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Sunday, May 30, 2010

A vida depois de Lost - Parte I


Não sei se quem lê esse blog sabe que sou fã da série Lost, um dos maiores fenômenos da TV contemporânea. Seis temporadas, alguns fãs satisfeitos, outros meio aqui e meio ali e outros bem putos pela falta de resposta, alegando que os roteiristas apelaram para o lado emocional do espectador a fim de suavizar os buracos de roteiro que não poderiam resolver. Bom... não direi que fiquei completamente satisfeito. Gostei da série, detestei alguns detalhes e alguns pontos mal resolvidos, erros de roteiro, mas série americana é realmente complicada. Troca-se roteirista no meio, ator entra e sai, coloca-se idéias que instigam os espectadores e não se sabe o que fazer com elas depois, roteiro cresce demais e tem que ser resolvido em alguns poucos episódios que mal podem abarcar a complexidade e as espectativas da trama... Terminada a sexta temporada, pretendo tecer alguns comentários sobre a série e postar links, videos e textos com opinões de outros Lostmaníacos ou gente mais diretamente ligada ao programa. O episódio 1 de A vida depois de Lost chama atenção para um link do blog Melhores do Mundo, onde os caras lá debatem por uma hora sobre o que fez e o que não fez sentido no seriado. Vale a pena. Mal senti o tempo passar. Concordei com algumas das reflexões que fizeram e discordei de outras. Acho que algumas das respostas "perdidas" são decifráveis se analisarmos episódios anteriores da série, pois nem todas as respostas foram dadas de mão beijada. Para ouvir o podcast, basta acionar o video abaixo.


Sunday, May 17, 2009

Dois textos meus em outros sites

Oi. Sei que fiquei meio longe desse blog umas semaninhas. Até tinha um post preparado para semana passada, mas não terminei.

Por outro lado, isso não significa que eu tenha parado de escrever. Deixo abaixo o link para dois textos de minha autoria, um publicado no zine "A Broca Literária" e outro na Revista Sina, também postado hoje no blog Poeira de Idéias.

Seguem os links para os textos:

Inquilinos na Embaixada do Céu

Quando os Certos Estão Errados


Saturday, April 11, 2009

Quando um é deixado para trás



Tenho um colega de orkut que mora no Texas, Estados Unidos, e serviu na guerra do Vietnã. Quando indagado sobre a veracidade ou o "realismo" de filmes que abordam o conflito, esse colega responde com desdém, principalmente em se tratando de sucessos como Apocaplipse Now, Full Metal Jacket ou Platoon. No entanto, uma característica comum em filmes focados nos fuzileiros americanos, segundo ele, é real. A filosofia do "No one is left behind". Os fuzileiros (não o exército) dos Estados Unidos são adestrados a não deixar, sob qualquer hipótese, seus colegas mortos e feridos para trás, ainda que novas baixas ocorram em função disso. Não sei até onde, na prática, a coisa é aplicada caso a caso, mas meu colega veterano disse que ela existe, e que, ao contrário do que muitos crêem ou insinuam - como Stanley Kubrick, em seu Full Metal Jacket, no trecho em que um terço de um pelotão morre em função de um único ferido - , é uma prerrogativa inteligente, ainda que custe caro. O benefício dela é o moral da tropa e a confiança e entrega mútua entre seus integrantes, algo valioso no campo de batalha. Chegamos a debater esse assunto e sempre tive dúvidas sobre até onde meu colega poderia ou não ter razão. Em Black Hawk Down, por exemplo, uma operação inteira foi prejudicada em função de um único soldado (o filme é baseado em fatos reais, mas não sei se é nesse ponto em particular). Valeria a pena tamanho sacrifício?



Admito continuar no limbo, mas após assistir ontem ao longa-metragem Valsa em Bashir, pude entender melhor o outro lado da questão. Há um trecho em que uma coluna de tanques é atacada e dois dos veículos pegam fogo, obrigando seus ocupantes a fugir a pé, expondo-se à morte certa. O resto da coluna, percebendo o tamanho do problema, bate em retirada sem hesitar, mas um dos fugitivos sobrevive e acha um jeito de reencontrar sua antiga companhia. O clima entre ele e os colegas recém-encontrados é péssimo, como também sua sensação de culpa por não ter feito "o máximo que podia" em prol dos que ficaram para trás. Ampliemos isso a todas as companhias ou a todos os regimentos, desde o início de uma campanha, cada soldado sabendo que, ao primeiro sinal de perrengue, pode ser abandonado e deixado ao inimigo. O medo e a sensação de isolamento crescem, a entrega, o moral e o auto-controle diminuem, e isso num contexto em que tudo conspira à desunião e à neutralização do senso de grupo necessário à funcionalidade do mecanismo militar.

Aliás, Valsa Com Bashir é um ótimo filme justamente por isso, não por esse trecho em particular (há outro em que um soldado morre tentando salvar o colega ferido) mas pela mensagem que desenvolve sobre a falta de sentido, preparo, percepção global e meritocracia inerentes a uma guerra, coisa pouco explorada em filmes do gênero, mesmo os mais críticos ou "realistas".


Tuesday, January 13, 2009

Manuel, importante e necessário


O texto principal desse post não foi escrito por mim, mas por Paulo Coelho. Sim, o "marketeiro" Paulo Coelho que só escreve para iletrados, que explora a sede de sentido e misticismo dos ignorantes, que jamais deveria ingressar na Academia Brasileira de Letras, que não tem profundidade, que é a vergonha da literatura nacional e mais mil definições elogiosas de quem nem sempre se dá ao trabalho de conceder atenção ao que o cara escreveu antes de emitir opiniões.

Nenhum escritor está acima da crítica, e o sucesso, naturalmente, deixa qualquer um mais exposto. Não sou um grande fã de Paulo Coelho, mas enxergo em muitos dos seus escritos uma busca genuína e pertinente pela essência do ser, o que me basta para considerá-lo digno de apreciação e do sucesso que tem. Opinião, claro. Cada um tem uma. O texto a seguir é dele, e, a mim, está longe de ser mera auto-ajuda de quinta, como uns gostam de pensar. Simplicidade e qualidade nunca foram antônimos.

Sem delongas, segue o texto. Leia e faça sua avaliação.



Manuel, importante e necessário




MANUEL PRECISA ESTAR OCUPADO. Caso contrário, acha que sua vida não tem sentido, está perdendo seu tempo, a sociedade não precisa dele, ninguém o ama, ninguém o quer. Portanto, assim que acorda, tem uma série de tarefas: assistir ao noticiário na televisão (pode ter acontecido alguma coisa durante a noite), ler o jornal (pode ter acontecido alguma coisa durante o dia de ontem), pedir à mulher que não deixe as crianças se atrasarem para a escola, pegar um carro, um táxi, um ônibus, um metrô. Mas sempre concentrado, olhando o vazio, olhando o relógio, se possível dando algumas ligações de seu celular — e fazendo questão que todos vejam que é um homem importante, útil para o mundo.

Manuel chega ao trabalho, debruça-se sobre a papelada que o espera. Se for um funcionário, faz o possível para que o chefe veja que chegou na hora. Se for patrão, coloca todos para trabalhar imediatamente; caso não existam tarefas importantes, Manuel irá desenvolvê-las, criá-las, implementar um novo plano, estabelecer novas linhas de ação.

Manuel vai almoçar — mas jamais sozinho. Se for patrão, senta-se com os amigos, discute novas estratégias, fala mal dos concorrentes, sempre tem uma carta escondida na manga. Queixa-se (com um certo orgulho) da sobrecarga de trabalho. Se Manuel for funcionário, também senta-se com os amigos, queixa-se do chefe, diz que está fazendo muita hora extra, afirma com desespero (e com muito orgulho) que várias coisas na empresa dependem dele.

Manuel — patrão ou empregado — trabalha a tarde inteira. De vez em quando olha o relógio, está chegando a hora de voltar para casa, mas falta resolver um detalhe aqui, assinar um documento ali. É um homem honesto, quer fazer jus ao seu salário, às expectativas dos outros, aos sonhos de seus pais, que tanto se esforçaram para lhe dar a educação necessária. Finalmente volta para casa. Toma banho, coloca uma roupa mais confortável, vai jantar com a família. Pergunta pelos deveres dos filhos, pelas atividades da mulher. De vez em quando fala do seu trabalho, apenas para servir de exemplo — porque não costuma trazer preocupações para casa. O jantar termina, os filhos — que não estão nem aí para exemplos, deveres ou coisas similares — saem logo da mesa e vão para a frente do computador. Manuel, por sua vez, vai também se sentar diante daquele velho aparelho de sua infância, chamado televisão. De novo vê os noticiários (pode ter acontecido alguma coisa de tarde).



Vai se deitar sempre com um livro técnico na mesa de cabeceira — sendo patrão ou empregado sabe que a concorrência é grande, e, quem não se atualiza, corre o risco de perder o emprego e ter que enfrentar a pior das maldições: ficar desocupado.

Conversa alguma coisa com sua mulher — afinal, é um homem gentil, trabalhador, amoroso, que cuida de sua família e está pronto para defendê-la em qualquer circunstância. O sono vem logo, Manuel dorme, sabendo que no dia seguinte estará muito ocupado, e é preciso recuperar as energias. Naquela noite, Manuel tem um sonho. Um anjo lhe pergunta: “Por que você faz isso?” Ele responde que é um homem responsável.

O anjo continua: “Você seria capaz de, pelo menos durante 15 minutos do seu dia, parar um pouco, olhar o mundo, olhar para você mesmo, e simplesmente não fazer nada?” Manuel diz que adoraria, mas não tem tempo para isso. “Você está me enganando”, diz o anjo. “Todo mundo tem tempo para isso, o que falta é coragem. Trabalhar é uma bênção quando isso nos ajuda a pensar no que estamos fazendo. Mas torna-se uma maldição quando sua única utilidade é evitar que pensemos no sentido de nossa vida.”

Manuel acorda no meio da noite, suando frio. Coragem? Como é que um homem que se sacrifica pelos seus não tem coragem de parar 15 minutos? É melhor dormir de novo, tudo não passa de um sonho, estas perguntas não levam a nada, e amanhã vai estar muito, muito ocupado.


Saturday, January 03, 2009

Patos pós-modernos



Assisti ontem ao filme Borat, com o audaciosíssimo Sasha Baron Cohen. O projeto funciona como um experimento e, segundo os envolvidos, muitas mudanças nos rumos do roteiro precisaram ser feitas, uma vez que ele foi posto em prática. Sasha já era conhecido na Inglaterra por personagens como Ali G – uma sátira à moda Gangsta Rap e aos wannabes do gênero e pelo próprio Borat que já tinha quadros no programa de Ali G. Nos Estados Unidos, sua popularidade era menor, mas ele já havia feito uma apresentação no show de David Letterman bem antes do famigerado filme ser lançado por lá.

Para quem não sabe, Borat, o personagem, é um repórter do Cazaquistão que faz um documentário nos Estados Unidos destinado a seus conterrâneos, mostrando, através de entrevistas com os americanos, as virtudes do povo que habita a nação mais poderosa do planeta.

Com este discurso em mãos, Borat convence suas vítimas a participar do experimento, que na verdade é uma grande pegadinha. Tanto o personagem quanto sua terra de origem são retratados no filme de modo absurdamente estereotipado, rude e politicamente incorreto, mas, no caso de Borat, verossímil o bastante em seu sotaque e trejeitos para serem tidos como reais pelos entrevistados. Com isso, o projeto expõe as limitações, a ignorância e a hipocrisia de algumas alas do povo americano aprisionadas em seu narcisismo ideológico de donos da verdade.

Um olhar mais atento nos mostra que o filme vai além disso. Na verdade, nem todos os supostos participantes involuntários do projeto são, de fato, vítimas, e com isso, Borat revela que somos nós também patos da pegadinha.



Mas Borat não é só uma pegadinha. É a celebração de algo que vem acontecendo na TV há tempos: uma mesclagem entre as linguagens tidas como ficcionais e realistas ao ponto do espectador se perguntar onde uma coisa acaba e a outra começa e, num nível mais profundo, aperceber-se de que os dois já se fundiram numa coisa só e geraram novos gêneros narrativos que o público atual não tem dificuldade para assimilar. Borat existe e não existe. Nós "existimos" e "não existimos". O mundo do espetáculo pode ser mais real que a realidade, ou ser a própria realidade. Pode se divertir com nossa passividade existencial como nos divertíamos com os espetáculos antes deles nos tornarem passivos. Somos espetáculo. Espetáculo do espetáculo. A vida é um complexo de peças operadas pela indústria cultural.



Andy Kaufman tinha feito isso nos anos oitenta, mas seu público era diferente e o resultado das pegadinhas que armava com celebridades se fingindo de vítimas e confusões simuladas para acarretar reações no público em programas ao vivo foi um turbilhão de problemas que praticamente o tiraram do showbizz e impediram que alguém noticiasse seu câncer até a morte do ator comprová-lo.

O espectador pós-moderno não liga em ser manipulado, em descobrir que a verdade era mentira, que a mentira era verdade, que a verdade pode ou não ser mentira e que a ausência de mentira ou de verdade é uma realidade. Borat celebra (sacaneando) esse mundo. "O que é o Cazaquistão? Um país? Ah, aquele país fictício que aparece no filme do Borat, mas existe de verdade. O tal carro de sorvete percorreu mesmo os EUA? A pegadinha da Pamela Anderson foi armada? Quantos documentaristas, de fato, ficavam atrás das câmeras enquanto as vítimas eram filmadas?" Sei lá. Nem quero saber. É cinema e televisão, e o que vale é o que aparece. Sempre foi assim, mas talvez nenhum público estivesse tão pronto para encarar isso de modo mais assumido e relaxado como nas duas últimas décadas, estendendo isso a seus cotidianos.



Ah, tudo bem! Falando na boa... Fiquei sim curioso e dei uma pesquisada na pegadinha da Pamela Anderson para saber se foi armada. Foi. Descobrir isso me fez gostar mais da moça que, cá entre nós, mandou bem para diabo ao ser ensacada e fugir. Não consigo deixar de rir ao rever o trecho. A luta dos caras nus também foi qualquer coisa de sublime.

Há cenas inéditas de Borat nos EUA filmadas para sua série britânica, com o título de "Guia de Borat para os EUA". Parte desse material pode ser acessada através do youtube. Veja alguns episódios:

1 - Borat visita uma partida de Baseball

2 - Borat não consegue entender o sentido de um museu na California, tenta comprar um escravo e vai a outro rodeio.

3 - Aprenda a se defender da garra de um judeu

4 - Borat no clube de tiro

5 - Borat aprende a degustar vinho

6 - Borat toma aulas de boas maneiras

7 - Borat participa de um encontro arranjado, mas antes, pede dicas à conselheira

8 - Borat na academia

9 - Borat conversa com um anti-semita e quer aprender a caçar judeus

E não é só nos States que ele expõe o preconceito da galera não. Dois quadros do Guia de Borat para a Grã Bretanha:

1 - Borat na universidade de Cambridge, expondo o machismo da galera e aprendendo a jogar criquet.

2 - Borat aprende a flertar e a ser um cavalheiro


Saturday, December 13, 2008

Coisas para se fazer antes de perecer



Recebi um meme do Elton, do blog Tendências SA, que consiste em escrever oito coisas que o blogueiro gostaria de fazer antes de ir para a cova. Imaginei algumas bem sacanas, pensei em atitudes altruístas, mas fiquei com a sinceridade, ou pelo menos a sinceridade daquilo que consegui refletir e lembrar enquanto escrevia. Penso em meu altruísmo quase como uma espécie de conseqüência natural de coisas que encaro como missões. O ato de escrever, por exemplo, de inspirar, de esmiuçar temas complexos em palavras simples (temas às vezes pouco explorados pelas idéias correntes), ajudar outros a "ligar peças" e compreender com clareza mensagens subliminares que seus instintos lhe enviavam há tempos, mas até então não conseguiam "decifrar a mensagem". Escrever tem muito disso, mesmo quando fazemos ficção. Construímos um elo, uma troca com almas primas e almas gêmeas; semeamos idéias, elas germinam e influenciam em definitivo a vida de outros. Um altruísmo indireto não menos nobre e duradouro do que construir uma escola ou contribuir, pelo exercício do magistério, com o desenvolvimento de centenas de futuros cidadãos. O cumprimento de nossas missões interiores tende a nos tornar altruístas do melhor modo possível, ainda que inspirando terceiros sem agir diretamente sobre eles. Isso, claro, quando estamos conectados a esse "conjunto de motivações da essência" e conseguimos lhe dar uma cara através de uma atividade correlacionada, algo dificílimo na maior parte dos casos, visto que passamos a vida cercados de influências que nos desviam de nossas reais buscas, impondo outras em seu lugar.

Ademais, segue minha lista. Algumas coisas bobas, outras menos. Peço perdão ao Elton porque minha lista possuirá dois itens extras, que não podem ser omitidos. Nenhum deles pode.



1 - Publicar um romance que escrevi recentemente, e outros livros no futuro, em diferentes estilos e sobre diversos temas, alguns em conjunto com outros escritores.

2 - Conhecer países como Inglaterra e Estados Unidos, que tanto vemos na TV, e, no meu caso, ainda não tive a oportunidade de visitar. Sei que a maioria das pessoas, quando pensa em viagens internacionais, prefere conhecer lugares como Machu Picchu, Nova Deli, Cairo, Roma, Atenas, Paris, Havana... também tenho vontade de ir a essas terras, mas Inglaterra e Estados Unidos estariam no topo da minha lista, dada, talvez, a familiaridade que eu tenha com a língua e diversos aspectos da cultura anglo-americana.

3 - Encontrar minha cara-metade, se é que isso de fato existe.

4 - Ficar em paz com meus familiares, conseguir deixar de lado os conflitos do presente e do passado, dar o passo seguinte e conseguir ver o lado bom de pessoas que foram tão importantes em minha vida. Às vezes, é preciso viajar o mundo para se compreender o valor dos tesouros que sempre nos cercaram. Faz parte da jornada do homem. O mesmo vale para amigos e ex-inimigos, pessoas que infelizmente ainda estou longe de conseguir perdoar do fundo do coração, algo que espero realizar um dia. O mesmo vale para mim. Perdoar-me pela própria inflexibilidade.

5 - Mudar-me para outra cidade, ou ao menos outra parte do Rio de Janeiro, e viajar por diversos cantos do Brasil onde ainda não pude estar.

6 - Fazer uma consulta ou bater um papo com José Ângelo Gaiarsa. Posso mandar um e-mail para ele, mas ainda não o fiz.... (Juro que faço em 2009)

7 - Voltar a dublar filmes como outrora.

8 - Revisitar parentes que não vejo há anos e reencontrar amigos de outros tempos


Itens extras:

1 - Reeditar um certo programa de rádio que fiz em 2001, com o elenco original, hoje espalhado pelo país. Mesmo que seja de graça só para colocar na internet. O programa era muito bom de se fazer.

2 - Dar um basta nessa minha preguiça e procrastinação.


Reenvio o meme para alguns chegados. A regra diz oito, mas o próprio Elton não a obedeceu. A lista publicada no blog dele possui 5 endereços. Mando então para meus parceiros Vulgo Dudu, Sumpa, Ellie, Surfista Platinado, Marcelo e Phernando Faglianostra.


Seguem as regras:

- Escrever uma lista com 8 coisas que sonhamos fazer antes de ir pro beleléu;
- Convidar 8 parceiros(as) de blogs amigos para responder também;
- Comentar no blog de quem nos convidou;
- Comentar no blog dos nossos(as) convidados(as), para que saibam da "convocação";
- Mencionar as regras.

Grande abraço.


Thursday, February 21, 2008

Fama com cara de mico



Houve um tempo em que não existia youtube, a maioria das pessoas não falava inglês e nossos embaraços públicos tendiam a ser conhecidos apenas localmente, raras exceções, ou seja, um "filme queimado" poderia ser restaurado, tão logo o humilhado mudasse de bairro, colégio, cidade, estado, ou, em casos extremos, de país. Viabilizar a profecia de Warholl dos 15 minutos de fama não foi a única conquista propiciada pela evolução tecnológica recente. A contrapartida deste feito foi justamente potencializar nossos micos a dimensões globais. Hoje, três minutos de deslize na frente de um celular podem aniquilar uma reputação para sempre, e via satélite. Se tal embaraço ocorre num programa de TV então, o desastre é quase certo, e 15 minutos de fama viram uma vida de pesadelo.

Quem sonha em embarcar na onda da fama instantânea que Reality shows e exibições youtubianas viabilizam, deve pensar bem, porque o tiro pode sair pela culatra. Big Brothers e American Idols funcionam como um pacto com o diabo onde mundos de sonhos são oferecidos pela bagatela de uma alma, uma reputação. Para muitos, um trato justo pelo qual vale a pena arriscar-se e perder-se. Para os menos preparados, um jogo perigoso que em vez de escancarar portas, pode selar oportunidades por anos.



O mundo da fama e glória televisiva foi sempre assim? Claro. Mas antes os acessos eram mais restritos, difíceis, demorados e para pessoas com um mínimo de preparo. O que rolava de ruim nos shows de calouros de ontem não se compara com o absurdo dos American Idols de hoje, até porque, diferentemente de seus antecessores, o foco dos programas atuais não está em revelar talentos, como se supõe, mas em expor a falta deles, elevar mundanismo e mediocridade à condição de excelência, subverter relações de valor e gerar entretenimento pelo caminho inverso ao do talento e do mérito, divertindo pela vergonha da incapacidade, pela humilhação, embaraço e "saia justa". A maior parte dos aprovados não se revela vencedora, mas meros sobreviventes, gente que só escapou da sina do mico. Em suma, sua aprovação não "abriu portas", não os levou a "algum lugar"; só os poupou da armadilha. Pior que isso é ver tantos entrando nessa canoa sem perceber o engodo, despreparados para as verdades do trato. "American Idol" e "O Aprendiz" atraem público pelo que geram de pérfido, e a busca do talento é só uma desculpa, já que o espectador quer ver sangue, ver Simon destroçar a inocência de um coitado ou Trump aniquilar um ego em nome da sagrada eficiencia corporativa. Quem assiste esses shows não deseja presenciar sonhos se realizando, mas se destroçando, aliviar a dor própria com a alheia, ver seu cotidiano de desilusão refletido e ampliado em "heróis-consolo"; sentir-se menos triste por "pelo menos" não ser aquele pobre coitado que se fudeu na telinha.



Dias atrás, um garoto alemão de dezessete anos imaginou que podia testar suas aptidões num programa cópia de "American Idol" exibido em seu país, que conta inclusive com uma versão "Hans" do famigerado Simon. O moleque, que não tinha talento algum mas contava com o apoio do pai, estava nervoso e decerto não esperava que sua chance ao estrelato fosse virar a sina de uma vida. O mega-mico que pagou, além de render um colapso nervoso em rede nacional, custou também o respeito dos colegas na vizinhança e na escola, onde não pára de ser zoado desde então. E não lhe bastará mudar de colégio, de bairro, ou cidade. Seu único aliado talvez seja a memória curta que caracteriza boa parte do público televisivo atual. Seria ela curta o bastante? E quem viu o mico de tabela? Esquecerá também?

Se você sonha em fazer um pacto de popularidade com Mephistópheles, fique atento às entrelinhas, ou acabará enrolado nelas, talvez para sempre.

Abaixo, o famigerado episódio alemão de "Ídolos", estrelando Raymund Ringele e sua antológica perfomance, antes e depois do veredito dos jurados.



Se por acaso você não entende as legendas em inglês, não se preocupe. Certos vexames dispensam palavras.

Monday, February 11, 2008

Rio dos dissimulados

Sei que nunca é justo monolitizar o comportamento de um conjunto humano, pois atenta-se contra as naturais e incontáveis possibilidades de variação dentro do grupo escolhido. Se falamos de países ou cidades, tais riscos só aumentam. Sinto-me, contudo, impelido a generalizações no momento. Não tanto para com os pobres indivíduos, vítimas de imposições invisíveis perpetuadas pelo meio que habitam, pela cultura de grupos, lugares, influências.



Dia desses vi a briga do médico mineiro com dois cariocas no Big Brother Brasil pelo youtube. A carioca reclamava algo sobre terem votado nela, etc e tal, e o mineiro resolve botar para fora a antipatia que sente pela moça, o quanto achava ela falsa, na cara dura mesmo, e a "pobrezinha" se chocou. "Sujeira sim, mas só debaixo do tapete, porque falar na cara é crime!". Fez-se ela vítima do monstro da sinceridade e convocou outro carioca a comprar sua briga. O médico não teve medo e soltou-lhe o verbo também, para estarrecimento do novo adversário.

Não sei quem estava certo ou porquê. Não acompanho o programa, embora sempre acabe sabendo do que rola via internet ou "gente a minha volta". Pensei na cena por me fazer lembrar de outra, ocorrida em Minas Gerais, quando do nada um rapaz vem para o outro, sem necessariamente estar brigando, em meio a um churrasco amigável, dizendo que não vai com a cara dele, que acha ele isso e aquilo, que até o respeita por esse ou aquele motivo, mas deseja deixar claro que não o considera um "dos seus". Tal cena, claro, poderia ter ocorrido em qualquer lugar e não necessariamente prova que os mineiros não sabem agir dissimuladamente ou que cariocas não possam dizer certas coisas na cara de modo corriqueiro, sem precisar estar "lavando roupa suja" para isso, mas vez ou outra sou levado a crer que certas atitudes e "jeitos de ser" não fazem parte do conjunto de virtudes individuais redigidas no manual invisível de "como viver bem no Rio de Janeiro", e quebrá-las pode trazer conseqüências danosas, transformar uma vítima circunstancial em "bandido" aos olhos públicos, ou seja, mais vítima do que antes, sendo esta, claro, a real intenção do acusador: Voltar o problema da vítima contra ela, mantendo suas mãos limpas e intocadas.



Divago sobre isso em função de algo ocorrido dias atrás. Alguém me liga de uma agência e diz que seu cliente gostou de duas fotos minhas lá tiradas pelo "irrisório" preço de dez reais, já que eu não tinha fotografias próprias, um "book" ou "composite". Segundo este telefonema, o cliente precisava de mais fotos até o dia seguinte para me colocar na seleção de um comercial contra apenas um concorrente. Insisti que não possuía um "book" ou coisa parecida, mas que talvez pudesse providenciar algo em 2 ou 3 dias, mas o homem do telefone manteve sua posição. O prazo seria só até o dia seguinte, e eu precisaria de 30 fotografias tiradas em estúdio e um videobook. Algo que ELES poderiam providenciar a um custo específico, caso eu não conseguisse por fora. Claro. Era uma armadilha. Eu tiraria as fotos, gastaria o dinheiro e "perderia" o concurso. Agências assim têm nesses servicinhos de foto e vídeo sua principal fonte de renda. Minha vontade era expor o esquema e deixar claro ao sujeito que eu NÃO FARIA AS FOTOGRAFIAS COM ELE. Pensei bem e vi que seria burrice. Não. Simplesmente disse que não tinha condições no momento. Ele insiste num abatimento. Continuo alegando que não posso, e a barganha de mentirinha se mantém, ainda que os barganhadores saibam do que realmente está em jogo. Despeço-me educadamente do homem, promentendo ver se conseguia as fotos em tempo e deixo a estória para lá. Agisse eu de outro modo, ele se declararia ofendidíssimo ("Você está desconfiando de mim?") e certamente vetaria qualquer chance futura que eu pudesse ter de conseguir algo de verdade pela agência, caso realmente se tratasse de uma.

A moral dessa história serve para duzentos e oitenta situações corriqueiras onde os princípios da formalidade são vistos como um mal, uma atitude deselegante, e em situações onde deveriam prevalecer sobre qualquer espírito mentiroso de camaradagem. No Rio de Janeiro (e em diversos lugares) muita gente parte da idéia de que qualquer desconhecido deveria confiar plenamente em suas índoles antes de mais nada. "Você não confia em mim?", pergunta-me a secretária "sete-um" de uma agência onde trabalhei enquanto me passa a perna por baixo dos panos. "Você não confia em mim?" é a pergunta número 1 dos suspeitos. Quem não deve não teme a precaução do outro.



No Rio da informalidade e da malandragem, dissimulação torna-se instrumento de sobrevivência, até para quem não a aprecia. Se você desconfia de Joãozinho enquanto este lhe oferece uma oportunidade imperdível, invente uma boa desculpa. Se ele insistir, invente uma melhor, e siga assim até que ele desista, mesmo que, no fundo, ambos saibam das verdades em jogo. O primeiro que deixar cair a máscara é o bobo, o que não aceita brincadeira, o que pensa maldade, que tem preconceito, que não é "amigo". Vale para brincadeiras que escondem ofensas. Vale para o cara que deseja roubar sua namorada e está pronto a lhe fazer passar por idiota ciumento caso você o acuse do intento. O bom carioca deve ter sempre condições de usar as próprias palavras e atitudes perniciosas em defesa de suas "puras intenções", deixando qualquer acusador em maus lençóis. É assim que funciona. Quem não sabe jogar é o bobo, esteja ou não certo, pois razão aqui é só um detalhe. Um incômodo detalhe.


Saturday, October 06, 2007

Ovelhas por opção

A vida às vezes ensina, e de diversas formas. Se conseguimos decifrar entrelinhas em eventos banais, podemos aprender rápido e sem dor, sorvendo cada ensinamento em doses homeopáticas mas constantes. Há casos, porém, em que a vida nos passa uma rasteira, nos dá uma porrada, e aprendemos da pior forma, pagando alto por uma lição valiosa. O ruim é que tem gente que nem assim consegue aprender e passa toda uma existência apanhando de graça.

Mas mulher de malandro existe em todo lugar, não é?

Bom... não sei se Esopo ou algum contemporâneo dele escreveu algo parecido. Se sim, fez melhor do que eu, porque não tenho muita manha com estorias desse tipo, mas lá vai nosso "momento auto-ajuda" da semana.




Era uma vez um cão, que não era forte como o lobo, mas tinha com ele uma relação estável e um certo senso de esperteza.

Tinha também uma amiga ovelha, inteligente mas muito ingênua, uma ovelha que sonhava em ser grande, em sair de seu rebanho; que vivia de sonhos e fantasias.

Um belo dia, ela conheceu o lobo, que lhe prometeu lindos mundos longe daquelas terras, um futuro belo e brilhante, e a ovelha começou a planejar este futuro, sonhando com as promessas que o lobo fazia.

Mas o cão gostava da ovelha e conhecia as artimanhas do lobo, que só queria devorá-la.

Assim, na intenção de ajudar, o cão alertou sua amiga ovelha, contou estórias de outras ovelhas igualmente enganadas pelo lobo. A ovelha, no entanto, em vez seguir os conselhos do cão, foi aflita contar ao lobo tudo o que ele dissera.

Conhecedor das fraquezas da ovelha, esperto e vivido, o lobo não perdeu sua compostura. Sabia que a coitada só procurava palavras de conforto para restaurar suas ilusões, e aquela insegurança logo foi tranqüilizada quando o lobo a convenceu de que o cão mentia por inveja dele.

No fim, a ovelha acreditou, passou a odiar o cão e o lobo deu nele uma surra.


Moral da estória: Às vezes é melhor deixar um babaca se fuder do que desfazer suas ilusões, por mais amigo seu que ele seja.



Se você é uma ovelha ou tem uma amiga ovelha, pense nisso.





Thursday, September 13, 2007

A "Escola Urbana" de literatura



The Great Scott Journal é um blog antigo. Sua última atualização é de abril de 2006. Descobri-o acidentalmente, graças a um texto postado em outro blog, com os devidos créditos concedidos. Desde então, passei sempre por lá, até o dia em que precisei trocar de Computador e não consegui achar mais o link. Procurei até no google (não sei se me lembrava do "journal"). Deixei de lado e segui em frente. Anteontem, remexendo velhos baús entre back-ups esquecidos, eis que encontro um notepad com o endereço do sítio. Acessei-o, deixei comentários e só mais tarde percebi que estava abandonado há mais de um ano.

Bom... Quem sabe volte? "Notícias do front III" é exemplo de que vulcões inativos podem jorrar lava novamente.

Mas, voltando ao Great Scott, fucei-lhe os últimos posts e me deparei com algo deveras interessante.

Segue então a postagem original, feita em 6 de março de 2005 (apenas três se seguiriam até o fim do blog).








Por Great Scott

Tenho reparado que existe um padrão que une a produção literária/quadrinística** de muitos aspirantes a autor que eu conheço - bem como as obras que estes consomem: Histórias que, segundo os próprios, são melhores por se dedicarem a falar do "cotidiano", da "vida real", "do mundo como ele é". Esses princípios acabam, muitas e muitas vezes, em obras simplesmente banais, cheias de personagens amorais levando vidas apáticas e seguindo a filosofia do "tu fez comigo, agora vou fazer com você, CARALHO".

(Ênfase no "CARALHO", já que tem que ter palavrão para ser moderninho, ou, como diriam alguns, "para ficar mais Tarantino" (mas aí não sobra esperança nenhuma)).

Pois bem. Já falei disso aqui uma vez ou outra, e não vou falar de novo. Quem vai falar é outra pessoa: Na seguinte coluna, Alexandre Cruz Almeida (hoje Alex Castro) revela-se observador desse mesmo padrão, dessa mesma linha de mediocridade, que batizou de
Escola Urbana em um artigo que observa o fenômeno bem melhor do que eu poderia. Leiam!




Como cheguei nisso?

Estava eu saltando de canal em canal quando vejo uma garota visualmente chamativa no programa da Marília Gabriela. Era uma tal
Clarah Averbuck. Ela começou a falar, descobri que era escritora. Descobri que tinha escrito um livro chamado "Máquina de Pinball". Não entendi o que diabos era isso pela entrevista, mudei de canal e esqueci o assunto.

Passando pela net, mais tarde, encontro o nome dela de novo. Entro no site e me deparo com um Layout moderninho, foto produzida da autora, meia duzia de links para textos. Li alguns... e decidi pesquisar para descobrir de onde diabos saiu tanto lixo radioativo!

A mulher publica, basicamente, seu blog. Fala sobre coisas que aconteceram com ela. E a vida dela é perfeitamente banal, e o que ela faz dessa vida nos textos, também. Como um blog! É um reality show em formato livro.

Ela coloca no site, como peça literária, um post de blog sobre como tal fulano ejaculou na boca dela e como o esperma dele era doce; E como os homens são clichês ambulantes, já que depois o cara acendeu um cigarro. Eh?!

Incrivelmente ruim. E descobrir que ela faz parte de uma "escola" informal é mais ruim ainda.
AINDA BEM que eu estava por fora disso.


"Realidade" é algo subjetivo, pessoal. E o SEU mundinho NÃO É a realidade, MESMO QUE o seu mundinho seja um "mundo cão" digno de realização dentro do sistema do lado B do cinema brasileiro. Se você está numa zona de guerra e escreve um livro falando sobre o cotidiano incomum da situação em que você se encontra, PODE SER que disso resulte num bom livro -- se você souber escrever, tiver pontos de vista e uma visão crítica interessante da situação, se você tiver capacidade de transpor para a página a realidade do mundo incomum que se observa. MAS, se você é MAIS UMA patricinha metida a "indie" querendo escrever um livro sobre suas baladas e bebedeiras...

Em outras palavras, se você for ruim, vai acabar falando sobre o seu mundinho -- o seu umbigo. Se você for bom e consciente vai partir do seu mundinho para falar sobre o mundão - sobre a condição humana como observada por VOCÊ, AGORA, AQUI DO SEU PEDAÇO. Essa é a diferença, na minha opinião. Novamente em outras palavras: O seu mundinho pode até ser a *realidade*, mas o que a arte deve buscar não é a realidade, e sim a VERDADE. A verdade humana. A sua verdade.**** Eu realmente acredito nisso.

"Sou mulherzinha, uso salto agulha, pinto as unhas(...). Sou mulherzinha, mas tenho bolas", diz Averbuck em algum lugar. Ou seja - "I've got balls", expressão norte-americana, quase nunca utilizada de forma expontânea em português. Dá para se enxergar bem o naipe "rebelde" da moça, não dá?

Ridículo. E aí está uma boa motivação para escrever: Escrever para tentar fazer algo decente, algo que não siga essa escola da mediocridade fashion pseudo punk das Clarah Averbucks e Fernanda Youngs da vida.

Triste.



** Sim, Quadrinhos também são literatura. Só estou dividindo "livros comuns" e "HQs". Ei, é sempre
bom deixar claro!


**** Batendo na velha tecla para quem chegou atrasado: Sim, Verdade Humana se encontra tanto em textos realistas quanto em textos fantásticos, mitológicos ou de ficção científica. Porque toda fantasia, mito ou especulação sobre o futuro saiu de uma mente humana, que por sua vez é fruto do mundo que a cerca e dos problemas e elementos diversos que compõem sua realidade. Óbvio? Para a maioria das pessoas, não é não!

Muitas e muitas vezes percorre-se um caminho parecido com isso:CRIANÇAS rejeitam tudo que não é fantástico; ADOLESCENTES rejeitam tudo que não é "real"; ADULTOS deixam essa visão limitada de extremos para trás e aprendem a apreciar o espectro completo da ARTE.





Voltando à nossa narração normal, enfatizo a relevância deste link para uma melhor compreensão do texto exposto. Neste outro link, Alex Castro tece comentários sobre Clarah Averbuck. Alex Castro é escritor e atualmente redige o blog Liberal Libertário Libertino.


Até breve


Saturday, May 12, 2007

Sobre comparações entre Rap e Funk no Brasil

Hoje a noite, o canal GNT da net exibirá um documentário sobre o funk do Rio de janeiro, estilo musical das favelas bastante criticado pela natureza chula, simplória e apelativa das letras.

Há cerca de um mês, o mesmo assunto foi tema de um debate orkutiano num forum de que participo. Entre opiniões favoráveis e depreciativas, comentei sobre um lado da questão que me parece pertinente sempre que me deparo com certas comparações constantemente feitas entre o funk e outros ritmos nascidos das classes menos favorecidas. Segue o comentário.




Lembro-me de uma participação da negra Li na MTV, em que, perguntada por Penélope se ela, como cantora e como mulher negra, se sentia, de alguma forma, representada em manifestações como o funk carioca; Negra Li até admitiu que gostava do ritmo, mas alegou não se identificar com as letras. Noutro programa, João Gordo criticou Mr.Catra, alegando que suas letras não diziam nada, comparando-as às dos Raps dos guetos de SP, que são mais inteligentes.Aliás, é comum fazerem esta comparação entre o funk "burro" das favelas cariocas e o rap "inteligente" dos guetos paulistas. Posso até concordar em parte com algumas dessas colocações, mas acho injusto cobrar do funk, por exemplo, um comprometimento social ou uma intelectualidade na composição das letras. Confesso que não entendo de música então me perdoem se digo alguma asneira, mas a impressão que tenho é a de que o rap é essencialmente letra com ritmo, ou seja, VOCÊ DIZ ALGUMA COISA musicalmente. O Rap é político na própria essência, e o rap de SP me parece ainda bastante ligado às origens do rap essencialmente político e contestador que explodiu nos states ao fim dos anos 80 e início dos 90.



O funk do rio é uma coisa mais dançante. É ritmo com (ou sem) letra, ou seja, a letra está lá para trabalhar para a batida, que é verdadeira essencia da coisa. Pode-se fazer um funk intelectual ou político, como os daquela cantora estrangeira MIA (acho que é esse o nome), por exemplo, mas ele será sempre mais dançante e vibrante do que discursivo, racional ou reinvindicador. Cobrar isso do funk, tendo o rap ou o punk rock como parâmetros, é ignorar certas diferenças fundamentais na própria essência e vontade intrínseca desses estilos.Claro que as letras do funk poderiam ser, digamos assim, menos toscas e repetitivas do que aquelas que conhecemos. Na verdade, há grupos de funk que já se enveredam por outras vertentes (como tb já houve lá nos primordios do estilo). Uma vez ouvi uma letra de funk bem simples, mas muito engraçada, sobre um dia de cão na vida de um sujeito (acho que era isso), e ai pensei: Talvez esse seja um caminho para esse funk moderno sem ter de apelar tanto para a putaria desenfreada e as repetições sem sentido, mantendo a simplicidade e a natureza da coisa. Não sei....



A impressão que tenho é a de que o funk faz uma espécie de política às avessas. Ele não realiza reinvindicações sociais diretas e nem brada por mudanças profundas como faz o rap nacional, como também não procura estabelecer elos mais pacíficos e construtivos com o mundo dos "incluídos" como no caso do samba, do reggae e do pagode. O funk me parece uma espécie de vingança dos excluídos, que hoje nos alimentam, nos chocam e nos contagiam com o fruto do crime que cometemos por décadas. Se os rappers falam de problemas sociais, os funkeiros os mostram nus e crus no próprio fruto de sua "arte". "Gostou não, preiboy! Então toma que o filho é teu!"O funk encarna uma faceta de nossa era que não pertence apenas à favela. Não é a toa que faz tanto sucesso com a classe média, pois uma grande parte dela nada em lagos semelhantes, afinal, a miséria de nossa era não é apenas material ou cultural, é ideológica, espiritual, emocional. O funk, como tantas manifestações de nosso tempo, representa uma espécie de escárnio aos ideais modernistas de progresso. O funk não está preocupado em resolver problemas porque aprendeu a viver dentro deles e hoje enxerga nossas "soluções" como empecilhos. O funk não lida com grandes narrativas coletivas, mas lutas particulares de sobrevivência. Sequer depende da aceitação da classe média, pois sempre teve um grande mercado auto-sustentável em seu terreno de origem, e por isso sobrevive a qualquer modismo, ressurgindo das cinzas sempre. O funkeiro é um sujeito que está cagando para nossa caridade, nossos valores, nossas regras, nossa moral. Aprendeu a viver sem elas.



Tuesday, April 24, 2007

A matrix americana

Como tantos jornalistas, pseudo-colunistas, experts de plantão e palpiteiros orkutianos ao longo da semana, meto também minha colher no caso Cho seng-Hui, o coreano da universidade tecnológica de Virginia, que num dia de fúria premeditado, decidiu assassinar 32 estudantes, sublimando assim aquele desejo secreto partilhado com boa parte de seus compatriotas. Dar uma bela porrada no sistema.



Vejo muita gente fazendo comparações entre este tipo de crime e os que comumente ocorrem na guerra do tráfico do Rio de Janeiro ou nas escolas de classe baixa no Brasil.
Há correlações, claro, mas, sobretudo, diferenças cruciais que jamais poderiam ser ignoradas. "Spree killing", que é como este tipo de violência é chamado na terra do tio sam, e "Serial Killing" são bem menos comuns por aqui do que por lá, onde a panela de pressão social estoura com muito mais freqüencia entre cidadãos comuns de classe média, então transformados em criminosos do dia para a noite. A violência das favelas daqui tem maior relação com os problemas de gangues dos guetos de lá ou a violencia freqüente das escolas pobres americanas onde alunos recebem um péssimo serviço e se vêem fortemente próximos à criminalidade desde os primeiros anos de vida.

Casos como Virginia Tech e Columbine possuem elementos únicos em suas origens, presentes em qualquer parte do mundo, porém mais visíveis em certos países ricos do ocidente, e ganhando destaque especial nos Estados Unidos da América.



Especialistas de cada canto continuam emitindo opiniões a respeito, algumas bem razoáveis. Fala-se da facilidade em se adquirir armas de fogo e do fascínio que elas exercem sobre os norte-americanos. Fala-se da "falta de toque" e de "calor humano" nos contatos diários entre seguidores de culturas protestantes. Discute-se o estado mental dos criminosos, o consumo de celebridades instantâneas, a glamurização, espetacularização ou banalização da violência, sexualidade reprimida, videogames impróprios, filmes violentos, música "degenerada", etc. Uma psicóloga da PUC chamada Sandra Dias chegou a destacar durante o Bom Dia Brasil de terca-feira na Rede Globo a relevância do fator consumismo que hoje assume a condição de sujeito no imaginário estadunidense, transformando, sob tal ótica, o crime de Cho Seng-Hui num ato de heroísmo, mesmo que "negativo". Dito isso, o entrevistador da emissora corta este depoimento para ouvir o testemunho de um brasileiro que esteve no prédio da universidade durante o tiroteio. Retoma a entrevista em seguida, levando Sandra a falar sobre o fácil acesso à armas de fogo e então encerra o assunto, impossibilitando-a de completar aquele pensamento anterior. Na quarta-feira, todo o conteúdo da entrevista foi cortado do programa no site Globo.com, como se ela sequer tivesse começado.




Edições à parte, penso que muitas dessas opiniões podem nos ajudar a elucidar causas pertinentes enquanto outras só conseguem confundir ao imbuir culpa em conseqüências, sintomas, como se neles estivesse a origem da doença. Seria como culpar uma letra do Marilyn Manson pelo suicídio do fã. Ambos, letra e suicídio, são elementos posteriores de um mesmo sistema fenomenológico e possuem raízes comuns. Raízes nascidas justamente na "caretice" de seus "santos" detratores.

Longe de mim tentar desvendar este mistério por inteiro, mas creio que uma peça importante do quebra-cabeças seja justamente a relação fechada que um cidadão americano comum (especialmente no que diz respeito às tradições culturais difundidas pelos fundadores do país e hoje presentes, em maior ou menor grau, nas demais "americas" que com seus descendentes interage) desfruta com aquilo que considera "as regras do jogo da vida".

Cho Seng-Hui realizou o desejo secreto da maioria dos compatriotas. Ele "deu um soco", "um tiro" no sistema fechado de "como as coisas são e devem ser" na América. Desde a escola, um americano comum de classe média está inserido numa imensa rede de divisões e sub-divisões analíticas e deterministas que o classificarão e "ranquearão" perante os demais. Seus teste de Q.I., notas no ano letivo, deslizes comportamentais, atividades extra-curriculares, "raça", sexo, aparência, roupas, condição social, etc, servirão para enquadrá-lo no sistema acadêmico e no sistema social, sendo que ambos possuem regras próprias, mas fortemente inteligadas, seguindo princípios competitivos semelhantes. Seu "nível de popularidade" determinará onde poderá se sentar no refeitório, com que alunos pode ou não interagir, a que festas pode ir. Se por acaso o "nerd invisível" da classe consegue "dar uns amassos" na líder de torcida que namorava o capitão do time de futebol, ele é automaticamente promovido e realocado, muda de mesa, de hábitos, de amigos, de status na vida. Se Johnattan Mason está fumando maconha e é flagrado, precisa passar uns meses na classe dos desajustados para se reabilitar e voltar à parte sadia da máquina, "salsichas defeituosas classe C para procedimento FGF". O deslize, claro, permanecerá em seu currículo para futuras etapas de avaliação, classificação e ranqueamento, quer na escola, na universidade, no emprego ou nas relações sociais, podendo minar cumulativamente sua marcha rumo ao shangri-lá do SUCESSO PESSOAL. Cada sistema complementa o anterior, para a frente, para os lados, para cima e para baixo, girando sempre em torno de imperativos pragmáticos, analíticos e consumistas. Cada etapa da existência tem suas regras e objetivos racionalmente inteligíveis, "dar uma de rebelde pode ser tolerável e até bonito na adolescência, mas é inadmissível para um homem maduro", "se come a mina de 17, vai preso como pedófilo pervertido; se espera um mês até ela fazer 18, é um sujeito sadio, normal e cumpridor dos deveres". O americano aprende a pensar a vida dessa forma, como um grande sistema racional de causa e efeito que opera em freqüência única de caráter linear, reducionista e absurdamente simplório, mesmo quando comparado aos sistemas reducionistas de nações ocidentais que também sofrem desse mal. A Matrix americana só consegue pensar o indivíduo dentro ou fora, e o indivíduo só pode se pensar dentro ou fora dessa Matrix. Não há fuga sem rompimento. Não há "jeitinho brasileiro", saídas criativas que o permitam fugir e estar simultaneamente. Não há sentimento de infinitude ou subversão sem confronto.




Se não consegue cumprir as metas sociais estabelecidas, se não consegue ganhar destaque em seu nicho ou em qualquer outro, se não é capaz de triunfar dentro daqueles principios consumistas americanamente aceitos como sinônimos de sucesso, o sujeito ganha status de "perdedor', do individuo que precisa existir para endossar os méritos de quem "chegou lá", "the people who made it", e se esse "perdedor" não encontra uma forma de se realizar dentro dos papéis que seu status lhe oferece, se não é capaz de sobreviver como tal ou ao menos criar alternativas usando as ferramentas disponíveis, torna-se ele uma espécie de bomba-relógio que pode implodir em suicídio ou explodir em transtornos psíquicos capazes de culminar nos fenômenos de que falamos: serial Killing, spree Killing ou simplesmente "um dia de fúria a lá Michael Douglas".



Não é a toa que quando têm uma chance para perder a linha - geralmente em épocas da vida e lugares premeditados, como no caso dos springbreaks universitários - os americanos vão fundo, perdem a linha mesmo, e da maneira mais desengonçada possível, já que não estão acostumados à constantes permissividades. Porra louquice fora de época e lugar tem de ser feita longe da polícia, senão rola cadeia da braba por perturbação da ordem. Muitos heróis modernos do cinema americano não hesitam em mostrar certo repúdio àquela ordem social por que devem lutar, fazendo tudo do seu jeito, desferindo socos e tiros como e quando querem, dando porrada no sistema a torto e a direito, rindo da cara dos burocratas, dos oficiais, dos comissários de polícia inaptos em controlá-los, dos carangos de milhões de dólares que pegam emprestado e depois destroem, justificando-se com um pedido de desculpas e um sorriso maroto. Esse é o escapismo do cidadão americano comum que vive envolto em regulamentos e manuais de instruções, mesmo onde eles não deveriam existir. Até o nerd Lewis Skolnick precisou dar um soco no líder Alfa-Beta para deixar de ser LOSER. George McFly só largou a vida de bunda-mole quando socou Biff - representante-mor da ordem social do colégio - bem no meio das fuças.
Rambo, Cobra, John McLaine, os personagens do Schwarzenneger... eles não apenas simbolizam o belicismo conquistador impassível do povo americano, mas também são a vontade do indivíduo de se rebelar contra a máquina. Seus heróis e seus criminosos pervertidos possuem desejos em comum, e não é a toa que estão ficando cada vez mais parecidos na crueza do caráter, diferenciando-se meramente na eficiencia com que matam (vide Blade, Bad Boys II e, pasmem, Matrix). Ambos adorariam destruir a casa branca e o world trade center juntos. Seriados como CSI mostram os mocinhos investigadores quase se regozijando enquanto conversam sobre os detalhes morbidos de cada crime. São o mesmo tipo de gente, mocinhos e bandidos. Psicopatas. Não foi a toa que um ator da série emitiu o seguinte comentário: "Os caras maus fazem o que os caras bons sonham." Caras bons? Não seriam psicopatas enrustidos?




Não digo que esse tipo de problema inexista no Brasil, mas aqui as frestas para respirar são infinitas e a criatividade abunda em cada canto. Fugir dos manuais é inevitável. Seguí-los a risca é complicado. Se nosso jeitinho brasileiro gera mil problemas novos a cada solução apresentada, também nos propicia mil soluções ante cada problema aparentemente intransponível, mesmo que os abismos sociais sejam mostruosos, pois se para cima há uma imensa cerca de arame farpado, para os lados há terreno fértil onde a criatividade consegue fluir e gerar saídas alternativas, novas "freqüências existenciais", felicidade e vitalidade onde isso não deveria existir.

Nosso caldeirão de heranças culturais aliado a rituais como o carnaval permitem que interajamos com a vida de modo mais maleável, menos determinista, sem esquemas e verdades prontas para cada etapa da vida. No Brasil das injustiças sociais acachapantes, do jeitinho, do "deixa a vida me levar", pode-se sair e ficar na Matrix simultaneamente com bem mais facilidade, já que ela funciona pela sobreposição de "freqüências existenciais múltiplas", "mundos paralelos" que se fundem num mesmo habitat e num mesmo sujeito cultural, confundindo nossos desejos conscientes de linearidade racionalista com uma complexidade social infinita quase impossível de diagnosticar. Muitos brasileiros odeiam que certas leis jurídicas não "colem" na vida prática, que "não pisar na grama" não signifique "não pisar na grama", que chegar as quatro horas da tarde num lugar pode significar quatro e dez, quatro e vinte, ou quatro horas mesmo, que nossa liberdade de expressão ostente "poréns" incomodos e incompreensíveis pertencentes ao terreno do inconsciente coletivo em determinadas situações, e que miseráveis consigam ser felizes na favela em meio à guerra do tráfico e falta de oportunidade enquanto ricos com tudo na mão vivem se drogando e tomando anti-depressivos. Até onde é bom ou ruim viver numa sociedade de regras invisíveis, multilaterais e mutantes, não sei. Se os americanos têm seus spree killers, temos aqui nosso conformismo endêmico. Se a unilateralidade deles implica em altíssimos preços a pagar, nosso "jeitinho" também não vem de graça.

Ressalto outra vez que não pretendo, através desse texto, estabelecer um diagnóstico para o caso Virginia Tech, mas apenas apontar fatores que certamente exercem peso significativo nos quadros sociais geradores desse tipo de crime. Tampouco alego que a criatividade não se faça presente no histórico cultural americano. Seria de absurda leviandade afirmar isto, até porque a construção dos Estados Unidos também passa pela absorção de influências que não as de seus fundadores, tendo decerto as de origem africana e latina exercido um papel vital na geração de trilhas que alimentem impulsos criativos. Todavia, não é leviano dizer que hoje os Estados Unidos respiram um ambiente cultural onde a criatividade recebe pouquíssimo incentivo para se desenvolver livre no espírito das pessoas. Se por acaso ela consegue resistir à essa vontade imensa de castrá-la e "sai do armário", tende a emergir maculada, ferida, contaminada pelo instinto americano de morte, refletindo os recalques de uma nação repressora, procurando pelo negativo, pelo agressivo, pela violência, competitividade e perversão, sendo essencialmente crítica e pessimista, mesmo quando se pensa positiva, pois lá a criatividade positivizada é exceção. Aqui é a regra.


Monday, April 09, 2007

Nossos Kafkas contemporâneos e seus terríveis inimigos



Ao longo dos três últimos dias, minha mente cogitou diferentes possibilidades para o próximo post desse blog, e por fim chegou a uma conclusão.
Até anteontem, eu pretendia falar sobre uma história pitoresca envolvendo Stanley Kubrick e o ator Malcolm Mcdowell nos bastidores do filme laranja Mecânica. De ontem para hoje, cogitei refletir sobre algo ocorrido durante o último Domingão do Faustão envolvendo a grande celebridade do momento, vulgo Alemão. Por fim, mudei de idéia, e decidi expressar um certo descontentamento com algo que vejo todos os dias, algo que me parece óbvio, mas que tantos insistem em passar por cima como se jamais acontecesse.

Vejo o tempo todo gente comum condenando gente comum por injustiças cometidas contra gente por eles mesmos consideradas incomum. Nossos colegas, pais de família e professores de faculdade de hoje condenam a igreja católica que um dia quis cremar Galileu por este crer que a terra era redonda; depreciam Hitler e todos os "idiotas" que ousaram seguir preceitos "absurdos" sobre raças superiores e um Reich de mil anos; cospem no nome de Judas e daqueles sacerdotes judeus e autoridades romanas que condenaram Jesus à crucificação. Torcem o nariz para os pais caretas de Cazuza, os "monstros" da ditadura militar, a burguesia preconceituosa que encarceirou Oscar Wilde, os intelectuais medíocres que não compreendiam a genialidade transcedental de Nietzche, os "entendidos" de arte que não valorizaram Van Gogh quando ele era vivo, os que mantiveram Kafka enclausurado nas rede absurdas dos senso comum de seu tempo e os que "pisavam no rosto da vontade humana" durante o sombrio 1984, de George Orwell.




Os agentes normalóides do senso comum atual adoram depreciar seus antecessores e pensar que agiriam contrariamente a eles se ocupassem seus lugares enquanto viviam. Estes inimigos potenciais de Nietzches, Kafkas e Dostoievskys abarrotam as próprias estantes com os trabalhos destes gênios, almejam apropriar-se de suas idéias, suas personas, seu legado e unicidade, pensam-se extensões presentes de sua transcendentalidade enquanto exercem justamente um papel contrário durante seu tempo, encarnando os mesmos poderes reacionários contra o qual estes ícones se opunham para castrar e descreditar seus sucessores atuais, impedindo-os de emergir à relevância pública. Os agentes do senso comum só sabem defender ideiais estabelecidos, usar Nietzche, Faucault ou Jesus da mesma forma que os católicos do tempo de Galileu usavam Aristóteles contra ele. Muitos destes hipocritas se aliariam ideologicamente à Hitler sem pestanejar com o mesmo afinco e certeza com que hoje o condenam de boca cheia; crucificariam Jesus e libertariam barrabás como fizeram seus "inimigos ideológicos" do passado, estivessem ao lado deles na história.



Para cada representante da vontade de transcender que atinge notoriedade ou grande relevancia pública (e eles não precisam ser gênios como Nietzche, Lennon ou Mozart, aliás, a maioria não é, embora represente genuinamente as reais forças da revitalização da liberdade e criatividade humanas), há dezenas ou centenas de semelhantes que jamais conseguirão abandonar seus cárceres psico-sociais para exercer aquele poder transformador que possuem. Entender a obra de um gênio é menos importante do que colaborar ou praticar aquele mesmo papel de abrir portas que a ele se atribue. E a maioria esmagadora das pessoas que conheço sabe apenas fechá-las, até porque aprendeu a viver desse modo. Fechá-las para si e para outros, impedindo que terceiros consigam abrí-las.
Portanto, é bem provável que você tenha candidatos a gênios ou abridores de portas a sua volta, é bem possível que você, inconscientemente, os esteja ajudando a castrar, ou talvez você mesmo esteja sendo castrado enquanto lê este texto.

Ler, defender e idolatrar abridores de portas do passado é mais fácil do que colaborar com os abridores de portas do presente, e seu bisneto careta de amanhã poderá estar depreciando sua caretice enrustida atual só para poder legitimar a dele. É o que a maioria das pessoas sempre fez.

Nota do autor: Este artigo foi republicado em 28/08/07 no site http://www.dominiocultural.com/

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Sunday, May 21, 2006

Método "William Bonner" para desmaios seguros. Funciona?



Eis um clichê dos mais conhecidos na TV e no Cinema. Dois personagens: um coloca o outro para dormir com uma porrada na cabeça, geralmente com um objeto de ferro ou madeira. Se estão em luta ou são inimigos, tudo bem. "A" pretendia machucar "B", desferiu o golpe, "B" desmaiou, ok. Se porventura "A" for um expert em artes-marciais ou algo do gênero e, em vez da porrada na cabeça, desfere um daqueles golpes modulados em pontos vitais de "B", sem problema. O vacilo maior ocorre quando este método "infalível" e "seguro" é utilizado como uma espécie de substituto do conhecido clorofórmio e o autor da pancada (que pouco conhece sobre artes marciais ou pontos vitais) sequer pretende comprometer seriamente a saúde da vítima, mas APENAS fazê-la desmaiar por um tempo, seja para levá-la a um local secreto, impedí-la de atrapalhar uma ação ou de testemunhar um fato, como se, ao bater, fosse realmente possível a este agressor avaliar a intensidade ideal de se fazer um sujeito desmaiar sem que, simultaneamente, um osso do crânio seja quebrado, um vaso importante seja rompido, um coágulo sério ocorra, e isso quando também não se pressupõe que a porrada pode, apesar de intensa, NÃO acarretar o almejado desmaio, mas apenas dano físico. É incrível como este "recurso" se calcificou na cabeça dos roteiristas (e do público) a ponto de ser aplicado indiscriminadamente - às vezes precedido de um "Sinto muito, parceiro, mas preciso fazer isso", ou "É apenas para o seu bem!" (suponhamos, por exemplo, que o "agressor" não deseja ver a "vitima" se arriscar numa operação perigosa na qual ela insiste em participar e a faz "dormir" para protegê-la) - , como se a pancada apertasse um botão na cabeça do agredido, desligando-o apenas. Uma pancada para fazer desmaiar tem de ser forte, e, só por isso, já representa um perigo. Além do desmaio, o agredido pode sofrer danos sérios, ou simplesmente não desmaiar. William Bonner talvez tenha confiado demais nesse recurso-clichê quando agrediu o bandido relapso em sua casa e possivelmente tomou um grande susto ao perceber que a realidade responde a nossas ações de modo bem mais complexo do que a ficção (Um rolo de massa funcionaria melhor?). Felizmente o referido meliante não era um víciado em filmes de gangsters, quase sempre implacáveis com a desobediencia de suas vítimas.