Monday, March 30, 2009

Pitacos de domingo (1) - Futebol



1 - Julio Cesar

Há algumas semanas, escrevi um post especificamente sobre o goleiro
Julio Cesar, mas a preguiça e outros fatores me impediram de terminá-lo. Basicamente, eu dizia o seguinte: Na história do futebol, o Brasil já foi tudo, já teve melhor time, melhor jogador, melhor atacante, maior goleador do mundo, da copa, de todos os tempos, mas nunca melhor goleiro. Aliás, só de dez anos para cá nossa seleção passou a ser respeitada nessa posição. Nossa escola de goleiros hoje permite que tenhamos arqueiros de nível internacional tanto entre titulares quanto reservas, e agora, enfim, a coroação desse esforço. Julio Cesar é hoje tão bom que até lembra os grandes momentos do lendário Michel Preud´Homme. Faz o estilo do goleiro milagreiro, de saltos espetaculares e defesas "impossíveis", o extremo oposto da escola Taffarel, de boa colocação e defesas "seguras". Se até ontem havia dúvidas, agora a imprensa já começa a admitir o que muitos já enxergavam como inevitável. Julio Cesar é ou vai ser muito em breve, e indiscutivelmente, o melhor goleiro do mundo. Melhor que Casillas, Buffon, Peter Czec ou Van Der Sar - boa parte destes, já em descendente. Julio Cesar vem em ascenção e sua grande fase pode ser coroada na próxima copa do mundo, caso estejamos lá.



2 - Brasil 1 X 1 Equador

Quanto à seleção, me parece óbvio que Dunga não preparou o time para a cara do jogo, e esqueceu, como tantos outros treinadores esquecem, que cada partida tem um perfil. Repetiu a escalação da vitória contra a Itália contra um adversário que, todos sabiam, tinha como forte o jogo pelas pontas, os cruzamentos e a altitude. Nossa seleção quis jogar mais encolhida e esperar os contra-ataques, mas não tinha sido armada para fazer esse jogo, nem para garantir a posse de bola nos chutões de Julio Cesar, nem para evitar os rebotes, naturais em partidas sob pressão. E se altitude sempre foi problema para o Brasil, se todos sabiam disso, porque não se prepararam para "segurar a avalanche" e aproveitar os contra-ataques, marcando do meio para trás? Pior, se o adversário se destacava pelas pontas, porque deixar seus melhores valores nas mãos de gente como Marcelo e Daniel Alves, ótimos no ataque e patéticos na defesa? Nossa escola de laterais precisa aprender a defender também. Lateral não é ponta. Se almejamos manter o estilo laterais-alas pós-94, precisamos de jogadores capazes de executar essa função ou de esquemas que não façam a defesa depender tanto da atitude individual deles. A cobertura de Josué, aliás, foi igualmente ridícula. Dando bote errado, chegando atrasado sempre, fazendo falta e tomando "come" toda vida.



Ninguém está falando muito a respeito ainda, mas nossa situação nas eliminatórias já é alarmante, quase tão complicada quanto em 2001. Temos, pela primeira vez, empatado jogos fáceis em casa e contando demais com os tropeços adversários. A partida contra o Peru é obrigação de vitória. Depois, será Uruguai em Montevidéu, Paraguai aqui e Argentina - muito melhor com Maradona e Billardo - em Buenos Aires. A máxima de que, bem ou mal, o Brasil sempre se classifica para a copa será colocada em cheque de novo.


Tuesday, March 17, 2009

Piraram na batatinha da Formula-1



Acaba de sair hoje uma das decisões mais estranhas e controversas da história da Formula-1. A partir de agora, a pontuação só servirá ao campeonato de pilotos como critério de desempate e como definidor de segundos, terceiros e quarto colocados em diante. O campeão será quem tiver o maior número de vitórias, independentemente do resto. Uma decisão estúpida, a meu ver, que criará situações atípicas e anti-competitivas ao longo da temporada. Alguém esqueceu de avisar aos donos da categoria que a tal competitividade não ocorre só na briga entre primeiro e segundo, mas em todas as posições, e uma vez que a quantidade de pontos passe a não determinar o campeão, teremos pilotos de ponta abdicando de uma prova ao perceberem que não podem vencê-la. A solução óbvia para se incentivar o duelo pela primeira posição seria aumentar a diferença de pontos entre primeiro e segundo para três ou quatro, em vez de dois. Isso já seria o bastante para fazer candidatos ao título arriscarem uma colocação confortável pelo posto mais alto do pódio. Não tenho bola de cristal, mas acho que essa foi uma mudança de regra incrivelmente equivocada e que pode estragar uma temporada que estava prometendo.

O jornalista Flavio Gomes comenta a decisão em seu blog.


Tuesday, March 10, 2009

Watchmen - um clipe metido a filme



Sou fã da série Watchmen dos quadrinhos. Li há pouco tempo e achei fantástica. A "Graphic Novel" de Alan Moore e David Gibbons tem tal relevância no mundo dos gibis e da ficção, que recebeu honrarias dedicada à pérolas da literatura. É a única HQ a constar na lista das 100 maiores obras literárias em língua inglesa escritas desde 1923, elaborada pelos críticos da revista Time, por exemplo. Com isso, choveram intentos para adaptar Watchmen à telona. Entre os candidatos, Terry Gilliam, que até tentou, mas achou a história intransferível devido à características fortemente relacionadas à midia original. Além disso, o enredo é longo e profundo, com histórias dentro de histórias dentro de histórias, todas densas, concatenadas e repletas de mensagens subliminares que nos fazem ingressar num mundo vivo, vibrante e que diz muito sobre a modernidade e a década em que foi escrito. Não foi por acaso que levaram vinte anos para transformar Watchmen em filme.

O desafio era imenso; os fãs da série, exigentes. Desconfiança pairava no ar, mas os primeiros sinais de recepção foram favoráveis. Críticos de alto calibre como Pablo Villaça, de quem sou fã, elogiaram o filme, como também o bonequinho do globo e outras mídias especializadas. Dos fãs, resposta igual, e apesar de minhas desconfianças (uma vez que assisti ao trailer e também fiquei ciente de quem dirigia o projeto), pensei que, no fim, fosse concordar com a opinião hegemônica de que, ao menos como versão, Watchmen, o filme, era bom. Desencanei e desembolsei dezesseis reais por uma cadeira no Roxy de Copacabana, esperando me divertir.



O longa começa. Empolga-me, o início. O Comediante era parecido com o do quadrinho e sua morte seria encenada em vez de insinuada em flashes como na HQ. "Ok. No problem". Veio a primeira luta e meus temores ganharam forma. Sim, as tais piruetas de enquadramento girando em 360 graus enquanto a imagem alterna lentidão com rapidez estavam acontecendo de novo, exatamente como naquele filme sobre espartanos, como é mesmo o nome? Ah, "300". Do mesmo diretor, não é? Ignorei-as e perdoei o virtuosismo besta me distraindo da história. O comediante quebra o vidro, a câmera pára e gira e volta e close no smiley ensangüentado quicando no chão. Com cinco minutos de filme, a empolgação inicial dá lugar ao tédio. Sim, aquilo era mais ou menos o que meus maus pressentimentos temiam. "300" com roupa de super-herói. Alan Moore não merecia isso.



Watchmen, o filme, é um fracasso. Terry Gilliam faria melhor. O roteiro precisou ser mudado e adaptado à curta duração do projeto e nisso os responsáveis mostraram empenho. Muitos diálogos do quadrinho estão lá, linha por linha, ou com passagens inseridas em outras falas. Flashbacks foram enxugados ou realocados, preservando suas sub-tramas básicas dentro do possível. O enredo do filme, embora enxuto e diferente, mostra-se fiel ao gibi, e talvez tenha sido isso a me revoltar mais que tudo, ver falas que eu tão bem conhecia mudando de contexto a ponto de "desdizer" o que diziam no quadrinho. A aparente fidelidade da adaptação funcionando como um álibi para que Zack Snyder, "o virtuoso", fizesse seu videoclipe de duas horas e meia sem importunações. E é isso que Watchmen é. Um clipão chinfim de duas horas e meia amparado por falas supostamente geniais desprovidas de um contexto que as faça dizer o que querem.

A HQ funcionava em níveis múltiplos de percepção, mas o filme se mantem no nível 1. Cada quadro precisa ser tão impactante quanto uma capa de revista. Mas uma sinfonia não pode ser tocada no apogeu do início ao fim. Musicalmente, ela deve "contar uma história", assim como Watchmen deve contar uma história, e uma história tem etapas, tem introdução, apogeu, conclusão... No caso de Watchmen, vai além, mas possui altos e baixos e nuances e silêncios reflexivos que fazem um emaranhado de elocubrações e situações ganharem sentido. Snyder ignora isso. Para ele, tanto faz se é um filme de faroeste, espartanos machistas de sunga ou super-heróis aposentados às vésperas do armagedon, o que vale é manter o espectador em contínuo deslumbre visual, olhos gozando a cada granulação de frame, cada salto, coreografia, gota caindo do cabelo meticulosamente esvoaçante do protagonista. Não há tempo ou espaço para pausas dramáticas, silêncios reflexivos, "ascendente e descendentes" que permitam a devida ingestão do que os diálogos propõem. As falas do roteiro têm de dar espaço ao exagero estético que nunca "afrouxa" e, por isso, mal se ouve o que é dito ante o show de estímulos. Talvez fosse melhor que não houvesse falas.


Chego a pensar nesse filme como um atentado à grandeza do quadrinho. Excedo-me? Duvido. Snyder pegou os diálogos de Moore e os anulou. Fez com que trabalhassem em prol do que questionavam. A crítica aos tempos republicanos, a Reagan, às visões unilaterais e suas conseqüências, às inversões de valores de uma sociedade doente que gera gente como Rorschach e o Comediante, "guardiões" de um mundo "torto", tudo isso virou apologia e brincadeira na mão de Snyder, como também a violência, presente na HQ, mas não de modo gratuito, gerando-nos, por isso, impacto e empatia com personagens e situações. No filme, não há empatia, ou humanismo, ou pontes que nos permitam entrar na história, pois não há história, só uma seqüência vazia de eventos.



O filme é um simulacro bidimensional do quadrinho. A morte do anão se finge fiel à obra, mas só quer mostrar sangue, maldade, maldade divertidinha. O Coruja não se choca com a atitude do ex-colega. Apoia-o numa careta como se dissesse "hell, yeah, kill this motherfucker" por dentro; o mesmo prazer mórbido dos espectadores que acharam engraçado quando Rorschach picou a cabeça de um assassino com um cutelo. "A seqüência foi quase igual ao quadrinho, com uma mísera diferença!" brada a mim um fã, no que respondo: Não. Não foi "igualzinha" ou quase. Fingiu que era. Simulou para legimimar o que Snyder queria que o público quisesse ver. A porrada, o braço cortado, o sangue digital que é "super maneiro, cara!". Esse Watchmen é um pornô onde os diálogos só prestam para entremear a ação que todo mundo espera. Mas a "ação" da HQ se dava "dentro da ação" ou onde ela não existia, uma "ação" que ocorria em nossos interiores pelo que não podíamos deixar de pensar, sentir, associar, na relação com o que a história nos comunicava. O psiquiatra só aparece no filme para que o filme nos diga que ele aparece, como uma penca de personagens, falas e seqüências dispensáveis; para que os fãs exclamem: "Ih, olha lá o psiquiatra da HQ! Ih, agora a seqüência das figuras! Ih, vai falar do cachorro agora, olha o cachorro, ih, legal, sinistro, assim desse jeito!" Nada acontece que não seja para justificar o lusco-fusco, o "verdadeiro filme de Snyder" como obra cult ou algo mais que um mero videoclipe.



Se entivesse vivo, Baudrillard consideraria a associação entre o longa e a HQ uma alegoria muito melhor de seu "Simulacros e Simulações" do que Matrix, onde se adorava citar o filósofo nos bastidores. As atuações em Watchmen seguem caminho idêntico. À exceção dos momentos de raiva, ironia, etc, as emoções são sempre em falsete; os personagens nada sentindo. São eles, não os atores, os verdadeiros intérpretes. Psicopatas interpretando humanos. Psicopatas simulando choque, tristeza ou compaixão a cada necessidade do enredo. Suas verdades interiores estampadas na máscara mórbida que, quando podia, deixava transparecer o material sádico e impassível do qual era feita.

Talvez o fato de poucos perceberem isso, que a mim parece óbvio, seja um sinal de que a doença que Moore denunciou em sua obra tenha contaminado o consenso público. Estamos mais rorschachiados e comediantizados do que nossos predecessores. Esses filmes e nossa aceitação deles refletem isso. Watchmen é a "grande piada" do Comediante Snyder para os Rorschachs dentro de nós.



Não creio que não existam qualidades no filme, mas estas são inofensivas frente ao desastre do conjunto. Para não dizer que odiei tudo, penso que um esboço de trama ameaçou dar as caras nos minutos finais, e de repente as falas moveram-se nas tumbas, levantaram-se, ameaçaram fazer-se valer e lutar contra o exagero visual pela atenção do espectador, estrebucharam e desfaleceram, pois era tarde e o estrago estava feito. Tecnicamente, muitas das soluções do roteiro adaptado fizeram sentindo (há falhas também), incluindo o fim alternativo, que precisou de menos retrospectos que o fim original requeriria, parecendo-me eficiente.

Tenho mais a falar de Watchmen, para o bem e para o mal, porém o choque negativo pela escolha do diretor, por sua interpretação do trabalho de Moore e pelo fato de tantos não terem exposto sua mediocridade me fez querer "botar para fora" em palavras e deixar de lado questões mais específicas do roteiro ou desse e daquele ator. Sei que não sou dono da verdade, e também não quero posar de politicamente correto, ou anti-estético, ou anti-violência, que para mim pode ser um recurso ótimo, desde que nas mãos certas, quer críticas ou sádicas. Um projeto como Watchmen merecia um diretor comprometido com a essência da trama.



Snyder é péssimo. Exagero por exagero, sanguinolência, impacto, porrada... prefiro Tarantino ou Rodrigues. Nenhum dos três faria Watchmen, dependendo de mim, mas Tarantino sabe diferenciar filme de videoclipe e Snyder não.




Nota posterior do autor: Escrevi este texto ontem (9/3) e o publiquei aqui na última madrugada. Sei que 90% da crítica apoia o filme, mas, aos poucos, vou descobrindo opiniões de fãs e especialistas com visões parecidas com a minha. Há minutos, esbarrei com um comentário de Isabela Boscov, da revista Veja, que tem muito a ver com o que escrevi. Para quem quer conferir o que ela disse, basta clicar aqui.


Monday, February 23, 2009

Idéias em ebulição


Para quem não sabe, escrevo também num blog coletivo, o Poeira de Idéias. Este site foi criado ano passado e contava com quatro participantes que semanalmente postavam artigos de cunho analítico, em geral sobre filosofia, cinema, política, economia ou questões mundanas sob ângulos originais e interessantes. O Poeira de Idéias foi reformulado para 2009 e eu substituí um dos membros. Cada um dos quatro blogueiros tem direito à uma postagem mensal e uma extra em sua semana de postagem, caso queira. Cada semana pertence a um blogueiro e as atualizações são efetuadas na quarta ou na quinta-feira.

A última postagem, feita semana passada, foi minha (meu segundo texto publicado). Os dois artigos que lá coloquei saíram nos números 21 e 22 da Revista Sina, de Mato Grosso. Os outros redatores do site são Rafael Issa, Marcel Gianotti e Juliana B. Lanfranchi


Friday, February 20, 2009

Barrada no baile

Só que de verdade. Saiba mais aqui




Tuesday, January 13, 2009

Manuel, importante e necessário


O texto principal desse post não foi escrito por mim, mas por Paulo Coelho. Sim, o "marketeiro" Paulo Coelho que só escreve para iletrados, que explora a sede de sentido e misticismo dos ignorantes, que jamais deveria ingressar na Academia Brasileira de Letras, que não tem profundidade, que é a vergonha da literatura nacional e mais mil definições elogiosas de quem nem sempre se dá ao trabalho de conceder atenção ao que o cara escreveu antes de emitir opiniões.

Nenhum escritor está acima da crítica, e o sucesso, naturalmente, deixa qualquer um mais exposto. Não sou um grande fã de Paulo Coelho, mas enxergo em muitos dos seus escritos uma busca genuína e pertinente pela essência do ser, o que me basta para considerá-lo digno de apreciação e do sucesso que tem. Opinião, claro. Cada um tem uma. O texto a seguir é dele, e, a mim, está longe de ser mera auto-ajuda de quinta, como uns gostam de pensar. Simplicidade e qualidade nunca foram antônimos.

Sem delongas, segue o texto. Leia e faça sua avaliação.



Manuel, importante e necessário




MANUEL PRECISA ESTAR OCUPADO. Caso contrário, acha que sua vida não tem sentido, está perdendo seu tempo, a sociedade não precisa dele, ninguém o ama, ninguém o quer. Portanto, assim que acorda, tem uma série de tarefas: assistir ao noticiário na televisão (pode ter acontecido alguma coisa durante a noite), ler o jornal (pode ter acontecido alguma coisa durante o dia de ontem), pedir à mulher que não deixe as crianças se atrasarem para a escola, pegar um carro, um táxi, um ônibus, um metrô. Mas sempre concentrado, olhando o vazio, olhando o relógio, se possível dando algumas ligações de seu celular — e fazendo questão que todos vejam que é um homem importante, útil para o mundo.

Manuel chega ao trabalho, debruça-se sobre a papelada que o espera. Se for um funcionário, faz o possível para que o chefe veja que chegou na hora. Se for patrão, coloca todos para trabalhar imediatamente; caso não existam tarefas importantes, Manuel irá desenvolvê-las, criá-las, implementar um novo plano, estabelecer novas linhas de ação.

Manuel vai almoçar — mas jamais sozinho. Se for patrão, senta-se com os amigos, discute novas estratégias, fala mal dos concorrentes, sempre tem uma carta escondida na manga. Queixa-se (com um certo orgulho) da sobrecarga de trabalho. Se Manuel for funcionário, também senta-se com os amigos, queixa-se do chefe, diz que está fazendo muita hora extra, afirma com desespero (e com muito orgulho) que várias coisas na empresa dependem dele.

Manuel — patrão ou empregado — trabalha a tarde inteira. De vez em quando olha o relógio, está chegando a hora de voltar para casa, mas falta resolver um detalhe aqui, assinar um documento ali. É um homem honesto, quer fazer jus ao seu salário, às expectativas dos outros, aos sonhos de seus pais, que tanto se esforçaram para lhe dar a educação necessária. Finalmente volta para casa. Toma banho, coloca uma roupa mais confortável, vai jantar com a família. Pergunta pelos deveres dos filhos, pelas atividades da mulher. De vez em quando fala do seu trabalho, apenas para servir de exemplo — porque não costuma trazer preocupações para casa. O jantar termina, os filhos — que não estão nem aí para exemplos, deveres ou coisas similares — saem logo da mesa e vão para a frente do computador. Manuel, por sua vez, vai também se sentar diante daquele velho aparelho de sua infância, chamado televisão. De novo vê os noticiários (pode ter acontecido alguma coisa de tarde).



Vai se deitar sempre com um livro técnico na mesa de cabeceira — sendo patrão ou empregado sabe que a concorrência é grande, e, quem não se atualiza, corre o risco de perder o emprego e ter que enfrentar a pior das maldições: ficar desocupado.

Conversa alguma coisa com sua mulher — afinal, é um homem gentil, trabalhador, amoroso, que cuida de sua família e está pronto para defendê-la em qualquer circunstância. O sono vem logo, Manuel dorme, sabendo que no dia seguinte estará muito ocupado, e é preciso recuperar as energias. Naquela noite, Manuel tem um sonho. Um anjo lhe pergunta: “Por que você faz isso?” Ele responde que é um homem responsável.

O anjo continua: “Você seria capaz de, pelo menos durante 15 minutos do seu dia, parar um pouco, olhar o mundo, olhar para você mesmo, e simplesmente não fazer nada?” Manuel diz que adoraria, mas não tem tempo para isso. “Você está me enganando”, diz o anjo. “Todo mundo tem tempo para isso, o que falta é coragem. Trabalhar é uma bênção quando isso nos ajuda a pensar no que estamos fazendo. Mas torna-se uma maldição quando sua única utilidade é evitar que pensemos no sentido de nossa vida.”

Manuel acorda no meio da noite, suando frio. Coragem? Como é que um homem que se sacrifica pelos seus não tem coragem de parar 15 minutos? É melhor dormir de novo, tudo não passa de um sonho, estas perguntas não levam a nada, e amanhã vai estar muito, muito ocupado.


Saturday, January 03, 2009

Patos pós-modernos



Assisti ontem ao filme Borat, com o audaciosíssimo Sasha Baron Cohen. O projeto funciona como um experimento e, segundo os envolvidos, muitas mudanças nos rumos do roteiro precisaram ser feitas, uma vez que ele foi posto em prática. Sasha já era conhecido na Inglaterra por personagens como Ali G – uma sátira à moda Gangsta Rap e aos wannabes do gênero – e pelo próprio Borat – que já tinha quadros no programa de Ali G. Nos Estados Unidos, sua popularidade era menor, mas ele já havia feito uma apresentação no show de David Letterman bem antes do famigerado filme ser lançado por lá.

Para quem não sabe, Borat, o personagem, é um repórter do Cazaquistão que faz um documentário nos Estados Unidos destinado a seus conterrâneos, mostrando, através de entrevistas com os americanos, as virtudes do povo que habita a nação mais poderosa do planeta.

Com este discurso em mãos, Borat convence suas vítimas a participar do experimento, que na verdade é uma grande pegadinha. Tanto o personagem quanto sua terra de origem são retratados no filme de modo absurdamente estereotipado, rude e politicamente incorreto, mas, no caso de Borat, verossímil o bastante em seu sotaque e trejeitos para serem tidos como reais pelos entrevistados. Com isso, o projeto expõe as limitações, a ignorância e a hipocrisia de algumas alas do povo americano aprisionadas em seu narcisismo ideológico de donos da verdade.

Um olhar mais atento nos mostra que o filme vai além disso. Na verdade, nem todos os supostos participantes involuntários do projeto são, de fato, vítimas, e com isso, Borat revela que somos nós também patos da pegadinha.



Mas Borat não é só uma pegadinha. É a celebração de algo que vem acontecendo na TV há tempos: uma mesclagem entre as linguagens tidas como ficcionais e realistas ao ponto do espectador se perguntar onde uma coisa acaba e a outra começa e, num nível mais profundo, aperceber-se de que os dois já se fundiram numa coisa só e geraram novos gêneros narrativos que o público atual não tem dificuldade para assimilar. Borat existe e não existe. Nós "existimos" e "não existimos". O mundo do espetáculo pode ser mais real que a realidade, ou ser a própria realidade. Pode se divertir com nossa passividade existencial como nos divertíamos com os espetáculos antes deles nos tornarem passivos. Somos espetáculo. Espetáculo do espetáculo. A vida é um complexo de peças operadas pela indústria cultural.



Andy Kaufman tinha feito isso nos anos oitenta, mas seu público era diferente e o resultado das pegadinhas que armava – com celebridades se fingindo de vítimas e confusões simuladas para acarretar reações no público em programas ao vivo – foi um turbilhão de problemas que praticamente o tiraram do showbizz e impediram que alguém noticiasse seu câncer até a morte do ator comprová-lo.

O espectador pós-moderno não liga em ser manipulado, em descobrir que a verdade era mentira, que a mentira era verdade, que a verdade pode ou não ser mentira e que a ausência de mentira ou de verdade é uma realidade. Borat celebra (sacaneando) esse mundo. "O que é o Cazaquistão? Um país? Ah, aquele país fictício que aparece no filme do Borat, mas existe de verdade. O tal carro de sorvete percorreu mesmo os EUA? A pegadinha da Pamela Anderson foi armada? Quantos documentaristas, de fato, ficavam atrás das câmeras enquanto as vítimas eram filmadas?" Sei lá. Nem quero saber. É cinema e televisão, e o que vale é o que aparece. Sempre foi assim, mas talvez nenhum público estivesse tão pronto para encarar isso de modo mais assumido e relaxado como nas duas últimas décadas, estendendo isso a seus cotidianos.



Ah, tudo bem! Falando na boa... Fiquei sim curioso e dei uma pesquisada na pegadinha da Pamela Anderson para saber se foi armada. Foi. Descobrir isso me fez gostar mais da moça que, cá entre nós, mandou bem para diabo ao ser ensacada e fugir. Não consigo deixar de rir ao rever o trecho. A luta dos caras nus também foi qualquer coisa de sublime.

Há cenas inéditas de Borat nos EUA filmadas para sua série britânica, com o título de "Guia de Borat para os EUA". Parte desse material pode ser acessada através do youtube. Veja alguns episódios:

1 - Borat visita uma partida de Baseball

2 - Borat não consegue entender o sentido de um museu na California, tenta comprar um escravo e vai a outro rodeio.

3 - Aprenda a se defender da garra de um judeu

4 - Borat no clube de tiro

5 - Borat aprende a degustar vinho

6 - Borat toma aulas de boas maneiras

7 - Borat participa de um encontro arranjado, mas antes, pede dicas à conselheira

8 - Borat na academia

9 - Borat conversa com um anti-semita e quer aprender a caçar judeus

E não é só nos States que ele expõe o preconceito da galera não. Dois quadros do Guia de Borat para a Grã Bretanha:

1 - Borat na universidade de Cambridge, expondo o machismo da galera e aprendendo a jogar criquet.

2 - Borat aprende a flertar e a ser um cavalheiro