Sunday, April 01, 2007

Sobre o gol 1000 de Romário

São exatamente 17:28h de domingo, primeiro de abril, enquanto escrevo. Daqui a alguns minutos, Vasco e Botafogo se enfrentarão pela taça Rio e Romário terá a oportunidade de marcar seu milésimo gol como jogador desde os tempos em que pertencia às categorias de base. Para muitos, a data justifica a controvérsia acerca do marco, visto que, diferentemente de Pelé, a lista do baixinho conta com gols anteriores à sua profissionalização no esporte.
Discussões a parte, até porque, bem ou mal, Romário também está a três gols de bater pelé em "tentos" oficiais (leia-se, aqueles marcados em jogos profissionais por competições validadas pela FIFA). A questão que coloco aqui é outra; uma pergunta constantemente feita entre comentaristas e esportistas, geralmente dirigidas à goleiros. Seria uma honra ou uma vergonha tomar este milésimo gol? "Você" (no caso, um goleiro, ou mesmo um cidadão comum colocando-se hipoteticamente como um arqueiro) gostaria de tomar este milésimo gol? Sentiria-se honrado?
Tenho ouvido sims e nãos - mais nãos do que sims por parte dos goleiros - mas até agora não vi ninguém responder da forma (elementar até, entre outras igualmente elementares) com a qual eu responderia se colocado na situação por que passará o pobre (ou feliz) Julio Cesar. Seria uma honra tomar este milésimo gol? Seria algo bom, já que meu nome ficaria eternamente lembrado e associado a esta marca e ao momento em que ela foi concebida?

Como ex goleiro de pelada (ha, ha, ha) eu diria que seria uma honra tomar este gol se ele não surgisse de uma falha minha. Tomar um frango no milésimo gol de Romário talvez significasse (especialmente no caso de um goleiro que não conseguisse grande fama pelos próprios méritos) ficar marcado por um erro, SER este erro, profissionalmente falando. Para Julio Cesar (goleiro ainda novo e ainda anônimo), seria deveras importante tomar esse milésimo gol, mas sendo ele indefensável (ou quase), de preferencia bonito (com direito a uma bela ponte do jovem arqueiro), sem humilhações, sem frangos, sem micos. Nesse caso, sim, eu consideraria uma honra esta marca. Do contrario, melhor deixá-la para outro.

Thursday, March 29, 2007

Racismo em Brasilia

Acabo de ler no site do globo que um apartamento de estudantes africanos foi incendiado em Brasília por militantes racistas ao velho estilo Ku-Klux-Klan.
Que vivemos num país racista, todos sabem, mas este tipo de prática violenta e não escamoteada contradiz os métodos racistas culturais vigentes, alertando-nos para um possível desenvolvimento de um novo racismo, condizente com aqueles que já conhecemos no primeiro mundo. Claro que posso estar exagerando um pouco, mas o novo sistema de cotas raciais abriu essa brecha, gerou o pretexto ideal para que estudantes não negros possam assumir um racismo já latente de forma mais aberta, ou tranformem sua carga de insatisfações e angústias em ódio, descarregando-os sobre um grupo visível em cima do qual pensam poder justificar a origem dos próprios problemas.

Em suma, a hipocrisia nacional se revela outra vez, pois todos sabemos que vivemos numa nação desigual, e - por que não dizer? - racialmente desigual (tanto em termos sociais quanto histórico-culturais), mas enquanto essa desigualdade é praticada sem que se a declare, não há problemas. Pois todos podem fingir que nada acontece. Se, no entanto, algo é dito, ou pautado em lei, quer a favor dos negros (ex: cotas, revistas especializadas ou camisas 100% negro) ou mesmo contra (como no próprio caso do jornal, que certamente gerará caras e bocas de espanto e indignação em nossos racistas habituais que, outra vez, tentarão transformar seus colegas "declarados" em bodes espiatórios para se sentirem menos racistas), brasileiros não hesitam em erguer suas lanças de hipocrisia. Neste país, racismo deve ser praticado, mas nunca mencionado, e isso acaba colaborando ainda mais para a perpetuação do problema, pelo menos do modo como já o conhecemos.


Para acessar a reportagem, clique aqui

Sunday, July 16, 2006

Pedido de desculpas

Novamente agradeço aos poucos e sempre amados leitores deste blog pela atenção e peço mil desculpas por parar subitamente de "postar", pois tenho estado um pouco ocupado nestes últimos dias.

Pretendo, claro, escrever pelo menos um ou dois novos textos sobre a copa, visto que dela ainda não fiz um balanço mais abrangente. Durante seu curso, cheguei a publicar uma resenha enaltecendo a participação de certas seleções e a possibilidade de termos duelos memoráveis nas fases decisivas, talvez por estar embalado pelo jogo que acabara de assistir, Holanda X Costa do Marfim, a melhor partida de todo o campeonato, em minha opinião.

Não foi um grande mundial, como cheguei a cogitar, e a espectativa de um futebol mais aberto insinuada nas rodadas iniciais deu lugar a partidas travadas, onde os times se esforçavam mais em anular seus oponentes do que em construir jogadas de gol, cientes, claro, do caráter traiçoeiro das fases eliminatórias e ansiosos em "sair da fila" a qualquer custo, como nós em 94. Pragmáticos ou não, ao menos mostraram algum futebol, diferentemente de um certo selecionado, então favorito, que mal conseguiu encontrar seu padrão de jogo ao longo do torneio.

Até breve, colegas!

Monday, July 03, 2006

Reflexões sobre o mundial da Alemanha - parte 11

Brasil X França. A ressurreição do pesadelo.



Eis, amigos, a “encoberta” verdade sobre 1998! O grande segredo por trás de uma final de copa que suscitaria, pelo menos até anteontem, o imaginário de milhões de torcedores, incrédulos na legitimidade do futebol pífio apresentado por nossa seleção, convictos na existência de alguma trama escusa – possivelmente ligada à “suspeita” convulsão de Ronaldo horas antes da partida começar – que nos tivesse feito entregá-la em troca de qualquer favor idiota oferecido pela FIFA, Adidas, Nike, ou sabe-se lá quem, e, desta incapacidade de lidar com o óbvio, folclores e teorias sobre arranjos de resultados nasceram, mesmo fora do Brasil, afinal, o “grande time” que jogara “tão maravilhosamente bem” contra a Holanda nas semi-finais não podia perder como perdeu: apático, confuso, incapaz de reagir, e o problema de Ronaldo viraria desculpa para Zagallo, Bebeto e outros protagonistas do infame episódio na hora de justificar seus fracassos. Dunga, claro, seria exceção, e não hesitaria em enfatizar a relevância dos méritos adversários como elemento determinante do “desastre”. Desastre que, de algum ponto perdido no limbo esportivo, resolveu ressurgir, revivendo máculas e glórias de uma decisão até então questionada, talvez para desfazer mal-entendidos, remover nossas vendas de narcisismo ferido, castigar a empáfia de uma nação que só consegue analisar futebol olhando o próprio umbigo, repetir uma lição que nunca foi e dificilmente será aprendida, a lição de que estrelas nem sempre resolvem campeonato, de que ostentar um bom time transcende ter um plantel de craques, de que podemos possuir os melhores jogadores (será?), mas não necessariamente o melhor futebol, e de que este esporte também envolve estratégia, estudo, racionalidade, repetição, planejamento, treino, opções de jogo, prevalescência tática, física, emocional, de que “se deu certo anteontem e ontem”, não significa que ocorrerá de novo, de que se erramos e consertamos em cima da hora em alguns torneios onde triunfamos, não precisaremos errar outra vez para repetir a mesma “mística” vencedora.



Como em 1998, perdemos anteontem para um time mais inteligente, com uma estratégia superior à nossa, com um “maestro” intelectualmente mais capaz de compreender e manipular o jogo do que qualquer Kaká, Cafu ou Ronaldinho. Se capengamos e tropeçamos até a decisão de 98, sobrevivendo mais do talento individual do que de qualquer capacidade estratégica ou tática que Zagallo pudesse possuir na manga (ainda que proporcionássemos esporádicas exibições mais convincentes); em 2006, fomos além na mediocridade, e, de novo, os “azuis” de Zidane apareceram dos céus para mostrar ao Brasil que nosso suposto “melhor futebol do mundo” não pode mais sobreviver de improvisos, nomes, Marketing, brados, folclores, místicas, lampejos intuitivos e supertições, que se a alguns adversários sempre faltou o tal “brilho a mais” que fizesse diferença nos momentos decisivos, que se a essa mesma França faltara magia até anteontem e decerto faltará quando Zidane se aposentar, a nós carece inteligência, capacidade analítica, e, claro, fundamentos básicos de outras seleções onde atacantes sabem jogar sem bola e meio-campistas conseguem completar um passe longo e ligar contra-ataques sem grandes dificuldades.
Isso, claro, sem mencionar nosso velho caos organizacional de bastidores futebolísticos, malogrado por ervas daninhas que usam o esporte preferido da nação como pretexto para enriquecer, vampiros da bola lucrando alto com cada transação, negociata escusa, patrocínio, saída ou entrada de jogador, mandando e desmandando dentro e fora do país, protegidos e legitimados pelo escudo dos clubes e federações que representam. O grande segredo de 98, revelado anteontem ao mais incrédulo dos incrédulos, pouco teve a ver com supostas convulsões de Ronaldo e certamente não envolveu qualquer entrega de resultado; o segredo foi uma mistura de talento e inteligência, de aliar qualidade técnica à estratégia, foi ter um amplo conhecimento sobre nós, nossos padrões, fraquezas, nossa terrível incapacidade de reagir e reorganizar quando surpreendidos e encurralados em nosso “modus-operandi”. Como em 98, o Brasil se deparou com um antídoto e não conseguiu se transformar ao longo de noventa minutos, ler a partida, utilizar opções, desenvolver alternativas sobressalentes para o caso de problemas com o “plano A”. Zagallo não tinha “planos B” em 98, e tampouco Parreira em 2006, apenas idéias vagas desenvolvidas ao longo do mundial, “pôr esse ou aquele jogador”, “um volante a mais ou um atacante a menos”.

O segredo de 98 foi que apostar demais no jeitinho brasileiro pode nos fazer cair de joelhos ante a inexorabilidade racional dos europeus, especialmente se estiver ela aliada ao talento diferenciado de dois ou três jogadores, simbolizados anteontem por uma mistura de África com “Velho continente”, uma autêntica legião estrangeira pós-globalização encabeçada por general “Zizou”, seus tenente Henry e Vieira, sargentos Makelele, Thuram e Ribery, e todo um exército azul, branco e vermelho a marchar incólume sob o som da marselhesa enquanto enterrava cabeças verde-amarelas de mauricinhos e pop-stars sem comando ou qualquer noção do que ocorria em combate. Como Napoleão, Zidane fez seu exército dividir nossos apáticos representantes, isolá-los, anula-los no âmbito coletivo até torná-los quase inofensivos, atabalhoados, desesperados ante a morte anunciada. Não houve batalha, resistência ou honrarias. Fomos, como em 98, escurraçados da copa por nêmesis imbuídos em anunciar ao mundo que o futebol brasileiro era uma farsa.
Se em Paris podíamos ser parcamente redimidos pela atuação satisfatória das semi-finais contra uma Holanda que nos sobrepujara por cerca de 70 minutos, perdera gols quase impossíveis, mas também nos brindara com um desgaste físico de prorrogação que ofereceria chances para mudarmos a imagem histórica de uma partida; anteontem, não houve atenuantes ou desculpas esfarrapadas, nenhum jogo anterior que nos consolasse, nenhum mistério que nos fizesse acreditar em conspirações folclóricas. Perdemos em campo e perdemos para o mundo inteiro saber da copa em que fomos um time de várzea, do mundial em que sucumbimos à arrogância da CBF, a uma preparação mal elaborada capaz de dispensar amistosos importantes para depois reclamar da falta deles quando o navio afundasse, a um grupo covarde, técnico e jogadores incapazes de contextualizar um problema e elaborar soluções ao longo de noventa minutos ou mesmo entre um jogo e outro. Parreira não perdeu porque quis jogar feio ou bonito; Parreira não adotou sua filosofia “pragmática” de 94, como tanto anunciaria a seus críticos, mas apenas a utilizou como pretexto para endossar vitórias fortuitas, quase casuais, onde estivemos a beira do gol de empate ou da derrota o tempo inteiro, gol que, por capricho e muito esforço dos pobres Dida, Juan e Lucio, não nos surpreendeu enquanto podia, deixando para aparecer justamente quando não mais fosse possível mudar, ousar ou arriscar. Se Parreira foi sensato ao colocar Juninho em campo, mesmo tendo esta escalação falhado além de minhas pobres e talvez enganosas expectativas, foi incoerente ao deixar Robinho por tanto tempo no banco, mesmo diante do óbvio, mesmo depois do gol, preferindo restabelecer seu time predileto com Adriano, talvez para calar a crítica com mais um golzinho espírita, prorrogando assim uma reação que poderia ao menos atenuar nosso vexame, garantir uma derrota digna ou até um empate em tempo normal, sucedido (Por que não?) de uma semi-final que nos possibilitasse enterrar Brasil X França de 2006 como Brasil X Inglaterra fez com Brasil X Bélgica em 2002, evitando que um erro de escalação marcasse uma era em nosso futebol, pois, em copa do mundo, o que ocorre durante 90 minutos de uma decisão ou ao longo de uma campanha, fica para sempre, acima de trocentos jogos de eliminatória, Copa das confederações ou comerciais da Nike. A humilhação de anteontem não sucedeu apenas por erros de escalação, mas coroou uma série de equívocos que permanecerão entranhados em nosso futebol, protegidos esporadicamente entre um título e outro, esquecidos a cada euforia e reavivados a cada comprovação de nosso eterno desleixo. Essa copa será marcada para nós como a copa da vergonha, a copa que humilhou nosso futebol como tanto temi ao longo de “reflexões” escritas neste blog, reflexões ingenuamente esperançosas de um milagre, mas profeticamente temerosas de um mico anunciado e confirmado. Esse time francês que nos venceu dificilmente voltará a brilhar como anteontem, pois, apesar da inesperada evolução que apresentara desde sua estréia, apesar de Henry e “Zizou”, ostenta ainda vestígios claros de mediocridade, que, mesmo diante de um oponente tão inexpressivo, mesmo diante de inquestionáveis méritos em nos sufocar por quase noventa minutos, ameaçaram reaparecer, e talvez reluzissem fortes, especialmente no pobre Barthez, se Robinho adentrasse o campo mais cedo, mas em futebol e na vida não existem “ses”, apenas a história, a irreversível história de um ovo fabergé que se estatelou e apagou o futebol brasileiro por quatro longos anos.



Perder é normal, mas não perdemos anteontem, fomos cuspidos do mundial pela porta dos fundos.


Texto a ser publicado no blog
Fanáticos por Copa


Friday, June 30, 2006

Reflexões sobre o mundial da Alemanha - parte 10

Pedras azuis em nosso sapato



Quis a sorte que encontrássemos novamente os franceses em uma copa do mundo, não na decisão, como em 98, mas nas quartas-de-final, como quando perdemos melancolicamente em 86, levando um suado empate para a disputa de pênaltis.
As equipes francesas de 1986 e 1998 lembravam nosso Brasil de algum modo, talvez mais o time de 86, também habilidoso, com um Zico de nome Platini e outros craques muito técnicos, jogando um futebol meio europeu e meio brasileiro, sem a típica cintura dura alemã, mas também sem a vocação ofensiva e o brilho da Holanda, quando campeão em 98, e sem uma solidez defensiva de italianos inspirados, quando eliminado nas semi-finais de 86. Lá e cá, com Platini ou Zidane, mandaram-nos para casa sem troféu, e pretendem repetir a façanha, prometendo resgatar lembranças de uma estranha final em que Ronaldo não foi Ronaldo por motivos ainda obscuros, e também calar quaisquer especulações remanescentes de quem permanece acreditando na hipótese de uma decisão arranjada.
Não, não é mais aquela França, mesmo com “Zizou” e outros em campo! Contudo, penso que a atual pode nos ser quase tão indigesta quanto sua antecessora, como em 97, no mesmo Saint Dennis da final, quase com a mesma escalação, num pequeno torneio quadrangular que contava também com Itália e Inglaterra, onde os “azuis” nos arrancariam um empate que já anunciava sua capacidade de se igualar ao Brasil entre as quatro linhas, mesmo que contássemos com um inspiradíssimo Romário. A verdade é que essa geração de jogadores sempre atuou bem contra o Brasil, vencendo-nos em 98 e 2001, empatando em 97 e 2004.
De 97 para cá, jamais os derrotamos, e isso mostra o quão legítima pode ter sido a “suspeita” decisão de Paris. Sabemos, no entanto, que cada jogo é uma história, e que essa França, apesar de experiente e perigosa, não tem mais o brilho de outrora, e tampouco joga em casa. Penso que se atuarmos com um time bem montado, teremos todas as chances do mundo para proporcionar uma honrosa despedida a Zinedine Zidane, apesar das iminentes dificuldades.



Mudando agora o foco, Alemanha e Argentina disputarão, a meu ver, o jogo mais esperado da copa, e também um duelo chave que poderá determinar os rumos do futebol alemão.
Por que digo isso?
Dois motivos interligados. Primeiramente, os alemães não vencem um clássico (leia-se “clássico”, jogos contra equipes de grande tradição) desde 2000, e uma vitória (ou mesmo um triunfo nos pênaltis) contra a Argentina solidificará de vez os méritos de Klismann no comando do time, Klismann que propôs uma alteração radical na maneira da Alemanha jogar, priorizando um futebol ofensivo, ousado e vibrante, que tornasse sua seleção não apenas competitiva, mas também apreciável aos espectadores, menos sisuda, menos fria, menos “alemã”, buscando justamente modificar essa terrível associação, a imagem do país que “descobriu um modo de ganhar copa sem precisar jogar bola”. Vencer os argentinos pode mudar permanentemente a maneira alemã de encarar futebol, e isso, para Klismann, significaria mais do que melhorar esse esporte em seu país, mas também no resto do mundo, visto que muitos olham a Alemanha como referência.
Por essas e outras, penso seriamente em torcer para eles hoje. Conseguirei?

Texto também publicado no blog Fanáticos por Copa


Wednesday, June 28, 2006

Reflexões sobre o mundial da Alemanha - parte 9

Gana foi nossa Bélgica de 2006

Em meu texto anterior, esqueci de mencionar o horário em que escrevia, minutos antes de Brasil e Gana começar, e minhas palavras, de certo modo, foram proféticas, pelo menos se analisarmos a atuação brasileira, novamente aquém do esperado, dependente da condescendência dos juízes e da inspiração de nosso arqueiro. Como nas oitavas de final de 2002, adentramos o campo com um time mal ajambrado, tomamos vaias da torcida e dependemos muito do talento individual para contrabalançar os problemas coletivos crônicos, principalmente nos primeiros sessenta minutos de jogo, antes de Juninho entrar. E se Juninho foi o Kleberson de Brasil X Bélgica em 2002, Ricardinho foi... Ricardinho, que, como naquela partida, entrou para aliviar a pressão do time não conseguir sair jogando e, de quebra, contribuiu com escelentes passes para gol que mudaram a cara do confronto. Um deles, bem arrematado por Zé Roberto.
A estratégia brasileira baseava-se na postura ofensiva da seleção adversária, que adiantou sua marcação para complicar nossa saída de bola e tentou parar nossos ataques com a boa e velha linha de impedimento. Parreira apostou na posse de bola, nos passes curtos, na espera e numa alternância de jogo cadênciado com velocidade para fugir da correria dos africanos e tirar vantagens de suas fragilidades. Funcionou maravilhosamente bem nos dez primeiros minutos. Depois disso, o que se viu foi um Brasil incapaz de segurar a redonda por muito tempo, atabalhoado em pífios contra-ataques de pouco entrosamento, esforçando-se para imitar o plano de estréia da Azurra contra esses mesmos ganeses, mas com uma escalação inadequada defensivamente para tal. Parreira temeu colocar Juninho no início da partida, preferindo um time que nunca deu certo fora do papel, mas (e também por sorte) ainda não perdeu. Fomos novamente salvos por colossais esforços individuais - destacando-se Juan, Lúcio, Dida e Zé Roberto - , pelas mesmas colaborações do destino que tivemos contra a Bélgica e por uma ajudazinha da arbitragem, não tão determinante quanto no jogo de 2002, mas que nos garantiu o alívio do segundo gol. Claro que, em se tratando de impedimento não marcado, volto a enfatizar a importância de se deixar uma jogada correr em caso de dúvida, e de que mais vale um gol impedido do que outro anulado por impedimento inexistente. Se implicarmos demais com os bandeiras nesse tipo de lance, a boa e velha recomendação da FIFA será inútil.
Outro grande diferencial favorável ao Brasil nesta copa tem sido a experiência de nossos craques, que, em detalhes, tem feito mais diferença do que se pode pensar. Assim como me impressiono negativamente com certos erros coletivos e individuais, também fico boquiaberto ante a sagacidade de nossos jogadores mais rodados em campo, mesmo quando atuam mal. A capacidade de não se deixar levar demais por um momento adverso ao longo da partida, de saber aproveitar os vacilos do adversário em instantes capitais e, pelo menos por parte dos atacantes, de fazer o que os ganeses não fizeram, visualizar uma conclusão antes de arrematar, e por isso desfrutamos melhor as oportunidades de gol, coisa que Gana não fez.
Brasil X Gana foi também um embate entre juventude e experiência, entre a saúde dos africanos e a serenidade e frieza de nossos atletas em alguns momentos (não em todos, claro). A sagacidade individual tem contrabalançado o mal-preparo coletivo até agora, garantindo resultados positivos em atuações questionáveis. Contra a França, precisaremos jogar mais, como jogamos melhor há quatro anos contra a Inglaterra. O Brasil está mal, mas tende a crescer ao se defrontar com grandes seleções. Espero que aconteça de novo, o que será bastante provável se Robinho voltar e o time jogar completo com ele em campo.
Logo, escreverei sobre as demais seleções.



Tuesday, June 27, 2006

Reflexões sobre o mundial da Alemanha - parte 8

Venceu o medo! Que tenhamos sorte também! Muita sorte!

A oitava parte de minhas "reflexões" sobre a copa será mais um desabafo! Um urro de indignação ante a a falta de flexibilidade e de coragem de Carlos Alberto Parreira, que pretende "pagar para ver" mais uma vez, esperar outro jogo para ver confirmado o que todo mundo já está cansado de saber. Adriano e Ronaldo não podem jogar juntos. O país inteiro clama por Juninho Pernambucano no lugar do fatidicamente lesionado Robinho, esperança única de mudança para a cara do futebol brasileiro nessa copa. Parreira confiará em sua estrela, escalando o time do sono outra vez, torcendo por mais um golzinho fortuito como os de Kaká e Adriano. Gana talvez seja hoje o que a Bélgica foi para nós em 2002, o último alerta dos Deuses Futebolísticos de que não podíamos insisitir na burrice. Naquela copa, a imprensa não clamava por Kleberson como clama hoje por Juninho Pernambucano. Tomara que, como naquele jogo, a arbitragem e nosso goleiro façam suficientes milagres para segurar a avalanche de obviedades que tentará nos chutar dessa copa.
Parreira diz que não testou outra escalação. Por quê? Porque deixou para testar tudo no mundial, só que, na hora de testar, prefere confiar na mediocridade comprovada do quadrado que não funciona sem Robinho do que na duvidosa segurança que Juninho pode proporcionar ao time.
Esse é Parreira, amigos!