Saturday, July 03, 2010
E se Felipe Melo fosse mulher?
Sunday, February 21, 2010
Mini Caveirão

Medo de Sinal de trânsito, sequestro relâmpago, bala perdida?
Seus problemas acabaram!
O governo da Índia, aproveitando a onda do sucesso do filme Tropa de Elite, acaba de lançar no mercado, o Personal Caveirão, feito sob medida para empresários, juízes, turistas e figurões da alta roda que precisam se proteger da selvageria da plebe descontrolada. Já é grande o número de encomendas para o Rio de Janeiro, e uma empresa local se oferece para produzir uma versão licenciada do produto, que também contará com uma variante Light para um público de menor poder aquisitivo, incluindo Policiais e militares de baixa patente.
Com o Personal Caveirão, você não precisará mais ter medo de que aquele desvio nebuloso te leve para dentro do morrão sinistro.
Wednesday, November 18, 2009
Triste dia para o futebol

Dou graças aos céus de não ter dedicado um segundo desta quarta-feira às importantes (e não tão importantes) partidas nela realizadas.
No maracanã, Fluminense e Cierro Portenho protagonizaram uma vergonha generalizada após o fim do jogo, tal qual o pobre Palmeiras, e entre os seus, após acachapante derrota para o Grêmio no Olímpico. Na Europa, as torcidas lamentam uma das classificações de copa mais vexaminosas dos últimos tempos, com Thierry Henry ajeitando, com a mão, o lance que qualificaria a França.
Os três episódios repercutirão semana afora e talvez a França seja vaiada em sua estréia na África do Sul. Temos aí nove candidatos a cabeça de chave para o sorteio dos oito grupos da copa e receio que França ou Holanda fique fora dessa lista, figurando na faixa das segundas-forças e determinando qual será o "grupo da morte" da vez. Espero que os franceses recebam esta honra, merecidíssima pelo futebol apresentado e pelo modo como se classificaram.
E torço, claro, para esse nono cabeça de chave, então rebaixado, não cair no grupo do Brasil.
Tuesday, November 10, 2009
Esporte "para macho"
Friday, September 04, 2009
Catarse do horário nobre
Essa semana o brasil noveleiro pôde outra vez se vingar de Ivone (Letícia Sabatela) pelas mãos de Sílvia (Debora Bloch), na segunda surra que a dita cuja tomou no folhetin. A primeira foi para Melissa (Cristiane Torloni). Sempre que temos uma vilã psicopata ferrando a mocinha em vários capítulos de uma novela, os autores concedem à mocinha e à nós, através dela, o gostinho de uma boa surra catártica. Sim, a mocinha vem, pega a vilã de surpresa (ou não) e SEMPRE ganha a porrada, pois não haveria nada mais teledramaticamente frustrante do que ver a vilã também triunfando na hora do "pega para capar". A mocinha vai lá, arrebenta a fuça dela e podemos curtir a vilã de quatro por alguns minutos. Virou clichê essa coisa da "surra depois da aula", da lição informal, justiceira, complementar e necessária à punição definitiva que será morte ou prisão. Precisamos nos sentir confortáveis com o fato de que, num duelo limpo mano-a-mano, a vilã será sempre a mais fraca, ou seja, de certo modo, reforçamos em nós o fato de, independentemente da vitória ética de um personagem sobre o outro (no caráter e no desfecho do enredo), ela deve ser ratificada no braço, no PAU, como um acerto de contas entre alunas do colégio, para que realmente sintamos a mocinha como "melhor" que a bandida ("ela é melhor mesmo, porque na hora H não apanhou"). Seria interessante ver o contrário, a mocinha chega cheia de marra e, além dos prejuízos na trama, dá à vilã aquele gostinho de "na porrada, não tem pra tu não, viu?" antes dela ir presa ou ser morta nos capítulos finais. Como num certo episódio de corra que a polícia vem aí 1/2
Thursday, August 20, 2009
Geração GI JOE

Se você foi garoto nos anos 80, antes dos videogames e da realidade virtual se sofisticarem a ponto de poder substituir o papel de um brinquedo no imaginário criativo de uma criança ou pré-adolescente (afinal de contas, muitos hoje preferem "simular" futebol em um Pró-evolution Soccer do que em um jogo de botão ou brincar de piloto em um F1 GP 4 a uma pista de autorama), existe uma grande possibilidade de já ter brincado de Comandos em Ação e acompanhado o desenho meia-boca que servia de sustentação publicitária aos bonecos.
Não, não vou gastar parágrafos explicando o que eram esses comandos em ação, que começaram com 30 cm de altura (quando eram chamados Falcon por aqui), e depois ficaram pequenininhos em função da crise do petróleo, ganhando o novo nome. Nos states, foram sempre os "soldados João", ou GI JOE. Mesmo a galera mais nova deve saber do que se trata e, se não, a Wikipedia está aí para isso.

Bom... para mim e muitos moleques da época, os Comandos eram uma brincadeira deliciosa, uma lavagem cerebral belicista muito bem elaborada que pegava a garotada de jeito. Tá certo que muitos de nós já praticavam guerra com armas de plástico, aviões revel e até com os aparentemente pacíficos playmobils, que também disparavam seus rifles, revólveres e canhões. Mas eles não eram páreos para a especificidade, as articulações, o realismo de detalhes e a versatilidade bélica dos GI JOEs. Quando o négócio era guerra moderna, não tinha para nenhum outro boneco.
Hoje, essa galera tem mais de trinta, e há também os mais novos que pegaram os JOEs dos anos noventa, com bem mais personagens, equipamentos e veículos disponíveis. Antes, quem não tinha amigo que ia para os states e não podia importar boneco, improvisava para ter seus Destros, Dukes e Comandante Cobras. Eu mesmo pintei uma Scarlet para virar Baronesa. Vintões, trintões e até quarentões da era Falcon lembram com saudade dos pequenos filmes de guerras que faziam em seus lares, dos mil e um desfechos possíveis para qualquer história, e hoje falam com amor e orgulho dos bonecos que guardaram, venderam, deram ou jogaram na lata do lixo.

Tais personagens ainda existem, os bonequinhos evoluíram para formas mais delgadas e Hasbro e Marvel não pararam de explorar seu filão, que teve novas séries na TV e nos quadrinhos, além de reunir uma convenção anual de aficionados e gerar um filme, sim, um filme, como muitos de nós queríamos há tanto tempo, aliás, talvez não exatamente como muitos de nós queríamos. Décadas passaram, e o cinema high tech videogame se apropriou de nossos queridos personagens, para a tristeza de muitos e alegria de alguns.

Não vi esse filme ainda, e pressinto que detestarei, mas a quem odiou ou odiará o longa-metragem (e a quem gostou), uma notícia agradável. Ano passado, o Adult Swin do Cartoon Network lançou uma pequena série de websódios chamada GI JOE Resolute, talvez uma tentativa de reativar os personagens como feito em He-Man, que teve uma série nova no canal. Infelizmente, esses novos JOEs só conseguiram a websérie, que não chega a ser uma Brastemp também, mas é divertida e conta com armas de fogo de verdade em vez de Lasers, morte de personagens conhecidos e nada de gritinhos "Yo JOE" e "Cobra" (ui!) antes das batalhas. Tivesse seguido como série televisiva, angariaria aprovação de muitos fãs da linha antiga e do desenho antigo, e também gente nova. Para quem ainda não viu, vale a pena conferir os 11 websódios no youtube (assista ao primeiro aqui). Não é a oitava maravilha do mundo, mas vale a pena para quem é ou foi fã dos personagens.

Há também um clipe divertido feito pelo pessoal do Funny or Die, com a presença de atores conhecidos, como Vinnie Jones e Julianne Moore, a Balada GI JOE, que mostra como alguns daqueles famosos personagens seguem com a vida após tantos anos dedicado à combater a organização Cobra.
E além de clipes e afins, a net oferece sites dedicados à série, com guias dos personagens e dos bonecos e veículos lançado em cada ano desde 82, quando os JOEs ficaram pequenininhos e mais versáteis, até os dias atuais.
Uma curiosidade: Os GI JOEs brancos vendidos nos EUA tinham um tom de pele nitidamente mais claro do que os que eram vendidos aqui. Eu nunca tinha notado isso até ganhar um boneco americano, o Ace, e perceber que ele tinha a pele bem branca e que todos os JOEs americanos brancos eram assim. Os comandos daqui eram mais bronzeados.
Tuesday, June 10, 2008
Faroeste estudantil

Acuados ante a crecente onda de assassinatos em massa nas escolas e faculdades, estadunidenses cogitam a possibilidade de estudantes poderem andar armados em tais instituições. O estado de Utah já aprovou a idéia. Aos poucos, o povo yankee vai encontrando brechas para resgatar, no plano prático, seu mais sórdido desejo ancestral. A volta da terra de Marlboro. É cada um por si, e quanto mais cedo aprender, melhor. Saiba mais lendo esta matéria aqui.
E para quem ainda pensa que atirar é como jogar Counter-Strike...
Sim, eu sei... a resenha do Indiana Jones vai chegar. Não se preocupe!
Saturday, January 05, 2008
As novas "guerras video-game"

Há dezessete anos, quando Don Bush I ordenou que tropas americanas e uma coalisão de nações expulsassem Saddam Hussein do Kwait, popularizou-se um jargão que por muito tempo não sairia da boca de quem acompanhou via CNN os "bombardeiros cirúrgicos" e demais imagens eletronicamente geradas para ilustrar mundo afora as ações ocorridas na "Guerra do golfo". Uma fusão entre desenvolvimento tecnológico de aparatos bélicos, filtragem e manipulação do conteúdo divulgado, ausência de imagens vívidas do conflito - até por que muito do que se conseguiu captar ocorreu na escuridão e bem longe do alcance das câmeras - , gerou um senso, às vezes até correto, mas quase sempre equivocado, de um novo conceito de guerra. Uma guerra mais "virtual" do que real aos olhos dos combatentes e, principalmente, do público, uma "distância eletrônica" entre protagonistas então mediados inteiramente por satélites, imagens de computador, óculos noturnos, estatísticas e robôs inteligentes, estes sim responsáveis pelo sujo trabalho de "ver" e "tocar" o conflito.
A nós e ao "soldado do futuro", restariam os pixels de uma batalha quase irreal, mais limpa, precisa, moralmente correta e, de certa maneira, sem a aura mística macabra de caos, drama e grandiosidade que as guerras clássicas sempre tiveram. Quando alguém queria se desfazer deste capítulo da história dos conflitos como uma "guerra de verdade", chamava logo de GUERRA VIDEO-GAME, e assim cresceu o jargão, que se revelaria mais falácia que realidade nos confrontos subseqüentes onde os reis yankees da tecnologia perfeita resolvessem se meter, leia-se Somália e Iraque. Provou-se, portanto, que as guerras ainda são o que sempre foram, embora as Guerras Video-Game, estas sim, venham mudando dramaticamente nos últimos anos com o furiosíssimo avanço de consoles, "engines" e recursos eletrônicos do meio virtual. Hoje, a tecnologia evolui mais rápido no mundo cibernético do que no meio militar. Se a realidade dos conflitos armados ainda está longe de ser intitulada virtual, os combates dos video-games mostram sinais de que não demorarão a se sincronizar com a realidade e as superproduções hollywoodianas. Atores e figurantes que se cuidem! GUERRA VIDEO-GAME ganhou um novo significado.
Dois jogos interessantíssimos atrairam minha atenção no youtube recentemente. Medieval Total War 2 e Army Assault, o primeiro, parte da série TOTAL WAR, é um game de estratégia que simula campanhas militares desde a idade das trevas até o período das expansões marítimas, contando com complexísimos recursos que, se bem utilizados, permitem ao usuário reconstituir batalhas históricas com um bom nível de acuidade, apesar dos eventuais "bugs" e problemas típicos de um software ainda em desenvolvimento. Seu antecessor, Rome Total War, foi inclusive utilizado como instrumento em documentários para descrever grandes batalhas da antiguidade. Não é por menos. Assista a este vídeo obtido a partir do jogo e veja se os games já não estão virando algo mais do que pixels sem graça, números e estatísticas.
ARMY ASSAULT impressiona pelo realismo da movimentação dos combatentes e pela qualidade gráfica. Em determinados instantes somos levados a associar cenas do jogo com as de uma guerra real. Confira se o conflito abaixo não poderia estar sendo realizado nas ruas de Bagdá ou outra cidade do oriente médio.
Estes e mais vídeos gerados a partir de "Medieval Total War 2" e "Armed Assault" podem ser obtidos por este link, ou baixados em melhor resolução, neste site da rede.
Friday, December 28, 2007
Pérolas do youtube - Operação Búfalo
Um dos vídeos mais assistidos do youtube nos últimos dias, e merecidamente, se inicia como uma reles e rotineira caçada nas savanas africanas onde leões (ou leoas, não sei) partem para cima de uma manada de búfalos para apanhar um filhotinho, que é lançado indefeso na água pelos felinos e atacado ferozmente enquanto estes procuram imobilizá-lo, enfraquecê-lo e matá-lo num processo doloroso e agonizante. Até aí, nada muito distante dos National Geographics que se ve por aí, mas os leões e os pesquisadores não contavam com duas surpreendentes reviravoltas na história: a súbita aparição de um novo caçador e... bom... assista e testemunhe o esplendor da natureza.
Monday, September 03, 2007
Resenha - Tropa de Elite - 2007

Não dá mais para segurar a avalanche. O filme Tropa de Elite, longa brasileiro dirigido pelo cineasta José Padilha com o apoio de ex integrantes da polícia, que tem como base um livro "quase" homônimo, escrito à três mãos, incluindo a do renomado antropólogo Luis Eduardo Soares, já se espalhou pelo Rio de Janeiro e território nacional antes mesmo de aparecer na telona. A produção deveria estrear em novembro, mas uma versão inacabada dela caiu em mãos erradas e virou cópia pirata, circulando aos milhares pelo mercado informal, depois internet, youtube, e, segundo uma certa fonte, quarteis da Polícia Militar. Atores até então desconhecidos, como o ex-bilheteiro André Ramiro, já são abordados na rua como celebridades.

Tropa de Elite pode ser nosso próximo "Cidade de Deus" em termos de repercussão nacional e internacional, pois ostenta bons ingredientes comerciais, é excepcional pelo ponto de vista técnico, possui um enredo impecável que esmiuça com ousadia, mas também um certo senso de justiça, o universo corrupto e desamparado da polícia militar carioca, onde um oficial precisa se virar ganhando "quinhentos contos por mês", correndo risco diário de vida, caso não fature "um por fora" ou não faça acordos com os donos do morro oferecendo tréguas esporádicas em troca do "arrego". O filme traça um perfil complexo e profundo do Rio de Janeiro, começando pelas relações internas dentro da polícia, que precisa achar um "jeitinho" de funcionar ante o descaso constante do governo e a sordidez de determinados elementos de alta patente dispostos a contaminar todo um sistema supostamente destinado à proteção do cidadão, transformando-o numa rede fraudulenta e corrupta onde o policial mais honesto e bem intencionado precisa passar por cima da lei para não sucumbir. Um desses policiais é André Matias, aspirante ao oficialato e estudante de direito. Através dele, o autor estabelece elos entre a guerra do tráfico e o mundo acadêmico da elite juvenil que discute sociologia carioca a partir de Foucault e não dispensa seu baseadinho enquanto o couro come lá fora; que recorre a ONGs para concretizar projetos de consciencia social, mas nem sempre se apercebe das reais questões inerentes ao submundo que ingenuamente almeja entender e influenciar, e que está inevitavelmente além (ou aquém) de suas realidades.
Tropa de elite não é um filme de mocinhos e bandidos; não busca apontar "certos" e "errados" na índole individual dos personagens mais do que ater-se às questões e poderes envolvidos no jogo de cartas marcadas que é a vida carioca. Quase todos os personagens, do mais honesto ao mais cruel, corrupto ou tolo, define-se como um elo, uma peça que muda constantemente de posição e, conseqüentemente, de papel e índole. Cada policial, cidadão ou bandido é um ser humano com uma história de vida particular.
Além disso, mesmo percorrendo o âmago da sordidez humana em busca de seus "porquês", o roteiro consegue fugir das típicas insinuações fatalistas de filmes semelhantes, quando, subconscientemente, envolve o espectador na guerra do tráfico, afirmando nas entrelinhas, e às vezes nas linhas mesmo, que somos todos parte dela, queiramos ou não. Ou nos omitimos, ou nos corrompemos ou entramos para a "guerra".
Uma das chaves para este anti-fatalismo é a perspectiva pela qual o Rio nos é esmiuçado. Quem conta a história é Nascimento, capitão da tropa alfa do comando de operações especiais da polícia militar, o bope, considerado por alguns o mais treinado esquadrão de combate urbano existente. Nascimento é inspirado numa figura real, o ex-capitão do Bope Rodrigo Pimentel, co-autor do livro Elite da Tropa e do roteiro do longa. Como Pimentel ou qualquer policial de carreira, Nascimento foi podado, esfolado e forjado nos confins do inferno, porém, diferentemente de tantos, tornou-se mais samurai do que demônio ou ovelha. Compreende que o Rio não é uma cidade de santos, mas se recusa a abandonar um certo senso de integridade que o ajuda a conviver com o caos. Ele e sua equipe são brutais, eficientes, implacáveis e assustadores como manda a função, mas virtuosos na medida do possível e orgulhosos do papel que exercem.
Numa era em que o cinema ocupa lugar de referência mítica do corpo social, Tropa de Elite consegue ser simultaneamente crítico e inspirador, analítico e ideológico, político e científico, realisticamente cínico, brutal, mas essencialmente otimista e engajado sem ufanismos. Seus personagens principais e coadjuvantes têm vida, falam por si enquanto o filme exerce opinião própria pelos protagonistas. Em suma, pontos de vista hegemônicos circulam entre diferentes "realidades individuais" que são expostas de modo elaborado o bastante para que possamos discordar constantemente de quem conta a estória, afinal, o próprio capitão Nascimento sofre pelos menos motivos.
Wagner Moura interpreta o capitão da tropa alfa.
Não posso também deixar de mencionar o ineditismo de um filme artisticamente relevante contado pela ótica militar, policial, um autêntico marco em nosso cinema, que aos poucos abandona a antiga postura revanchista pós-ditadura e também aquela velha ótica do oprimido intrinsecamente bom. Pré-determinar se os maconheiros de faculdade estão certos ou errados ao enrolar seu baseado é menos vital do que produzir referenciais múltiplos acerca da questão, mesmo no terreno da "alta-cultura", ainda dominado pela perspectiva "liberacionista" dos intelectuais. É bom saber que alguns deles estão arregaçando mangas, misturando-se com o cidadão comum e a realidade de "quem têm o pé no chão", passando-lhes o microfone e a palavra. Nosso Brasil ainda tem muito a ouvir do Brasil e o cinema pode ser um excelente canal.
Curiosidade:
Tal qual "capitão" Nascimento, o personagem André Matias é também inspirado num agente do Bope.
André Baptista é o terceiro autor de Elite da Tropa e, como Pimentel, participou do documentario Ônibus 174, também dirigido por José padilha, concedendo declarações sobre o incidente retratado. Na ocasião, era ele quem chefiava o cerco policial e as negociações com Sandro Barbosa enquanto este ameaçava reféns dentro do ônibus. Se de 2002 (ano do documentário) para cá Bapstita podia ser visto com certa antipatia pelo trágico desfecho da operação ou pelo modo inclemente como se referia ao sequestrador, sua imagem pública tenderá a mudar após "Tropa de Elite".
De um jeito ou de outro, pretendo ir ao cinema assistir à versão final e incentivo quem já viu o filme a fazer o mesmo por vários motivos. Entre eles, o fato da versão corrente sequer estar finalizada; há falhas óbvias de acabamento em alguns cortes. É provável que vejamos cenas inéditas e até um desfecho diferente na versão final. Além disso, Padilha e os demais envolvidos merecem reconhecimento pelo grande trabalho que fizeram.
Neste trecho de 10 minutos do filme Ônibus 174, pode-se ver André Baptista e Rodrigo Pimentel concedendo depoimentos
Mais curiosidades:
O ator André Ramiro (que interpreta Matias) já foi escalado para um longa ficcional de Bruno Barreto sobre o incidente do 174, que retrata o mesmo tema documentado por Padilha em 2002. Ramiro fará o próprio André Baptista, embora no filme ele deva se chamar Souza. Baptista coordenou pessoalmente o trabalho do ator.
André Ramiro reconstitui as negociações entre Baptista e Sandro Barbosa no novo filme de Barreto.
Para quem leu este texto inteiro e ainda não viu o filme, não se preocupe. Pouco revelei sobre o enredo e as surpresas reservadas por Padilha nessa versão inacabada, e, não, não comprei cópia pirata do filme. Qualquer um pode assistir Tropa de Elite na íntegra pelo youtube ou baixando na grande rede.
Links para o orkut dos atores do filme André Ramiro, Paulo Vilela, Fabio Lago e Rafael Teixeira.
texto tembém publicado nos sites Recanto das Letras e Domínio Cultural.
Tuesday, April 24, 2007
A matrix americana

Vejo muita gente fazendo comparações entre este tipo de crime e os que comumente ocorrem na guerra do tráfico do Rio de Janeiro ou nas escolas de classe baixa no Brasil.
Há correlações, claro, mas, sobretudo, diferenças cruciais que jamais poderiam ser ignoradas. "Spree killing", que é como este tipo de violência é chamado na terra do tio sam, e "Serial Killing" são bem menos comuns por aqui do que por lá, onde a panela de pressão social estoura com muito mais freqüencia entre cidadãos comuns de classe média, então transformados em criminosos do dia para a noite. A violência das favelas daqui tem maior relação com os problemas de gangues dos guetos de lá ou a violencia freqüente das escolas pobres americanas onde alunos recebem um péssimo serviço e se vêem fortemente próximos à criminalidade desde os primeiros anos de vida.
Casos como Virginia Tech e Columbine possuem elementos únicos em suas origens, presentes em qualquer parte do mundo, porém mais visíveis em certos países ricos do ocidente, e ganhando destaque especial nos Estados Unidos da América.

Especialistas de cada canto continuam emitindo opiniões a respeito, algumas bem razoáveis. Fala-se da facilidade em se adquirir armas de fogo e do fascínio que elas exercem sobre os norte-americanos. Fala-se da "falta de toque" e de "calor humano" nos contatos diários entre seguidores de culturas protestantes. Discute-se o estado mental dos criminosos, o consumo de celebridades instantâneas, a glamurização, espetacularização ou banalização da violência, sexualidade reprimida, videogames impróprios, filmes violentos, música "degenerada", etc. Uma psicóloga da PUC chamada Sandra Dias chegou a destacar durante o Bom Dia Brasil de terca-feira na Rede Globo a relevância do fator consumismo que hoje assume a condição de sujeito no imaginário estadunidense, transformando, sob tal ótica, o crime de Cho Seng-Hui num ato de heroísmo, mesmo que "negativo". Dito isso, o entrevistador da emissora corta este depoimento para ouvir o testemunho de um brasileiro que esteve no prédio da universidade durante o tiroteio. Retoma a entrevista em seguida, levando Sandra a falar sobre o fácil acesso à armas de fogo e então encerra o assunto, impossibilitando-a de completar aquele pensamento anterior. Na quarta-feira, todo o conteúdo da entrevista foi cortado do programa no site Globo.com, como se ela sequer tivesse começado.

Edições à parte, penso que muitas dessas opiniões podem nos ajudar a elucidar causas pertinentes enquanto outras só conseguem confundir ao imbuir culpa em conseqüências, sintomas, como se neles estivesse a origem da doença. Seria como culpar uma letra do Marilyn Manson pelo suicídio do fã. Ambos, letra e suicídio, são elementos posteriores de um mesmo sistema fenomenológico e possuem raízes comuns. Raízes nascidas justamente na "caretice" de seus "santos" detratores.
Longe de mim tentar desvendar este mistério por inteiro, mas creio que uma peça importante do quebra-cabeças seja justamente a relação fechada que um cidadão americano comum (especialmente no que diz respeito às tradições culturais difundidas pelos fundadores do país e hoje presentes, em maior ou menor grau, nas demais "americas" que com seus descendentes interage) desfruta com aquilo que considera "as regras do jogo da vida".
Cho Seng-Hui realizou o desejo secreto da maioria dos compatriotas. Ele "deu um soco", "um tiro" no sistema fechado de "como as coisas são e devem ser" na América. Desde a escola, um americano comum de classe média está inserido numa imensa rede de divisões e sub-divisões analíticas e deterministas que o classificarão e "ranquearão" perante os demais.
Seus teste de Q.I., notas no ano letivo, deslizes comportamentais, atividades extra-curriculares, "raça", sexo, aparência, roupas, condição social, etc, servirão para enquadrá-lo no sistema acadêmico e no sistema social, sendo que ambos possuem regras próprias, mas fortemente inteligadas, seguindo princípios competitivos semelhantes. Seu "nível de popularidade" determinará onde poderá se sentar no refeitório, com que alunos pode ou não interagir, a que festas pode ir. Se por acaso o "nerd invisível" da classe consegue "dar uns amassos" na líder de torcida que namorava o capitão do time de futebol, ele é automaticamente promovido e realocado, muda de mesa, de hábitos, de amigos, de status na vida. Se Johnattan Mason está fumando maconha e é flagrado, precisa passar uns meses na classe dos desajustados para se reabilitar e voltar à parte sadia da máquina, "salsichas defeituosas classe C para procedimento FGF".
O deslize, claro, permanecerá em seu currículo para futuras etapas de avaliação, classificação e ranqueamento, quer na escola, na universidade, no emprego ou nas relações sociais, podendo minar cumulativamente sua marcha rumo ao shangri-lá do SUCESSO PESSOAL. Cada sistema complementa o anterior, para a frente, para os lados, para cima e para baixo, girando sempre em torno de imperativos pragmáticos, analíticos e consumistas. Cada etapa da existência tem suas regras e objetivos racionalmente inteligíveis, "dar uma de rebelde pode ser tolerável e até bonito na adolescência, mas é inadmissível para um homem maduro", "se come a mina de 17, vai preso como pedófilo pervertido; se espera um mês até ela fazer 18, é um sujeito sadio, normal e cumpridor dos deveres". O americano aprende a pensar a vida dessa forma, como um grande sistema racional de causa e efeito que opera em freqüência única de caráter linear, reducionista e absurdamente simplório, mesmo quando comparado aos sistemas reducionistas de nações ocidentais que também sofrem desse mal. A Matrix americana só consegue pensar o indivíduo dentro ou fora, e o indivíduo só pode se pensar dentro ou fora dessa Matrix. Não há fuga sem rompimento. Não há "jeitinho brasileiro", saídas criativas que o permitam fugir e estar simultaneamente. Não há sentimento de infinitude ou subversão sem confronto. 
Se não consegue cumprir as metas sociais estabelecidas, se não consegue ganhar destaque em seu nicho ou em qualquer outro, se não é capaz de triunfar dentro daqueles principios consumistas americanamente aceitos como sinônimos de sucesso, o sujeito ganha status de "perdedor', do individuo que precisa existir para endossar os méritos de quem "chegou lá", "the people who made it", e se esse "perdedor" não encontra uma forma de se realizar dentro dos papéis que seu status lhe oferece, se não é capaz de sobreviver como tal ou ao menos criar alternativas usando as ferramentas disponíveis, torna-se ele uma espécie de bomba-relógio que pode implodir em suicídio ou explodir em transtornos psíquicos capazes de culminar nos fenômenos de que falamos: serial Killing, spree Killing ou simplesmente "um dia de fúria a lá Michael Douglas".
Não é a toa que quando têm uma chance para perder a linha - geralmente em épocas da vida e lugares premeditados, como no caso dos springbreaks universitários - os americanos vão fundo, perdem a linha mesmo, e da maneira mais desengonçada possível, já que não estão acostumados à constantes permissividades. Porra louquice fora de época e lugar tem de ser feita longe da polícia, senão rola cadeia da braba por perturbação da ordem. Muitos heróis modernos do cinema americano não hesitam em mostrar certo repúdio àquela ordem social por que devem lutar, fazendo tudo do seu jeito, desferindo socos e tiros como e quando querem, dando porrada no sistema a torto e a direito, rindo da cara dos burocratas, dos oficiais, dos comissários de polícia inaptos em controlá-los, dos carangos de milhões de dólares que pegam emprestado e depois destroem, justificando-se com um pedido de desculpas e um sorriso maroto. Esse é o escapismo do cidadão americano comum que vive envolto em regulamentos e manuais de instruções, mesmo onde eles não deveriam existir. Até o nerd Lewis Skolnick precisou dar um soco no líder Alfa-Beta para deixar de ser LOSER. George McFly só largou a vida de bunda-mole quando socou Biff - representante-mor da ordem social do colégio - bem no meio das fuças. 
Rambo, Cobra, John McLaine, os personagens do Schwarzenneger... eles não apenas simbolizam o belicismo conquistador impassível do povo americano, mas também são a vontade do indivíduo de se rebelar contra a máquina. Seus heróis e seus criminosos pervertidos possuem desejos em comum, e não é a toa que estão ficando cada vez mais parecidos na crueza do caráter, diferenciando-se meramente na eficiencia com que matam (vide Blade, Bad Boys II e, pasmem, Matrix). Ambos adorariam destruir a casa branca e o world trade center juntos. Seriados como CSI mostram os mocinhos investigadores quase se regozijando enquanto conversam sobre os detalhes morbidos de cada crime. São o mesmo tipo de gente, mocinhos e bandidos. Psicopatas. Não foi a toa que um ator da série emitiu o seguinte comentário: "Os caras maus fazem o que os caras bons sonham." Caras bons? Não seriam psicopatas enrustidos?

Não digo que esse tipo de problema inexista no Brasil, mas aqui as frestas para respirar são infinitas e a criatividade abunda em cada canto. Fugir dos manuais é inevitável. Seguí-los a risca é complicado. Se nosso jeitinho brasileiro gera mil problemas novos a cada solução apresentada, também nos propicia mil soluções ante cada problema aparentemente intransponível, mesmo que os abismos sociais sejam mostruosos, pois se para cima há uma imensa cerca de arame farpado, para os lados há terreno fértil onde a criatividade consegue fluir e gerar saídas alternativas, novas "freqüências existenciais", felicidade e vitalidade onde isso não deveria existir. 
Nosso caldeirão de heranças culturais aliado a rituais como o carnaval permitem que interajamos com a vida de modo mais maleável, menos determinista, sem esquemas e verdades prontas para cada etapa da vida. No Brasil das injustiças sociais acachapantes, do jeitinho, do "deixa a vida me levar", pode-se sair e ficar na Matrix simultaneamente com bem mais facilidade, já que ela funciona pela sobreposição de "freqüências existenciais múltiplas", "mundos paralelos" que se fundem num mesmo habitat e num mesmo sujeito cultural, confundindo nossos desejos conscientes de linearidade racionalista com uma complexidade social infinita quase impossível de diagnosticar. Muitos brasileiros odeiam que certas leis jurídicas não "colem" na vida prática, que "não pisar na grama" não signifique "não pisar na grama", que chegar as quatro horas da tarde num lugar pode significar quatro e dez, quatro e vinte, ou quatro horas mesmo, que nossa liberdade de expressão ostente "poréns" incomodos e incompreensíveis pertencentes ao terreno do inconsciente coletivo em determinadas situações, e que miseráveis consigam ser felizes na favela em meio à guerra do tráfico e falta de oportunidade enquanto ricos com tudo na mão vivem se drogando e tomando anti-depressivos. Até onde é bom ou ruim viver numa sociedade de regras invisíveis, multilaterais e mutantes, não sei. Se os americanos têm seus spree killers, temos aqui nosso conformismo endêmico. Se a unilateralidade deles implica em altíssimos preços a pagar, nosso "jeitinho" também não vem de graça.
Ressalto outra vez que não pretendo, através desse texto, estabelecer um diagnóstico para o caso Virginia Tech, mas apenas apontar fatores que certamente exercem peso significativo nos quadros sociais geradores desse tipo de crime. Tampouco alego que a criatividade não se faça presente no histórico cultural americano. Seria de absurda leviandade afirmar isto, até porque a construção dos Estados Unidos também passa pela absorção de influências que não as de seus fundadores, tendo decerto as de origem africana e latina exercido um papel vital na geração de trilhas que alimentem impulsos criativos. Todavia, não é leviano dizer que hoje os Estados Unidos respiram um ambiente cultural onde a criatividade recebe pouquíssimo incentivo para se desenvolver livre no espírito das pessoas. Se por acaso ela consegue resistir à essa vontade imensa de castrá-la e "sai do armário", tende a emergir maculada, ferida, contaminada pelo instinto americano de morte, refletindo os recalques de uma nação repressora, procurando pelo negativo, pelo agressivo, pela violência, competitividade e perversão, sendo essencialmente crítica e pessimista, mesmo quando se pensa positiva, pois lá a criatividade positivizada é exceção. Aqui é a regra.
Thursday, March 29, 2007
Racismo em Brasilia
Que vivemos num país racista, todos sabem, mas este tipo de prática violenta e não escamoteada contradiz os métodos racistas culturais vigentes, alertando-nos para um possível desenvolvimento de um novo racismo, condizente com aqueles que já conhecemos no primeiro mundo. Claro que posso estar exagerando um pouco, mas o novo sistema de cotas raciais abriu essa brecha, gerou o pretexto ideal para que estudantes não negros possam assumir um racismo já latente de forma mais aberta, ou tranformem sua carga de insatisfações e angústias em ódio, descarregando-os sobre um grupo visível em cima do qual pensam poder justificar a origem dos próprios problemas.
Em suma, a hipocrisia nacional se revela outra vez, pois todos sabemos que vivemos numa nação desigual, e - por que não dizer? - racialmente desigual (tanto em termos sociais quanto histórico-culturais), mas enquanto essa desigualdade é praticada sem que se a declare, não há problemas. Pois todos podem fingir que nada acontece. Se, no entanto, algo é dito, ou pautado em lei, quer a favor dos negros (ex: cotas, revistas especializadas ou camisas 100% negro) ou mesmo contra (como no próprio caso do jornal, que certamente gerará caras e bocas de espanto e indignação em nossos racistas habituais que, outra vez, tentarão transformar seus colegas "declarados" em bodes espiatórios para se sentirem menos racistas), brasileiros não hesitam em erguer suas lanças de hipocrisia. Neste país, racismo deve ser praticado, mas nunca mencionado, e isso acaba colaborando ainda mais para a perpetuação do problema, pelo menos do modo como já o conhecemos.
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