Tuesday, September 11, 2007

Boondocks sim, mas em espanhol???



Meu horário preferido do canal Sony é o de terça a noite, com as produções politicamente incorretas, onde rola até palavrão.

Dos cinco seriados exibidos na seção, apenas dois realmente me agradam. Um é
The IT Crowd, do qual pretendo falar mais neste blog. O outro é The Boondocks, uma série animada (a única da emissora) derivada de uma tirinha de HQ.

The Boondocks se passa num subúrbio classe média de Chicago onde dois garotos negros de personalidades diferentes passam a morar com o avô e precisam se adaptar às regras locais.

Desta relação entre protagonistas e demais personagens, os autores fazem paralelos com a sociedade americana, tocando em temas delicados, muitos deles relacionados à comunidade "afro-americana", sua interação consigo e com o resto do país.

The Boondocks é polêmico, provocativo, mas muito inteligente, reflexivo e engraçado. Segue uma linha mais ácida que a dos Simpsons, mas que não renega uma certa positividade, uma certa esperança por trás de todo o sarcasmo, ironia e iconoclastia inerente às situações.

Seus dois protagonistas mirins são quase que lados opostos de um mesmo sujeito social. Huey Freeman, que também narra os episódios, faz um estilo Lisa Simpson politicamente engajado, militante, inteligente e muitas vezes sozinho ante a insensatez de quem o cerca. Seu irmão mais novo Riley também é inteligente, mas muito sunceptivel aos modismos da midia e dos colegas. Ele representa a juventude negra que se perde nos cânones da mídia estereotipante.




Bom... gostaria até de ir mais fundo em minha análise sobre o "cartoon". Talvez faça isso em outro post. Hoje prefiro externar minha revolta com o canal Sony, que, por algum motivo estupidamente incompreensível, resolveu exibir Boondocks dublado em espanhol. No ínício, achei que alguém havia se enganado nos aparelhos e colocado a cópia errada para rodar, afinal, um comercial de minutos antes exibira cenas do mesmo episódio dubladas em português (como comumente ocorre ). Hoje, duas semanas depois, ligo a TV de novo e lá está um novo episódio em espanhol. O que foi? O cara se enganou de novo? A sony brigou com os dubladores brasileiros? Alguém lá dentro acha que Brasil, Argentina, México e Porto Rico é tudo a mesma bosta, que todo latino fala espanhol, e que se não fala, vai passar a falar?

Bom... amanhã estarei mandando um e-mail revoltado para eles


Se você ainda não conhece o desenho e está curioso, ele passa no Canal Sony Entertainment às terças-feiras às 21:30 e quartas às 1:30 da madruga.

Abaixo, um episódio completo do seriado em inglês. A qualidade da imagem é boa.



Até breve!!!




Monday, September 03, 2007

Resenha - Tropa de Elite - 2007



Não dá mais para segurar a avalanche. O filme Tropa de Elite, longa brasileiro dirigido pelo cineasta José Padilha com o apoio de ex integrantes da polícia, que tem como base um livro "quase" homônimo, escrito à três mãos, incluindo a do renomado antropólogo Luis Eduardo Soares, já se espalhou pelo Rio de Janeiro e território nacional antes mesmo de aparecer na telona. A produção deveria estrear em novembro, mas uma versão inacabada dela caiu em mãos erradas e virou cópia pirata, circulando aos milhares pelo mercado informal, depois internet, youtube, e, segundo uma certa fonte, quarteis da Polícia Militar. Atores até então desconhecidos, como o ex-bilheteiro André Ramiro, já são abordados na rua como celebridades.






Tropa de Elite pode ser nosso próximo "Cidade de Deus" em termos de repercussão nacional e internacional, pois ostenta bons ingredientes comerciais, é excepcional pelo ponto de vista técnico, possui um enredo impecável que esmiuça com ousadia, mas também um certo senso de justiça, o universo corrupto e desamparado da polícia militar carioca, onde um oficial precisa se virar ganhando "quinhentos contos por mês", correndo risco diário de vida, caso não fature "um por fora" ou não faça acordos com os donos do morro oferecendo tréguas esporádicas em troca do "arrego". O filme traça um perfil complexo e profundo do Rio de Janeiro, começando pelas relações internas dentro da polícia, que precisa achar um "jeitinho" de funcionar ante o descaso constante do governo e a sordidez de determinados elementos de alta patente dispostos a contaminar todo um sistema supostamente destinado à proteção do cidadão, transformando-o numa rede fraudulenta e corrupta onde o policial mais honesto e bem intencionado precisa passar por cima da lei para não sucumbir. Um desses policiais é André Matias, aspirante ao oficialato e estudante de direito. Através dele, o autor estabelece elos entre a guerra do tráfico e o mundo acadêmico da elite juvenil que discute sociologia carioca a partir de Foucault e não dispensa seu baseadinho enquanto o couro come lá fora; que recorre a ONGs para concretizar projetos de consciencia social, mas nem sempre se apercebe das reais questões inerentes ao submundo que ingenuamente almeja entender e influenciar, e que está inevitavelmente além (ou aquém) de suas realidades.



Tropa de elite não é um filme de mocinhos e bandidos; não busca apontar "certos" e "errados" na índole individual dos personagens mais do que ater-se às questões e poderes envolvidos no jogo de cartas marcadas que é a vida carioca. Quase todos os personagens, do mais honesto ao mais cruel, corrupto ou tolo, define-se como um elo, uma peça que muda constantemente de posição e, conseqüentemente, de papel e índole. Cada policial, cidadão ou bandido é um ser humano com uma história de vida particular.

Além disso, mesmo percorrendo o âmago da sordidez humana em busca de seus "porquês", o roteiro consegue fugir das típicas insinuações fatalistas de filmes semelhantes, quando, subconscientemente, envolve o espectador na guerra do tráfico, afirmando nas entrelinhas, e às vezes nas linhas mesmo, que somos todos parte dela, queiramos ou não. Ou nos omitimos, ou nos corrompemos ou entramos para a "guerra".



Uma das chaves para este anti-fatalismo é a perspectiva pela qual o Rio nos é esmiuçado. Quem conta a história é Nascimento, capitão da tropa alfa do comando de operações especiais da polícia militar, o bope, considerado por alguns o mais treinado esquadrão de combate urbano existente. Nascimento é inspirado numa figura real, o ex-capitão do Bope Rodrigo Pimentel, co-autor do livro Elite da Tropa e do roteiro do longa. Como Pimentel ou qualquer policial de carreira, Nascimento foi podado, esfolado e forjado nos confins do inferno, porém, diferentemente de tantos, tornou-se mais samurai do que demônio ou ovelha. Compreende que o Rio não é uma cidade de santos, mas se recusa a abandonar um certo senso de integridade que o ajuda a conviver com o caos. Ele e sua equipe são brutais, eficientes, implacáveis e assustadores como manda a função, mas virtuosos na medida do possível e orgulhosos do papel que exercem.



Numa era em que o cinema ocupa lugar de referência mítica do corpo social, Tropa de Elite consegue ser simultaneamente crítico e inspirador, analítico e ideológico, político e científico, realisticamente cínico, brutal, mas essencialmente otimista e engajado sem ufanismos. Seus personagens principais e coadjuvantes têm vida, falam por si enquanto o filme exerce opinião própria pelos protagonistas. Em suma, pontos de vista hegemônicos circulam entre diferentes "realidades individuais" que são expostas de modo elaborado o bastante para que possamos discordar constantemente de quem conta a estória, afinal, o próprio capitão Nascimento sofre pelos menos motivos.


Wagner Moura interpreta o capitão da tropa alfa.

Não posso também deixar de mencionar o ineditismo de um filme artisticamente relevante contado pela ótica militar, policial, um autêntico marco em nosso cinema, que aos poucos abandona a antiga postura revanchista pós-ditadura e também aquela velha ótica do oprimido intrinsecamente bom. Pré-determinar se os maconheiros de faculdade estão certos ou errados ao enrolar seu baseado é menos vital do que produzir referenciais múltiplos acerca da questão, mesmo no terreno da "alta-cultura", ainda dominado pela perspectiva "liberacionista" dos intelectuais. É bom saber que alguns deles estão arregaçando mangas, misturando-se com o cidadão comum e a realidade de "quem têm o pé no chão", passando-lhes o microfone e a palavra. Nosso Brasil ainda tem muito a ouvir do Brasil e o cinema pode ser um excelente canal.


Curiosidade:



Tal qual "capitão" Nascimento, o personagem André Matias é também inspirado num agente do Bope. André Baptista é o terceiro autor de Elite da Tropa e, como Pimentel, participou do documentario Ônibus 174, também dirigido por José padilha, concedendo declarações sobre o incidente retratado. Na ocasião, era ele quem chefiava o cerco policial e as negociações com Sandro Barbosa enquanto este ameaçava reféns dentro do ônibus. Se de 2002 (ano do documentário) para cá Bapstita podia ser visto com certa antipatia pelo trágico desfecho da operação ou pelo modo inclemente como se referia ao sequestrador, sua imagem pública tenderá a mudar após "Tropa de Elite".

De um jeito ou de outro, pretendo ir ao cinema assistir à versão final e incentivo quem já viu o filme a fazer o mesmo por vários motivos. Entre eles, o fato da versão corrente sequer estar finalizada; há falhas óbvias de acabamento em alguns cortes. É provável que vejamos cenas inéditas e até um desfecho diferente na versão final. Além disso, Padilha e os demais envolvidos merecem reconhecimento pelo grande trabalho que fizeram.




Neste trecho de 10 minutos do filme Ônibus 174, pode-se ver André Baptista e Rodrigo Pimentel concedendo depoimentos


Mais curiosidades:

O ator André Ramiro (que interpreta Matias) já foi escalado para um longa ficcional de Bruno Barreto sobre o incidente do 174, que retrata o mesmo tema documentado por Padilha em 2002. Ramiro fará o próprio André Baptista, embora no filme ele deva se chamar Souza. Baptista coordenou pessoalmente o trabalho do ator.



André Ramiro reconstitui as negociações entre Baptista e Sandro Barbosa no novo filme de Barreto.

Para quem leu este texto inteiro e ainda não viu o filme, não se preocupe. Pouco revelei sobre o enredo e as surpresas reservadas por Padilha nessa versão inacabada, e, não, não comprei cópia pirata do filme. Qualquer um pode assistir Tropa de Elite na íntegra pelo
youtube ou baixando na grande rede.


Links para o orkut dos atores do filme André Ramiro, Paulo Vilela, Fabio Lago e Rafael Teixeira.




texto tembém publicado nos sites Recanto das Letras e Domínio Cultural.

Tuesday, August 28, 2007

Pérolas do youtube (1) - Chad Vader e Troops



Está aberta neste blog a sessão "Pérolas do youtube". Além dos artigos já conhecidos, e que, prometo, tornar-se-ão mais freqüentes a partir de hoje (estive um pouco ocupado nos últimos dias), "notícias do front" pretende desbravar esta nova maravilha da net atrás de raridades, cenas antológicas, e novos talentos que têm hoje uma poderosa ferramenta para mostrar seus trabalhos.

Começaremos com duas paródias de Star Wars. A primeira é uma deliciosa série onde o protagonista é um gerente de supermercado de nome Chad Vader. Trata-se do irmão caçula de Darth Vader, que infelizmente não ostenta a fama ou prestígio deste último. Imagine Darth (ou melhor, Chad) Vader com seu uniforme high-tech típico, máscara, voz e trejeitos costumeiramente sombrios, trabalhando como gerente diúrno num supermercado abarrotado de figuras estranhas, ou marcando um jantar com a bela moça da caixa- registradora.
Trabalho altamente criativo que já rendeu aos autores aparições em renomadas revistas dos Estados Unidos. Vale à pena conferir, e com legendas. O link abaixo é para a primeira de 8 partes da primeira temporada.






A segunda pérola é uma dupla paródia. Os autores fazem uma versão "star wars" da famosa série cops, substituindo os patrulheiros uniformizados por Stormtroopers do império. A qualidade do material e as interpretações são muito boas, com direito a efeitos especiais e "revelações bombásticas" sobre personagens da série original. Também legendado. Vale à pena conferir.




Até daqui a pouco.

Thursday, July 19, 2007

Erros e acertos do Brasil na Copa America 2007



Não é segredo para o maior leigo em futebol que a seleção brasileira teve um pífio começo nessa competição, algo enfatizado em meu último post. Um time mal convocado e mal escalado que, diferentemente de 2006, conseguiu encontrar uma combinação competitiva e um conjunto na hora certa. Se tudo esteve a ponto de dar errado em diversas ocasiões neste torneio por vacilos do treinador e de alguns atletas, não podemos ignorar também seus méritos. O esforço e a aplicação tática de jogadores dedicados, inteligentes, capazes de elevar suas claras limitações técnicas ao limite máximo da eficiência. Se não ostentaram o talento diferenciado das estrelas ausentes, compensaram nos fundamentos que nelas sempre faltam, mostrando que é possível também vencermos pelo conjunto, pela tática, força física, estratégia, repetição e conhecimento do adversário. Fizemos domingo com a Argentina mais ou menos o que a França fez conosco em 2006. Fomos o antídoto contra o veneno deles. E nisso entram também, e muito, os méritos de um treinador que tem muito a aprender, mas já dá sinais de uma nova visão para nosso futebol.



Não pense você que sou dos que imaginam um futuro sem Ronaldinho, Kaká ou mesmo Ronaldo. Precisamos e sempre precisaremos de estrelas. Todo time grande precisa, e Dunga não é idiota em achar que conseguirá manter uma seleção do nível desta que disputou a copa américa nas eliminatórias, seleção que só fez uma grande partida em todo o torneio, que dependeu de um penalty chutado na trave e outro com o goleiro absurdamente adiantado para seguir adiante e poder fazer sua despedida de gala.



Esta copa america me alegrou por tudo de novo que Dunga e sua mentalidade poderão trazer ao Brasil, ainda que ele não permaneça no cargo até 2010, todavia, não podemos, como na copa das confederações de 2005, qualificar um elenco pela performance de uma partida, ou correremos o risco de tomar outra vez o susto da última copa.



Triunfos como o do Internacional sobre o Barcelona ou o do Brasil B sobre a Argentina A acontecem quando se tem consciência da necessidade de conhecer seu adversário e elaborar métodos para neutralizá-lo, pensar no antídoto contra o jogo dele antes que se desenvolva o próprio jogo ofensivo. Quando se reconhece o poderio do oponente e as próprias limitações - E o Brasil, como qualquer outra seleção, sempre teve limitações, por mais estrelas que ostente em campo - minimiza-se a possibilidade de amargas surpresas pelo plano A ou B do adversário. Muitos cronistas, técnicos e torcedores insistem em avaliar futebol tendo uma mentalidade clássica como referência, onde técnica, criatividade e talento individual bastam para se ter um grande time. Jogar bem numa partida implica também em não deixar o outro jogar bem, em destruir a criatividade do outro para que se tenha um campo fértil onde fazer fluir a própria criatividade. Essa lição, freqüentemente esquecida por nossos entendidos dentro e fora das quatro linhas, é esporadicamente lembrada em momentos de crise ou quando estamos diante de um adversário reconhecidamente forte como a Argentina. Não é a toa que os vencemos 4 vezes nos cinco últimos confrontos, com direito a 3 "chocolates".


texto também publicado no blog Fanáticos por copa

Monday, July 02, 2007

Time bamba de um homem só




Já faz quase um ano que este blog nada menciona sobre o assunto futebol. Passado o fiasco de 2006, fica o legado do erro, que as vezes se mostra pior do que este erro.

Como já cansei de escrever aqui, escapamos dessa sina em 2002 ao vencer a Bélgica nas oitavas de final em uma partida que deveríamos ter perdido em função de um simples erro de escalação. Se Marcos não fizesse apenas um dos milagres que executou, ou se o árbitro validasse o gol legítimo de Wilmots no primeiro tempo, talvez Parreira se visse forçado a mudar o time todo tão logo assumisse o cargo em vez de dar continuidade à geração do penta. Seríamos hexa? Não sei. Certamente não passaríamos pela eliminatória com a facilidade com que passamos.


Hoje, 2007, testemunhamos a repetição do dilema de 90. Faz-se uma faxina nas más lembranças de 2006. Renova-se a todo custo, acreditando no falso folclore de que o futebol brasileiro possui talentos infinitos. Eterna inverdade.


Não acho absurdo ver um Brasil severamente desfalcado nessa copa América, visto que a história se repetiu nas últimas duas edições do evento. O que me aflige talvez esteja mais em certos erros de escalação e posicionamento que não precisavam existir.


Não me lembro de uma seleção brasileira desprovida de cobradores de falta e de penalti. Robinho (confesso não saber se ele bate penaltis com regularidade pelo real madrid, mas sei que isso não lhe ocorre na seleção) olhou para os coleguinhas e viu que ninguém a sua volta se destacava como exímio chutador de penalidade. Pensou em Ronaldo, Ronaldinho, Alex e Rogério Ceni e viu que só tinha ele ali. Assumiu o risco e quase se deu mal. Bateu pessimamente, mas pôde contar com a sorte.

Nossos laterais nos fazem ter saudades da dupla Cafu e Roberto Carlos em seu auge, não a de 2006, já decadente, mas a que brilhou entre 98 e 2004. Gilberto e Maicon estão longe de ostentar o poderio e a presença dos predecessores.

Wagner Love nos traz saudades do Ronaldo magro. Anderson e Elano são esforçados, correm, marcam, cooperam, mas falham no que o futebol brasileiro sempre se destacou: o refinamento com a bola nos pés, o diferencial que faz o Brasil Brasil. Disso, só resta Robinho, possivelmente único a sair por cima entre os amarelos quando este torneio terminar. Aproveitou a ausencia de estrelas para engrandecer seu brilho e presença entre os demais, relembrando-nos do que poderia ter elaborado contra a França se entrasse mais cedo em campo e gerando até elocubrações sobre um futuro como capitão da equipe. Por que não?

Para o treinador Dunga, cujo potencial e visão sempre me agradaram, mas que ainda pagará pela inexperiência no cargo, ficarão as lições, caso continue comandando o Brasil.


texto também publicado no blog Fanáticos por copa



Saturday, May 12, 2007

Sobre comparações entre Rap e Funk no Brasil

Hoje a noite, o canal GNT da net exibirá um documentário sobre o funk do Rio de janeiro, estilo musical das favelas bastante criticado pela natureza chula, simplória e apelativa das letras.

Há cerca de um mês, o mesmo assunto foi tema de um debate orkutiano num forum de que participo. Entre opiniões favoráveis e depreciativas, comentei sobre um lado da questão que me parece pertinente sempre que me deparo com certas comparações constantemente feitas entre o funk e outros ritmos nascidos das classes menos favorecidas. Segue o comentário.




Lembro-me de uma participação da negra Li na MTV, em que, perguntada por Penélope se ela, como cantora e como mulher negra, se sentia, de alguma forma, representada em manifestações como o funk carioca; Negra Li até admitiu que gostava do ritmo, mas alegou não se identificar com as letras. Noutro programa, João Gordo criticou Mr.Catra, alegando que suas letras não diziam nada, comparando-as às dos Raps dos guetos de SP, que são mais inteligentes.Aliás, é comum fazerem esta comparação entre o funk "burro" das favelas cariocas e o rap "inteligente" dos guetos paulistas. Posso até concordar em parte com algumas dessas colocações, mas acho injusto cobrar do funk, por exemplo, um comprometimento social ou uma intelectualidade na composição das letras. Confesso que não entendo de música então me perdoem se digo alguma asneira, mas a impressão que tenho é a de que o rap é essencialmente letra com ritmo, ou seja, VOCÊ DIZ ALGUMA COISA musicalmente. O Rap é político na própria essência, e o rap de SP me parece ainda bastante ligado às origens do rap essencialmente político e contestador que explodiu nos states ao fim dos anos 80 e início dos 90.



O funk do rio é uma coisa mais dançante. É ritmo com (ou sem) letra, ou seja, a letra está lá para trabalhar para a batida, que é verdadeira essencia da coisa. Pode-se fazer um funk intelectual ou político, como os daquela cantora estrangeira MIA (acho que é esse o nome), por exemplo, mas ele será sempre mais dançante e vibrante do que discursivo, racional ou reinvindicador. Cobrar isso do funk, tendo o rap ou o punk rock como parâmetros, é ignorar certas diferenças fundamentais na própria essência e vontade intrínseca desses estilos.Claro que as letras do funk poderiam ser, digamos assim, menos toscas e repetitivas do que aquelas que conhecemos. Na verdade, há grupos de funk que já se enveredam por outras vertentes (como tb já houve lá nos primordios do estilo). Uma vez ouvi uma letra de funk bem simples, mas muito engraçada, sobre um dia de cão na vida de um sujeito (acho que era isso), e ai pensei: Talvez esse seja um caminho para esse funk moderno sem ter de apelar tanto para a putaria desenfreada e as repetições sem sentido, mantendo a simplicidade e a natureza da coisa. Não sei....



A impressão que tenho é a de que o funk faz uma espécie de política às avessas. Ele não realiza reinvindicações sociais diretas e nem brada por mudanças profundas como faz o rap nacional, como também não procura estabelecer elos mais pacíficos e construtivos com o mundo dos "incluídos" como no caso do samba, do reggae e do pagode. O funk me parece uma espécie de vingança dos excluídos, que hoje nos alimentam, nos chocam e nos contagiam com o fruto do crime que cometemos por décadas. Se os rappers falam de problemas sociais, os funkeiros os mostram nus e crus no próprio fruto de sua "arte". "Gostou não, preiboy! Então toma que o filho é teu!"O funk encarna uma faceta de nossa era que não pertence apenas à favela. Não é a toa que faz tanto sucesso com a classe média, pois uma grande parte dela nada em lagos semelhantes, afinal, a miséria de nossa era não é apenas material ou cultural, é ideológica, espiritual, emocional. O funk, como tantas manifestações de nosso tempo, representa uma espécie de escárnio aos ideais modernistas de progresso. O funk não está preocupado em resolver problemas porque aprendeu a viver dentro deles e hoje enxerga nossas "soluções" como empecilhos. O funk não lida com grandes narrativas coletivas, mas lutas particulares de sobrevivência. Sequer depende da aceitação da classe média, pois sempre teve um grande mercado auto-sustentável em seu terreno de origem, e por isso sobrevive a qualquer modismo, ressurgindo das cinzas sempre. O funkeiro é um sujeito que está cagando para nossa caridade, nossos valores, nossas regras, nossa moral. Aprendeu a viver sem elas.