engrenou com "As Panteras", e parece ter se empolgado com o sucesso do projeto ao ponto permitir alçar "vôos mais criativos". O resultado é um videoclipe de quinta categoria com uma hora e meia de duração. Haja saco!

4 - Dungeons and Dragons - É quase inacreditável que alguém do calibre de Jeremy Irons tenha aceitado integrar um projeto tão grotesco em sua essência. Dungeons and Dragons sintetiza o outro extremo do que pode acontecer quando os "conhecimentos secretos" da computação gráfica são concedidos aos despreparados. Se de um lado temos uma geração de bizarrices pseudo-épicas com delírios de grandeza e efeitos especiais de milhões de dólares que mais fazem rir do que outra coisa, do outro, seus primos pobres (e põe pobre nisso) nos deleitam com peças de ginásio mal filmadas e editadas no PC do vizinho. Dungeons and Dragons gera náusea até em jogos de Playstation 2, de tão mal-feito que é. Os personagens são estereótipos de estereótipos. Aliás, o Shorty, de "Todo Mundo em Pânico", faz um bardo blackstyle nesse filme.

5 - Romeu tem que Morrer - Um Filhote de Matrix que nasceu paralítico. Não sei se deveria colocar este filme na lista, pois mal consegui assistí-lo na íntegra e minha memória fez questão de apagar algumas partes - talvez um mecanismo inconsciente de proteção contra traumas cinematográficos. "Romeu tem que Morrer" pertence à mesma categoria de "As Panteras Detonando" em todos os sentidos, e muito do que foi dito sobre uma "pérola" vale para a outra.


6 - O Imperio do Besteirol Contra Ataca - Kevin Smith ganhou nome no cinema com filmes de baixo custo sustentados por roteiros ácidos, sagazes e originais. O sucesso lhe rendeu atenção do mercado e, conseqüentemente, grana para produções onde pudesse ousar sem grilos orçamentários. "O Império do Besteirol Contra-Ataca" deveria celebrar o trabalho do diretor e o legado de seus dois principais personagens Jay e Silent Bob, que integram quase todos os filmes de Smith. Infelizmente, o cara se empolgou com o melado e se lambuzou. Quis juntar todos os atores importantes de seus outros filmes, ressuscitar ídolos de infância esquecidos por Hollywood (leia-se Carrie Fischer e Mark Hammil), abusar de suas fantasias de adolescente tarado na elaboração do roteiro e entremear tudo com uma trama até promissora, mas muito mal desenvolvida. Exagerou nas bobagens e perversões, esquecendo-se do contraponto que as tornava interessantes em trabalhos anteriores: as falas e situações inteligentes. Smith errou feio até com seus Jay e Silent Bob, aqui uma sombra do que sempre foram como personagens.

7 - Bad Boys II - Michael Bay merece uma menção honrosa, pois dirigiu dois dos dez piores filmes expostos nesta lista. Bad Boys (o primeiro) talvez seja o único bom trabalho em que esteve envolvido. Um blockbuster de ação sustentado, entre outras coisas, pela química dos dois personagens principais e pelas situações inusitadas em que eles se envolvem enquanto arriscam a pele entre explosões e frenesi. Eis o segredo do filme, misturar na dose certa a leveza com a porrada, a comédia, o absurdo e os momentos de tensão real. Bad Boys II não faz jus a nada disso. É um filme estúpido desde o começo, narcisista, mórbido, racista e exageradamente escatológico nas falas e situações. A história não faz sentido. Os personagens são insensíveis e grossos ao extremo. Marcus e Mike perderam toda aquela sutileza de caráter que os tornava interessantes e engraçados. Viraram estereótipos "gangsta rap" da pior espécie. O filme, aliás, é um ode à escrotidão, nos personagens, no roteiro e nas mensagens subliminares que emite ao público. Michael Bay aqui nos dá uma aula de como estragar uma franquia de sucesso.

8 - Fomos Heróis - Se pararmos para pensar, notaremos que o título em português deste longa carrega um equívoco, pois seu nome original (We Were Soldiers) está relacionado àquilo que deveria ser a essência do filme, mostrar os combatentes americanos no Vietnã como soldados no cumprimento do dever, em vez de heróis ou assassinos. Se pararmos para pensar um pouco mais, veremos que, em termos práticos, "Fomos Heróis" faz mais jus ao nome brasileiro que ao americano, exatamente por mergulhar de cabeça na onda "pró-guerra politicamente correta supostamente realista" dominante em Hollywood desde "O Resgate do Soldado Ryan". Esta pérola da pieguice está anos luz aquém do trabalho de Spielberg. É repetitiva, abusa da câmera lenta, dramatiza em excesso seus "momentos chave" e exagera na quantidade deles. Erra na dosagem dos ingredientes e é simplista quando relaciona os personagens com as variáveis morais e políticas da guerra. Irônico, aliás, que "Fomos Heróis" seja apontado por muitos veteranos do Vietnã como o filme mais realista já feito sobre esse tema, apesar das pesadas crítica que recebeu, ao contrário de "Apocalypse Now", unanimidade entre cinéfilos, mas não entre ex-combatentes, que o consideram fantasioso e inverossímil. Como estou mais para cinéfilo que para veterano, fico com a complexidade de "Apocalipse Now" e dou uma banana para "Fomos Heróis".

9 - Joanna D´Arc - O grande problema desse filme tem um nome. Milla Jovovich. Tudo bem que Luc Besson também está longe de constar na minha lista de diretores favoritos, mas tivesse ele escolhido uma atriz com o peso que a protagonista pedia, este filme não seria, de longe, o abacaxi que é. De que adianta chamar Dustin Hoffman, John Malkovic e Faye Dunnaway, se o papel principal, da personagem que é a marca do filme, da moça que na idade média inspiraria hordas de brucutus a lutar pela pátria e vencer, cai nas mãos da protegidinha do diretor, do bibelô que ele tá comendo, da songa monga sem um pingo de expressividade que mais parece uma princesa em apuros no meio dos soldados que deveria liderar e inspirar? O peso dos coadjuvantes acaba por ofuscá-la mais, e também à essência do filme, pautada na força de sua personagem chave.

10 - Street Fighter - Não é raro ver os americanos tomando chocolate dos japoneses na hora de adaptar jogos de videogame para as telas do cinema e da TV. Se compararmos a série animada nipônica, ou o longa oriundo desta série com os desenhos Street Fighter americanos ou o filme estrelado por Van Damme, percebemos o quão grande pode ser a diferença de competência entre quem leva a serio o que faz e quem não leva. A série japonesa era maduríssima e rica na elaboração de seus personagens e tramas enquanto o filme e o desenho americano se reduziam a estórias bobas, infantis e personagens superficiais. Para piorar, Street Fighter foi feito antes da era da computação gráfica, o que expôs ainda mais a mediocridade do projeto, que, de tão ruim, toma pau feio do irmão lançado três anos depois, Mortal Kombat.


Menções honrosas, já justificadas, para Os Espartalhões e seus derivados, e também para os Batmans de Joel Schumacher.




Tuesday, April 08, 2008

Os cinco injustiçados


Não era exatamente esta a surpresa anunciada para antes do "Boletim Formula-1", previsto para estrear mês passado, adiado a esta semana, e sem previsão certa para inauguração, já que concorre com outras idéias em minha mente, e, dependendo da inspiração, pode ou não retomar a geladeira.

Esse sábado recebi um meme criativo do blog Cinéfilo, Eu?, e o repasso a seis outros blogs: Bagulho Digital, Diógenes em Dogville, Psychoblog, Tendências S.A., Fábrica de Bobagens e Blog da Ellie.

A idéia do meme é listar cinco filmes que o blogueiro considere excelentes, mas subestimados pelo público e pela crítica especializada. Pode-se justificar as escolhas, mas não é necessário fazê-lo.

Lá vai minha lista e suas respectivas justificações:



1 - Calígula (1979 - Tinto Brass / Gore Vidal / Bob Guccione)

Não poderia começar com outro filme. Considero esta uma obra de grande relevância artística e história, encarada por muitos como um trabalho menor, uma pornochanchada de alto orçamento disfarçada de épico. Não é. Ainda que Guccione utilizasse o filme para promover suas playmates, a idéia e a essência da coisa foram anteriores à sua entrada no projeto, anteriores às divergências entre Brass e Vidal. Calígula atinge exatamente aquilo que nenhuma produção hollywoodiana conseguiu ao longo da história, nem Gladiador, nem Cleópatra, nem Ben Hur (apesar do mesmo roteirista), nem aquela série asséptica da HBO repleta de romanos comedidos e puritanos. A alma de glorioso império enfim emerge a ponto do espectador perceber subliminares e consistentes relações orgânicas entre a arquitetura, a indumentária e os trejeitos dos personagens. Heranças da castração cristã e da fugacidade pragmática de nosso tempo são surrupiados, distorcidos, abandonados, questionados e embebidos nos frutos da liberação sexual dos anos 60, ainda fresca nos ideais culturais correntes, mas em crescente maculação mercantilista. Calígula é um filme ousado que alça ares de verdade artística e até histórica sem premanecer focado em propostas realistas de cunho reprodutivo ou pseudo-reprodutivo, preferindo o teatral, o alegórico, o falso para tocar o verdadeiro. Não sei se é a melhor obra de época sobre o império, mas dá chocolate em qualquer dessas produções americanoides que resumem o espírito de Roma a seu lado combativo, decerto o único ponto em que os donos do mundo moderno encontram elos com os do mundo antigo.

Assista ao trailer aqui


2 - 1941, Uma Guerra Muito Louca (1979 - Steven Spielberg)

A primeira comédia de Spielberg é considerada por muitos como seu primeiro fiasco. O prejuízo nas caixas registradoras não dá margens a interpretações diferentes sob o prisma mercadológico, mas a espectativa criadas por sucessos anteriores como Tubarão e Contatos Imediatos do Terceiro Grau geraram um descontentamento injusto de público e crítica. Ao contrário do que disseram, nem o elenco abarrotado de estrelas e nem o roteiro decepcionaram. 1941 é uma comédia leve, inteligente e relativamente despretensiosa que lida com o elemento pastelão na medida certa ao misturá-lo com a paranóia do período retratado e funciona do início ao fim. Sua dinâmica flúida e ininterrupta seria retomada nas aventuras do personagem Indiana Jones, uma espécie de filho híbrido desta empreitada. Lembro-me do que senti quando moleque, aos primeiros contatos com este filme, e de como jamais me decepcionei ao rever John Belushi e Dan Aykroid em seus ataques de histeria. Se 1941 virou nota de rodapé da filmografia de Spielberg na opinião do imaginário público, para mim e muitos ainda consta como exemplo de competência e referência de cinema cômico.

Assista ao trailer aqui


3 - A Hora do Show (2000 - Spike Lee)

Considero esta uma das principais obras senão a melhor do polêmico diretor. Bamboozled (ou "Hora do Show", em português) passou batido dos cinemas brasileiros e chamou mais atenção em sua terra natal pelas controvérsias levantadas do que pela grandeza poética. O filme denota uma etapa mais madura de Spike Lee, que aborda seu tema favorito de modo profundo, mais auto-crítico, diluindo aquele rancor típico de seus personagens em caracterizações e diálogos mais sutis, dúbios, volúveis, trocando os "socos" de "Do the Right Thing" por eficazes luvas de pelica. Lee destila os traumas afro-americanos estabelecendo elos complexos com o mercado e a história ao afirmar que o antigo circo do homem branco pode ter mudado de cara, mas nunca deixou de existir. Os palhaços de hoje são tão ou mais conformados do que aqueles que atuavam nos "Menestréis" do passado, visto que, sem perceber, alimentam a máquina opressora cada vez que põem adiante suas idéias de contestação e ação afirmativa, distorcidas e superficializadas pela industria cultural ao longo do tempo. Michael Rappaport e Damon Wayans geram um delicioso e contraditório dueto com seus personagens. Samion Glover e Tommy Davidson completam a sinfonia atuando impecavelmente. Em filmes como este, o lado militante de Lee permanece firme, mas concedendo espaço ao artista e ao criador. Pena que "A Hora do Show" seja tão menos conhecido que seus "irmãos" de maior sucesso.

Assita ao trailer aqui


4 - Brazil (1985 - Terry Gilliam)

Este filme, apesar do nome, nada tem a ver com nosso país, pelo menos em tese. Análises mais profundas podem sim oferecer relações contundentes entre a máquina burocrática nacional e a dos personagens. Brazil é filho de uma era crítica que almejava descontruir pilares na "Sociedade da disciplina" como tão bem fizeram 1984 e Laranja Mecânica, apontando um apocalíptico futuro de pessoas maquinizadas pela opressão social, desesperadas em encontrar uma brecha por onde pudessem respirar ares de liberdade e descompromisso. Tudo começa com um homem, uma paixão proibida, um brado pelos valores da individualidade, ameaçados na realidade de então pela massificação consumista do capitalismo e por imposições e limitações no comunismo. O clima estéril, sombrio, azulado, desprovido da magia e infestado pela "concretude" cética da realidade industrial reduz sonhos a aspirações profissionais, civis e materiais desprovidas de qualquer brilho ou humanidade. O universo criado por Gilliam funciona na ficção e nos paralelos que faz com a impessoalidade moderna e pós-moderna. O fim do comunismo e as transformações ocorridas naquele modernismo que Foucault um dia chamou "Sociedade da disciplina" não envelheceram este filme. Ao contrário. Provaram-no profético.

Assista ao trailer aqui

Assista a um documentário em três partes sobre o filme aqui


5 - O Enigma do Outro Mundo (1982 - John Carpenter)

Lançado às telas como remake de algum filme antigo, esta obra mostra o quanto a ficção científica pode ser levada à condição de terror e suspense a ponto de poder competir com obras puras desses gêneros. É um filme tenso, claustrofóbico, que justifica e multiplica os medos do espectador em cada "revelação" do monstro alienígena. A história se inicia quando um grupo de pesquisadores instalados na Antártida salva um cão da morte e encontra uma estação norueguesa abandonada onde estão cadáveres e um estranho corpo congelado. Deste ponto em diante, coisas bizarras passam a acontecer entre eles. Muitos hoje encaram "O Enigma do Outro Mundo" como um "gore" de segunda repleto de "defeitos especiais". Tais "defeitos" me assombraram por semanas e, pelo menos sob meu ponto de vista, ainda funcionam. Ouvi dizer que há planos para outro remake da produção. É esperar para ver.


Assista ao trailer aqui



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Lido o texto, reparadas ou não as injustiças, fica no ar uma pergunta... Como seria um remake de Calígula com atores da nova geração? Quem seriam os intérpretes?