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Sunday, November 30, 2008

Angústia 2D

Essa semana, passando pela banca de jornal, vejo a capa de uma revista onde o presidente eleito dos EUA, Barack Obama, aparece de costas durante um comício. Instintivamente, volto-me para as revistas penduradas do lado oposto daquele canto da banca, como que querendo ver o outro lado da foto, ou melhor, uma revista que mostrasse o rosto do presidente e aplacasse minha angústia 2D, completando aquele quadro inacabado. Pior que isso, só quando estreei nas arquibancadas do Maracanã e fiquei, por alguns segundos, esperando um replay espírita do gol do Flamengo.

Sunday, September 21, 2008

O lado oculto da bondade

Você se lembra desta cena???



Ela ocorreu em 1991, ao fim do Grande Prêmio do Japão, que deu o tricampeonato mundial a Ayrton Senna da Silva. Seu rival na pontuação, Nigel Mansell precisava vencer esta prova para se manter brigando pelo título. Senna, então na McLaren, elaborou a estratégia de deixar seu companheiro de equipe Gehard Berger pular na liderança enquanto ele, Senna, seguraria Mansell em terceiro. Mansell não consegue ultrapassá-lo, perde a cabeça, a tomada da curva e vai parar na caixa de brita, sagrando o brasileiro campeão antecipado. Berger então perde rendimento e a liderança da prova para Senna, que guia tranquilo até a última volta, quando decide presentear o colega com a vitória, como mostra o vídeo. Para o mundo, um ato de grandeza e gratidão. Para Berger, um gesto vazio e desnecessário, como ele admite em sua biografia:

"Foi uma árdua e maravilhosa luta entre dois oponentes equilibrados. Na segunda metade da corrida, meu escapamento quebrou, eu perdi rendimento e tive de diminuir o ritmo, mas estava pronto a me sentir feliz com o segundo lugar. Tudo estaria bem se cruzássemos a linha de chegada um depois do outro, um grande primeiro e um respeitável segundo. Mas, em vez disso, ele tirou o pé logo antes da chegada e eu não tive tempo para pensar e, portanto, o ultrapassei. Poderia ter acontecido de ele ter ficado sem combustível. Seu "grande gesto" foi vazio, pois se ele quisesse, do fundo do coração, fazer algo significativo para mim, depois de uma temporada sem brilho, ele teria feito umas dez voltas antes: daríamos um belo espetáculo e no final eu ganharia. Mas o modo como ele fez mostrou ao mundo inteiro quem mandava e que sua pontuação no campeonato era tal que ele podia se dar ao luxo de fazer alguma coisa pelo pobre Berger. O fato de o escapamento ter realmente me prejudicado foi apagado e tudo o que ficou foi seu brilhante show de força e sincera generosidade. Oficialmente, é claro, tive de me mostrar satisfeito, porém, por dentro, estava soltando fumaça. Acho que ele também percebeu, mas, de qualquer forma, nunca trocamos uma palavra sobre o acontecimento. Eu não agradeci e ele não explicou quais foram suas razões para ter feito o que fez."


E disso, Galvão, você também sabia?


Thursday, January 17, 2008

Urubu na área



Há vezes em que sequer precisamos recorrer à mídia para descobrir fatos estranhos, inusitados, incomuns. Tirei uma horinha da tarde de ontem para dar uma caminhada em frente à praia próxima de onde moro, não muito recomendável a banhistas nos tempos atuais, embora um doido ou outro teime em usufruir suas águas turvas. Em meio à calmaria local, eis que avisto um sujeito sem camisa acompanhado de duas aves negras de rapina, que andavam (isso mesmo, "andavam") a seu lado e brincavam como dois cãezinhos de estimação enquanto ele as alimentava com carne crua e falava com ambas. Perguntei-me se os bichos eram mesmo o que imaginei que fossem, cocei a cabeça, olhei de novo, e sim, eu estava diante de dois Urubus dóceis e domesticados. Aproximei-me do dono e indaguei sobre os bichos, cujas asas não haviam sido cortadas, como muitos aqui poderiam imaginar. Foram criados e alimentados desde bebês e passavam a maior parte do dia num viveiro, sendo soltos para "voar por aí" durante a tarde, retornando sempre ao lar por conta própria na parte da noite. Não fui o único a parar o que fazia e observar a amistosa relação do trio: atração imediata naquele pedaço de praia. Confesso também que jamais havia prestado atenção ao som emitido pela espécie até então. "Cadê a máquina fotográfica quando precisamos dela?", pensei. Urubus de estimação podem até ser comuns em outras partes do país ou do mundo, não sei. Por aqui, é coisa rara, ou pelo menos me pareceu, pelo número de curiosos em volta.


Wednesday, May 10, 2006

O dia em que um homem salvou o mundo

Buenas notches, moçada! Após mais de um ano parado, resolvi ressuscitar este blog, que, espero, será atualizado pelo menos semanalmente a partir de hoje. E, re-reiniciando este antro epistemológico da análise holístico-tétrica helicoidal do existir, coloco uma história verídica que pouca gente conhece. Quando vemos filmes tipo Maré Vermelha, "Fail Safe" ou Dr.Fantástico, imaginamos que, apesar de possíveis no âmbito real, seus respectivos enredos não estariam assim tão perto de ocorrer ou já ter ocorrido um dia, e que anteparos grossos de sensatez, diplomacia, regulamentações e confiabilidade teriam criado uma larga e segura fronteira entre os elementos da guerra fria e as possibilidades dela se transformar num conflito total. Recentemente, descobriu-se que o mundo esteve perto, e não apenas uma vez, deste desastre, e que, ao contrário do que se pensava, a crise dos mísseis em Cuba não caracterizou o momento em que E.U.A. e U.R.S.S. estiveram mais perto de uma guerra nuclear. Abertos documentos secretos das duas superpotências, soube-se que os anos 70 e 80 também ostentaram episódios marcantes de tensão que poderiam ter transformado parte do planeta num autêntico "Day After". Uma dessas histórias será contada neste blog, a história do dia em que a saúde do mundo dependeu da decisão de um único homem.

Stalislav Petrov, o russo que salvou o planeta



O histórico da humanidade esconde heróis e monstros inimagináveis em suas entrelinhas, que muitas vezes passam despercebidos dos livros por séculos, ou para sempre, enquanto mentiras viram fatos incontestáveis nas salas de aula. Stanislav Petrov era tenente coronel do exército soviético em setembro de 1983, quando a Guerra Fria com os Estados Unidos ainda atravessava fase perigosa e os russos tinham acabado de abater uma aeronave comercial sul coreana por engano, imaginando tratar-se de um jato espião do "inimigo". As duas superpotências apontavam mísseis nucleares uma à outra de várias partes do mundo e contavam com complexíssimos sistemas de defesa capazes de alertar sobre um ataque atômico em segundos, dando tempo ao "alvo" para reagir e também lançar seus mísseis. O resultado de uma guerra nuclear seria óbvio: Destruição mútua dos envolvidos e de grande parte do resto do mundo. Centenas de milhões de mortos.

Sob este cenário, Stanislav Petrov foi escalado para substituir outro oficial no comando de um posto-patrulha ao sul de Moscou, monitorando o sistema eletrônico coordenado por satélite que vigiava aquele espaço aéreo contra possíveis ataques norte-americanos. Qualquer sinal de perigo deveria ser imediatamente informado ao alto comando soviético que teria cerca de doze minutos para reagir no caso de uma investida nuclear. Por fim, o improvável pareceu virar fato quando radares da estação acusaram um míssil se aproximando, algo que Petrov estranhou, já que nenhum inimigo atacaria com um único projétil. O problema é que novos mísseis logo surgiram nos monitores, caracterizando uma possível ofensiva em larga escala, e, como previsto, os colegas de Petrov repassariam a informação, mas foram interrompidos pelo tenente-coronel que desconfiou de seus computadores e preferiu ignorar as próprias ordens, seguindo os instintos, imaginando tratar-se de um simples defeito do sistema. Informar seu alto-comando sobre aquilo significaria um provável contra-ataque russo, já que, diante do pouco tempo disponível, este mal teria condições de avaliar o contexto antes de reagir e aniquilar milhões de vidas, talvez sem motivo. Estar errado, em contrapartida, equivaleria a Petrov condenar seu país ao vexame de ser atacado sem revidar, sem cumprir com um protocolo coletivo histórico de décadas. Felizmente, ele estava certo, ao contrário dos malfadados computadores que precisaram de intervenção humana para evitar uma catástrofe. Mas salvar boa parte do planeta não pereceu satisfazer os superiores de Petrov, que jamais o recompensaram pela "desobediência", preferindo paralisar sua promissora carreira, que ele mais tarde abandonaria. Somente em meados dos anos 90, quando já findada a Guerra Fria e o comunismo russo, pôde Petrov desfrutar algum reconhecimento e gratificação, visto que seu segredo enfim foi revelado. Hoje, seu feito tem lugar certo na hitória mundial, lembrando-nos do perigo que nossos medos provocam quando investimos na indústria da destruição, instigando-nos a não precisar de novos Petrovs para ter um futuro.


Petrov recebe a condecoração de Cidadão do mundo em cerimônia das Nações Unidas realizada em Nova Iorque


Para mais informações, clicar aqui ou aqui