Wednesday, June 14, 2006

Reflexões sobre o mundial da Alemanha - parte 4

O OVO FABERGÉ CANARINHO



Faz mais ou menos uma semana que saiu na TV uma reportagem sobre "como vencer o Brasil na copa", segundo opiniões de cronistas esportivos estrangeiros. Um deles comparava nossa equipe a um ovo fabergé, maravilhosamente bem elaborado, belíssimo, magnânimo e também frágil. Muito frágil.
Estou certo de que qualquer brasileiro, quer torcedor, narrador, comentarista esportivo, técnico ou jogador da seleção, concorda que nossa equipe esteve mal, apesar da recente vitória sobre a Croácia, como também concorda que Ronaldo esteve péssimo, mas decerto divergirá, e muito, ao tentar diagnosticar os motivos da pífia atuação. Já imagino Trajanos, Calazans e PVCs procurando explicar a fraca eficácia do "quarteto mágico" e possíveis soluções ofensivas para o time que o permitiriam fluir melhor, "tocar a bola mais rápido", colocar Robinho no lugar de Ronaldo, problemas físicos de A, B ou C, e, se alguém porventura cogitar que um atacante precisa sair, decerto clamará por outro. Dia desses, um cronista famoso bradou aos quatro ventos o quão decepcionado ficaria se Parreira abrisse mão se de seu quarteto, "acovardando-se", jogando um "futebol de resultados".
Individualmente, a seleção não esteve mal, principalmente atrás. Dida, Cafu, Lúcio e Juan mostraram-se eficazes, Kaká, Zé Roberto e Ronaldinho Gaúcho produziram. Adriano jogou mal, mas colaborou tirando Nico Kovac da partida. Nosso entrosamento ofensivo esteve aquém dos objetivos, mas isso era esperado, pelo menos por quem entende que copa do mundo não é comercial da Nike, que o slogan "joga bonito" nem sempre prevalece em campo ao longo de uma partida. Aliás, encarnar demasiadamente essa campanha publicitária pode arrebentar nosso ovo fabergé de maneira humilhante nessa copa, e bem cedo.



Até entendo a relevância em discutir atuações individuais na análise da estréia canarinho, de questionar Adriano e Ronaldo na escalação titular, mas considero isso menor do que tocar no tabu evitado por grande parte da crônica esportiva nacional. Até onde vale a pena insistir no "quarteto" ? Até onde devemos apostar nessa formação leve e ofensiva demais que deixa espaços sempre que sobe, sobrecarregando Emerson, Zé Roberto e toda o sistema defensivo, que precisa de um entrosamento, uma coordenação, uma fluência muito bem treinada e orquestrada para não sucumbir à tendência natural que possui de vulnerabilizar a equipe sempre que perdemos a bola, deixando nossos defensores no fio da navalha, criando riscos desnecessários em partidas que poderíamos jogar e triunfar com mais tranqüilidade?



O tal "quadrado mágico" surgiu nas eliminatórias, quando Parreira decidiu trocar seu 4-4-2 com um volante fixo e dois "móveis" por outro de um volante fixo e um "móvel", abrindo brecha para a escalação de um meia leve ou um atacante, buscando melhorar a capacidade ofensiva do time, o que de fato ocorreu. Esta modificação funcionou mal no primeiro teste, mas duas partidas depois, contra o Paraguai, provou-se, no mínimo, um recurso valioso. Dias mais tarde, contra a Argentina em Buenos Aires, desastre: o time leve do Brasil viu-se surpreendido por um adversário pegador, tomando 3 gols no primeiro tempo, e apenas jogando de igual para igual quando trocou um integrante do quarteto por Juninho pernambucano (ou outro volante, não me lembro bem), desfazendo a formação. Questionou-se então a eficácia e a aplicabilidade do "quadrado", mas era cedo para desistir, e Parreira decidiu testá-lo definitivamente na Copa das Confederações.
A novidade tática soou, para grande parte da imprensa esportiva, como uma "evolução" das "tendências conservadoras" atribuídas ao técnico. Pouco importava a nossos cronistas se a seleção atuasse mal com seu "quadrado" em campo, pois os problemas estariam sempre em outro setor, e sempre haveria uma nova fórmula mágica de fazer o quarteto funcionar. De fato, há, mas cogito se realmente vale a pena correr riscos significativos para busca-las com tão pouco tempo disponível em vez de partir para iniciativas mais simples.



Por fim, a Copa das Confederações chegou e o quarteto, então com Kaká, Robinho, Ronaldinho Gaúcho e Adriano fez seu teste, obtendo certo êxito em alguns confrontos e gerando problemas em outros. Sim, o Brasil venceu sua competição após partida brilhante contra uma Argentina desfalcada, embora perigosa, mas correu riscos idiotas e desnecessários na primeira fase enfrentando equipes medianas e por pouco não se viu eliminado por um Japão oportunista, que apenas soube tirar vantagem de nossas clamorosas deficiências. Nas semi-finais, também penamos para vencer uma Alemanha que tinha os mesmos defeitos defensivos crônicos do Brasil e era bem inferior tecnicamente. Contra a Argentina, o quadrado pareceu funcionar sem deixar grandes buracos, mas apenas até metade do segundo tempo, quando Juninho Pernambucano (ou outro volante, não me lembro exatamente) entrou em campo para colocar mais "pegada" e ordem no meio. Vencemos, o quarteto foi "aprovado" e a equipe da Copa das Confederações acabaria servindo de base para a Copa de 2006, embora parte de seu elenco (incluindo um membro do quarteto) não fosse mais o mesmo. De novembro para cá, comentaristas esportivos têm se esforçado em debater quem deveria formar o "quadrado mágico", mas raramente questionam sua real necessidade, temendo o desperdício de talentos que a adoção de um "triângulo" significaria. Eis decerto a problemática do Brasil nesta copa. O que é melhor? Tentar aproveitar o maior número de talentos possíveis, comprometendo a solidez do time e apostando na "magia" do ovo fabergé ou diminuir um pouco seu brilho em nome da rigidez? Outra pergunta: Até onde tirar um centro-avante para colocar Juninho Pernambucano (em vez de Robinho) seria, de fato, um desperdício de talento? Há quatro anos, Felipão trocou seu esquema sólido de dois volantes por outro com dois "meias" às vésperas da copa do mundo, tornando sua equipe tão frágil quanto este Brasil que jogou ontem, mas numa chave que permitia esse luxo. Quis repetir a fórmula nas oitavas de final e quase foi enxotado pela seleção belga, algo que comprometeria gravemente a história de toda uma geração de atletas. Voltou a jogar com dois volantes contra a Inglaterra e vislumbrou sua equipe dando um salto qualitativo impressionante até o fim da competição. O problema é que esses erros nem sempre deixam margem a uma segunda chance, nem sempre nos permitem um jogo seguinte que comprove nosso real potencial, e a imagem do erro vira a imagem de uma era. Ontem, apesar do adversário forte, tivemos uma segunda chance. Resta saber se Parreira esperará ainda uma terceira ou quarta até fazer o necessário, quer abolindo o quarteto, substituindo Ronaldo ou ambos. O que não se pode é apostar demais no brilho e esquecer a solidez, preocupar-se em abrir brechas na defesa adversária ignorando as próprias deficiências, porque sempre haverá situações numa copa do mundo onde o ataque enfrentará dificuldade para fluir e dependerá da eficácia de uma defesa igualmente destrutiva, evitando que percamos jogos para nossa própria fragilidade em vez do mérito oponente. Se for para sairmos mais cedo desse mundial, que seja sucumbindo ao talento alheio e não a nosso malfadado desleixo defensivo. Assim teríamos, de certo modo, aproveitado essa geração para fazer história, mesmo sem ganhar o título, em vez de pagar um grande mico.



Ontem, corremos riscos idiotas. A simples substituição de um centro-avante por Juninho Pernambucano teria tornado o jogo completamente diferente do que foi. A Croácia jogou bem, mas só deu tanto trabalho a nosso goleiro porque Parreira permitiu, mantendo Ronado e o quadrado tempo demais em campo, mesmo quando já vencia por 1 x 0.

Texto também publicado no blog Fanáticos por Copa


Monday, June 12, 2006

Reflexões sobre o mundial da Alemanha - parte 3

Quando detalhes fazem a diferença



Há três grupos nessa copa que serão implacáveis com pequenos erros. A chave C, claro, conhecida como "grupo da morte", e também as E e F, respectivamente, da Itália e do Brasil. Nossos segundo e terceiro adversários fizeram um jogo de detalhes, de poucos espaços disponíveis, marcação forte e defesas avançando suas linhas, congestionando o meio-de-campo. É certo que não teremos metade da moleza de 2002 na primeira fase. O Brasil não poderá estrear bamba como fez contra os turcos e nem abrir as avenidas das duas partidas subseqüentes. Se passar às oitavas, provavelmente encarará um duelo de vida ou morte com Itália ou República Tcheca.



De volta à chave F, pode-se dizer que o Japão perdeu por detalhes, mas também perdeu na imposição de seu estilo. Não chegou a marcar mal, contudo abriu mais brechas defensivas do que o adversário, e, ao contrario deste, precisou que seu goleiro intervisse freqüentemente a fim de evitar o pior. Viu-se facilitado por dois erros da arbitragem no primeiro tempo, sendo que um impediu um possível gol australiano (impedimento inexistente) e outro propiciou a abertura do placar (falta não marcada do atacante no goleiro). De qualquer modo, penso que a tônica da partida não esteve só nos vacilos individuais japoneses que impediram sua possível vitória, apesar destes exercerem peso fundamental. Talvez a capacidade maior dos "aussies" em determinar como o jogo seria jogado tenha se constituído no grande diferencial, ponto chave que Parreira sempre enfatiza durante entrevistas. "Austrália e Japão" sucedeu-se mais à cara de Hiddink e do estilo pegador com muito contato, marcação e espaços mínimos disponíveis adotado pelos australianos do que a la Zico, futebol ofensivo, triangulações rápidas e prevalescência da técnica. Os japoneses não souberam cadenciar quando necessário, recurso que sempre facilita a equipe mais técnica, como também não souberam impor a típica velocidade asiática. Uma Austrália "pesada" fez valer esse peso sobre um Japão "leve", tornando o jogo sua imagem e semelhança, embora pudesse ter saído com uma derrota se o arqueiro nipônico não errasse feio, posicionando-se mal num escanteio, possivelmente empolgado pela defesa recém-realizada. Outros detalhes, como um passe impreciso para a conclusão atabalhoada de um contra-ataque, ainda com a partida em "1 x 0", também pesaram contra Zico e seus pupilos, que foram derrotados, sobretudo, na determinação dos parâmetros do jogo, mas também nesses detalhes individuais. A ótica predominantemente criativa do galinho talvez não se sustente quando desacompanhada de uma igual eficiência destrutiva, problema já evidenciado em amistosos contra Malta e Alemanha. Não nos surpreendamos, todavia, se essa equipe se classificar e tirar pontos do Brasil, pois tem capacidade para isso.



Pelo grupo E, Itália e República Tcheca mostraram a que vieram e decerto não imaginam precisar estar com capacidade inferior a 100% nas fases iniciais da competição para almejarem título. Rosincky e companhia evidenciaram uma fragilidade americana conhecida de seus últimos amistosos, mas também triunfaram pela qualidade técnica de time grande que possuem com Nedved em campo. Gana, até então uma incógita para mim, mostrou empenho, força, volume de jogo, e pouca objetividade nas conclusões, talvez pela ausência de um grande craque. Não está no nível da Costa do Marfim, mas é bem melhor do que Angola e, decerto, Tunísia e Togo, podendo tirar pontos importantes de República Tcheca, Estados Unidos e até sonhar com a classificação. Seus adversários italianos souberam neutraliza-los - mesmo que conseguissem tornar o jogo rápido como gostam - e souberam contra-atacar como fazem sempre, demonstrando talento e rapidez nos pés de Pirlo, Totti, Camoranesi e outros, aproveitando as aberturas defensivas criadas nas subidas ganesas e os eventuais vacilos dos africanos, como aquele que gerou o segundo gol.
Ao Brasil, um alerta de que nossos primeiros três confrontos deverão ser duelos de espaços curtos, velocidade e pouca chances para errar, onde a imposição do estilo de jogo será fundamental, como também adaptar-se às condições adversas de longos momentos truncados e brigados com entrosamento, triangulações e muita paciência. Capacidade, nossos craques certamente possuem.


Sunday, June 11, 2006

Reflexões sobre o mundial da Alemanha - parte 2

Elefantes em maus lençóis



Espero pouco da África nessa copa. Assisti a alguns jogos do campeonato continental, realizado este ano, e não faço fé em seleções como Togo, Tunísia e Angola. Gana, para mim, é uma incógnita, e a Costa do Marfim, se tivesse desfrutado mais sorte com as bolinhas (Gana também não teve muita), poderia despontar como o grande representante africano na Alemanha, capaz de igualar campanhas históricas como a de Camarões em 90 e Senegal em 2002. Infelizmente, a roda da fortuna não ajudou. Os "Elefantes", como são mundialmente conhecidos, prepararam-se bem e possuem um elenco com estrelas experientes de calibre internacional, como Didier Drogba, do Chelsea, e Emmanuel Eboué, do Arsenal. Impuseram ritmo forte e frenético contra uma Argentina mentalmente focada em não repetir seu recente fiasco e também ciente de que não podia errar, de que cada jogo de primeira fase em seu grupo precisa ser encarado como uma final. Mas, como a Nigéria de 2002 (aliás, melhor), os elefantes acabaram injustiçados pelo destino. Possuem um time que se caísse na chave da França ou da Alemanha, certamente chegaria às oitavas, mas cercados por Holanda, Argentina e Sérvia, precisariam, além de jogar muito, errar pouco (ou quase nada) e ter bastante sorte para ir além da etapa de classificação. Com uma derrota já decretada, só um auxílio significativo dos deuses futebolísticos somado a uma extrema competência para evitar que saiam na primeira fase. Foram eficientes contra os Argentinos, mas não o bastante, e perderam gols imperdoáveis num confronto deste calibre, ao contrário dos adversários, que já deixaram claro estarem entre os favoritos ao título, tanto em termos técnicos, quanto físicos e psicológicos. Não pretendem deixar que as bolinhas os impeçam de seguir adiante outra vez.



Presenciar tal atitude mental dos jogadores argentinos me fez temer pelo destino do Brasil, que, como os portenhos, possui uma esquadra tecnicamente muito forte (talvez a mais forte da copa), mas pode ainda não ter adquirido o ar guerreiro que uma seleção campeã precisa ostentar desde a primeira partida. Croácia, Austrália e Japão não constituem um grupo da morte, mas estão bem acima das babas que pegamos em 2002 durante a primeira fase. Discursos como o de Parreira, alegando que sua seleção não pode estrear com 100% da capacidade até fazem sentido, mas são perigosos, pois partem do princípio histórico de que o Brasil "sempre passa" da primeira fase, e isso não existe. Passar da primeira fase requer extrema preocupação em passar da primeira fase.
Como consolo anti-portenho (por mais que eu admire a seleção Argentina, não consigo torcer por ela) resta saber que eles também venceram uma equipe africana na éstreia de 2002, também num "grupo da morte", e, ainda assim, caíram antes das oitavas.

Ocorrerá de novo? Algo me diz que não.



Agora, pulando para o grupo B, Inglaterra e Paraguai disputaram uma partida razoável, sendo que os sul-americanos pagaram caro pelo mal início e, mesmo evoluindo e "mordendo" no segundo tempo, não conseguiram quebrar a marcação inglesa, usufruindo pouquíssimas chances de gol. Sem Rooney, os britânicos não encantaram, mas fizeram partida sóbria, souberam assustar e complicar o Paraguai no começo, e também travar seu poderio ofensivo, evitando espaço para boas conclusões. Mesmo na etapa final, quando o oponente teve mais posse de bola e iniciativa, desfrutaram número superior de chances claras em gol. Alguns comentaristas podem criticar Erikson e seus pupilos por quererem administrar a vantagem em vez de se arricar demais buscando ampliá-la, porém, partindo de uma ótica futebolística inglesa e considerando seus focos no título - semelhante àquele nosso de 94 após jejum de 24 anos - , penso que a turma de Beckham foi inteligente e melhor na maior parte do jogo, apesar das raras pixotadas da defeza e do atrapalhado Crouch. Quem, afinal, pode garantir que sua altura (e o medo que ela provoca em defesas nas bolas aéreas) não fez com que Gamarra se precipitasse um pouco ao interceptar o chute de Beckham de qualquer maneira, marcando contra? Sobre Trinidad e Tobago, pouco de bom para falar. Time aguerrido, não temeu a camisa sueca, mostrou aplicação, empenho, mas pouco poder de fogo. Pode passar da fase de grupos, e, contando com a divina sorte de cruzar com um Equador nas oitavas (algo pouco provável), sonhar em ficar entre os oito, mas é, indubitavelmente, fraco, e deve menos seu pontinho atual na competição a grandes méritos defensivos do que à falta de mira dos atacantes suecos (Allback, em especial), que devem estar possessos em desperdiçar dois pontos quase certos.

Ontem, na ESPN Brasil, Paulo Coelho entrevistou Paulo Coelho, que ilustrou opiniões sobre a copa, er... digo, Paulo VINICIUS Coelho, comentarista esportivo, entrevistou o outro Paulo Coelho, mago em vender livros, que ilustrou opiniões sobre a copa.

E para fechar, um videozinho interessante do mundial. O rock "oficial" da torcida inglesa para a copa da Alemanha. WUNDERBAR ENGERLAND... Digo... BRASILIEN!


Texto também publicado no blog Fanáticos por copa

Friday, June 09, 2006

Reflexões sobre o mundial da Alemanha - parte 1

Eis uma estréia atípica de copa do mundo e de seleção alemã, que em muito me fez lembrar, em performance, aquela que estreou contra a Austrália, meses atrás, pela copa das confederações.
O técnico Jurgen Klismann impôs nova filosofia ao time, procurando quebrar um pouco a vocação defensiva e conservadora que marcou sua seleção nos últimos mundiais. Como na estréia de meses atrás, tivemos um jogo de muitos gols, com uma Alemanha infinitamente mais preocupada em pontuar do que em não levar, falhando clamorosamente no que sempre soube fazer, defender e segurar resultados, mas também jogando um futebol ofensivo, mesmo dentro das já conhecidas limitações técnicas, aproveitando-se, claro, da fragilidade e da falta de ousadia de um adversário que pouco fez senão usufruir bem as pouquíssimas oportunidades que teve.
O placar foi justo e contrariou o mau agouro que aflige grandes seleções em jogos inaugurais de copa, mas esta Alemanha que vimos hoje é tão frágil quanto a da copa das confederações. Fazia muitos gols, mas também os tomava em demasia.
Agradou-me ver a esquadra de Klismann abrindo espaço para chutes de longa distância e não insistindo tanto no velho chuveirinho de costume. Conseguirão eles fugir de suas velhas tendências contra adversários mais fortes, e, principalmente, quando estiverem atrás no marcador? Polônia e Equador, por sua vez, fizeram um jogo equilibrado (e fraco), que não justificou a margem de vitória equatoriana. Os sul-americanos foram inteligentes, administrando bem a vantagem adquirida no primeiro tempo com um jogo cadenciado, procurando brechas na linha de impedimento adversária, mas também tiveram sorte no fim da partida, tomando duas bolas na trave que poderiam ter mudado a história da copa. De impressões marcates, duas. Primeira: este mundial pode ser um campeonato de muitos gols por partida, bem diferente daquele panorama medroso de 90 e 94, que até ensaiou uma volta em 2002, mas que talvez fique de fora em 2006. Segunda: algumas linhas de impedimento vão sofrer na Alemanha, sendo surpreendidas constantemente por aparições relâmpago como a do atacante costa-riquenho Wanchope na partida de abertura. Aliás, por favor, nada de reclamar quando o árbitro validar um gol impedido por centímetros. É justo que, na dúvida, se deixe a jogada correr, pois um gol anulado por impedimento inexistente é mais cruel e anti-futebolístico do que outro validado com o atacante centímetros a frente do último zagueiro. A regra do impedimento foi criada para evitar "banheiras", e não para ser usada como ferramenta anti-jogo pelas defesas.

Uma observação: O cuidado dos locutores Galvão Bueno (Globo) e Paulo Soares (ESPN Brasil) ao pronunciar o nome do goleiro costa-riquenho PORRAS. Enquanto Galvão insistia em adicionar o primeiro nome JOSÉ antes de dizer PORAS ao invés de PORRAS, Paulo fez questão de inventar um acento agudo que transformasse PORRAS em PÓRRAS.
Que PORRA!


comentário também publicado no blog Fanáticos por Copa

Sunday, May 21, 2006

Método "William Bonner" para desmaios seguros. Funciona?



Eis um clichê dos mais conhecidos na TV e no Cinema. Dois personagens: um coloca o outro para dormir com uma porrada na cabeça, geralmente com um objeto de ferro ou madeira. Se estão em luta ou são inimigos, tudo bem. "A" pretendia machucar "B", desferiu o golpe, "B" desmaiou, ok. Se porventura "A" for um expert em artes-marciais ou algo do gênero e, em vez da porrada na cabeça, desfere um daqueles golpes modulados em pontos vitais de "B", sem problema. O vacilo maior ocorre quando este método "infalível" e "seguro" é utilizado como uma espécie de substituto do conhecido clorofórmio e o autor da pancada (que pouco conhece sobre artes marciais ou pontos vitais) sequer pretende comprometer seriamente a saúde da vítima, mas APENAS fazê-la desmaiar por um tempo, seja para levá-la a um local secreto, impedí-la de atrapalhar uma ação ou de testemunhar um fato, como se, ao bater, fosse realmente possível a este agressor avaliar a intensidade ideal de se fazer um sujeito desmaiar sem que, simultaneamente, um osso do crânio seja quebrado, um vaso importante seja rompido, um coágulo sério ocorra, e isso quando também não se pressupõe que a porrada pode, apesar de intensa, NÃO acarretar o almejado desmaio, mas apenas dano físico. É incrível como este "recurso" se calcificou na cabeça dos roteiristas (e do público) a ponto de ser aplicado indiscriminadamente - às vezes precedido de um "Sinto muito, parceiro, mas preciso fazer isso", ou "É apenas para o seu bem!" (suponhamos, por exemplo, que o "agressor" não deseja ver a "vitima" se arriscar numa operação perigosa na qual ela insiste em participar e a faz "dormir" para protegê-la) - , como se a pancada apertasse um botão na cabeça do agredido, desligando-o apenas. Uma pancada para fazer desmaiar tem de ser forte, e, só por isso, já representa um perigo. Além do desmaio, o agredido pode sofrer danos sérios, ou simplesmente não desmaiar. William Bonner talvez tenha confiado demais nesse recurso-clichê quando agrediu o bandido relapso em sua casa e possivelmente tomou um grande susto ao perceber que a realidade responde a nossas ações de modo bem mais complexo do que a ficção (Um rolo de massa funcionaria melhor?). Felizmente o referido meliante não era um víciado em filmes de gangsters, quase sempre implacáveis com a desobediencia de suas vítimas.


Sunday, May 14, 2006

Anão vestido de palhaço mata oito

Eis o título de uma comunidade muito interessante do orkut, dedicada a notícias da mídia cuja manchete consegue valer mais do que a própria matéria publicada. Entre os destaques contidos neste forum , acha-se preciosidades tipo Cachorro consegue título de eleitor na Nova Zelândia, Professora anuncia o fim do mundo a aluno de 6 anos, Sexo com cavalo mata homem nos E.U.A. e Queniano idoso mata leopardo com a língua, todas devidamente explicitadas e "linkadas" às respectivas fontes em seus tópicos de aparição. Pelo visto, o único "headline" apresentado que não costa como um fato real dentro da comunidade é justamente aquele que lhe dá o nome, mas isso é um detalhe irrisório ante a sagacidade criativa de seu idealizador.

O endereço da comunidade é http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=2599389



Wednesday, May 10, 2006

O dia em que um homem salvou o mundo

Buenas notches, moçada! Após mais de um ano parado, resolvi ressuscitar este blog, que, espero, será atualizado pelo menos semanalmente a partir de hoje. E, re-reiniciando este antro epistemológico da análise holístico-tétrica helicoidal do existir, coloco uma história verídica que pouca gente conhece. Quando vemos filmes tipo Maré Vermelha, "Fail Safe" ou Dr.Fantástico, imaginamos que, apesar de possíveis no âmbito real, seus respectivos enredos não estariam assim tão perto de ocorrer ou já ter ocorrido um dia, e que anteparos grossos de sensatez, diplomacia, regulamentações e confiabilidade teriam criado uma larga e segura fronteira entre os elementos da guerra fria e as possibilidades dela se transformar num conflito total. Recentemente, descobriu-se que o mundo esteve perto, e não apenas uma vez, deste desastre, e que, ao contrário do que se pensava, a crise dos mísseis em Cuba não caracterizou o momento em que E.U.A. e U.R.S.S. estiveram mais perto de uma guerra nuclear. Abertos documentos secretos das duas superpotências, soube-se que os anos 70 e 80 também ostentaram episódios marcantes de tensão que poderiam ter transformado parte do planeta num autêntico "Day After". Uma dessas histórias será contada neste blog, a história do dia em que a saúde do mundo dependeu da decisão de um único homem.

Stalislav Petrov, o russo que salvou o planeta



O histórico da humanidade esconde heróis e monstros inimagináveis em suas entrelinhas, que muitas vezes passam despercebidos dos livros por séculos, ou para sempre, enquanto mentiras viram fatos incontestáveis nas salas de aula. Stanislav Petrov era tenente coronel do exército soviético em setembro de 1983, quando a Guerra Fria com os Estados Unidos ainda atravessava fase perigosa e os russos tinham acabado de abater uma aeronave comercial sul coreana por engano, imaginando tratar-se de um jato espião do "inimigo". As duas superpotências apontavam mísseis nucleares uma à outra de várias partes do mundo e contavam com complexíssimos sistemas de defesa capazes de alertar sobre um ataque atômico em segundos, dando tempo ao "alvo" para reagir e também lançar seus mísseis. O resultado de uma guerra nuclear seria óbvio: Destruição mútua dos envolvidos e de grande parte do resto do mundo. Centenas de milhões de mortos.

Sob este cenário, Stanislav Petrov foi escalado para substituir outro oficial no comando de um posto-patrulha ao sul de Moscou, monitorando o sistema eletrônico coordenado por satélite que vigiava aquele espaço aéreo contra possíveis ataques norte-americanos. Qualquer sinal de perigo deveria ser imediatamente informado ao alto comando soviético que teria cerca de doze minutos para reagir no caso de uma investida nuclear. Por fim, o improvável pareceu virar fato quando radares da estação acusaram um míssil se aproximando, algo que Petrov estranhou, já que nenhum inimigo atacaria com um único projétil. O problema é que novos mísseis logo surgiram nos monitores, caracterizando uma possível ofensiva em larga escala, e, como previsto, os colegas de Petrov repassariam a informação, mas foram interrompidos pelo tenente-coronel que desconfiou de seus computadores e preferiu ignorar as próprias ordens, seguindo os instintos, imaginando tratar-se de um simples defeito do sistema. Informar seu alto-comando sobre aquilo significaria um provável contra-ataque russo, já que, diante do pouco tempo disponível, este mal teria condições de avaliar o contexto antes de reagir e aniquilar milhões de vidas, talvez sem motivo. Estar errado, em contrapartida, equivaleria a Petrov condenar seu país ao vexame de ser atacado sem revidar, sem cumprir com um protocolo coletivo histórico de décadas. Felizmente, ele estava certo, ao contrário dos malfadados computadores que precisaram de intervenção humana para evitar uma catástrofe. Mas salvar boa parte do planeta não pereceu satisfazer os superiores de Petrov, que jamais o recompensaram pela "desobediência", preferindo paralisar sua promissora carreira, que ele mais tarde abandonaria. Somente em meados dos anos 90, quando já findada a Guerra Fria e o comunismo russo, pôde Petrov desfrutar algum reconhecimento e gratificação, visto que seu segredo enfim foi revelado. Hoje, seu feito tem lugar certo na hitória mundial, lembrando-nos do perigo que nossos medos provocam quando investimos na indústria da destruição, instigando-nos a não precisar de novos Petrovs para ter um futuro.


Petrov recebe a condecoração de Cidadão do mundo em cerimônia das Nações Unidas realizada em Nova Iorque


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