Tuesday, August 28, 2007

Pérolas do youtube (1) - Chad Vader e Troops



Está aberta neste blog a sessão "Pérolas do youtube". Além dos artigos já conhecidos, e que, prometo, tornar-se-ão mais freqüentes a partir de hoje (estive um pouco ocupado nos últimos dias), "notícias do front" pretende desbravar esta nova maravilha da net atrás de raridades, cenas antológicas, e novos talentos que têm hoje uma poderosa ferramenta para mostrar seus trabalhos.

Começaremos com duas paródias de Star Wars. A primeira é uma deliciosa série onde o protagonista é um gerente de supermercado de nome Chad Vader. Trata-se do irmão caçula de Darth Vader, que infelizmente não ostenta a fama ou prestígio deste último. Imagine Darth (ou melhor, Chad) Vader com seu uniforme high-tech típico, máscara, voz e trejeitos costumeiramente sombrios, trabalhando como gerente diúrno num supermercado abarrotado de figuras estranhas, ou marcando um jantar com a bela moça da caixa- registradora.
Trabalho altamente criativo que já rendeu aos autores aparições em renomadas revistas dos Estados Unidos. Vale à pena conferir, e com legendas. O link abaixo é para a primeira de 8 partes da primeira temporada.






A segunda pérola é uma dupla paródia. Os autores fazem uma versão "star wars" da famosa série cops, substituindo os patrulheiros uniformizados por Stormtroopers do império. A qualidade do material e as interpretações são muito boas, com direito a efeitos especiais e "revelações bombásticas" sobre personagens da série original. Também legendado. Vale à pena conferir.




Até daqui a pouco.

Thursday, July 19, 2007

Erros e acertos do Brasil na Copa America 2007



Não é segredo para o maior leigo em futebol que a seleção brasileira teve um pífio começo nessa competição, algo enfatizado em meu último post. Um time mal convocado e mal escalado que, diferentemente de 2006, conseguiu encontrar uma combinação competitiva e um conjunto na hora certa. Se tudo esteve a ponto de dar errado em diversas ocasiões neste torneio por vacilos do treinador e de alguns atletas, não podemos ignorar também seus méritos. O esforço e a aplicação tática de jogadores dedicados, inteligentes, capazes de elevar suas claras limitações técnicas ao limite máximo da eficiência. Se não ostentaram o talento diferenciado das estrelas ausentes, compensaram nos fundamentos que nelas sempre faltam, mostrando que é possível também vencermos pelo conjunto, pela tática, força física, estratégia, repetição e conhecimento do adversário. Fizemos domingo com a Argentina mais ou menos o que a França fez conosco em 2006. Fomos o antídoto contra o veneno deles. E nisso entram também, e muito, os méritos de um treinador que tem muito a aprender, mas já dá sinais de uma nova visão para nosso futebol.



Não pense você que sou dos que imaginam um futuro sem Ronaldinho, Kaká ou mesmo Ronaldo. Precisamos e sempre precisaremos de estrelas. Todo time grande precisa, e Dunga não é idiota em achar que conseguirá manter uma seleção do nível desta que disputou a copa américa nas eliminatórias, seleção que só fez uma grande partida em todo o torneio, que dependeu de um penalty chutado na trave e outro com o goleiro absurdamente adiantado para seguir adiante e poder fazer sua despedida de gala.



Esta copa america me alegrou por tudo de novo que Dunga e sua mentalidade poderão trazer ao Brasil, ainda que ele não permaneça no cargo até 2010, todavia, não podemos, como na copa das confederações de 2005, qualificar um elenco pela performance de uma partida, ou correremos o risco de tomar outra vez o susto da última copa.



Triunfos como o do Internacional sobre o Barcelona ou o do Brasil B sobre a Argentina A acontecem quando se tem consciência da necessidade de conhecer seu adversário e elaborar métodos para neutralizá-lo, pensar no antídoto contra o jogo dele antes que se desenvolva o próprio jogo ofensivo. Quando se reconhece o poderio do oponente e as próprias limitações - E o Brasil, como qualquer outra seleção, sempre teve limitações, por mais estrelas que ostente em campo - minimiza-se a possibilidade de amargas surpresas pelo plano A ou B do adversário. Muitos cronistas, técnicos e torcedores insistem em avaliar futebol tendo uma mentalidade clássica como referência, onde técnica, criatividade e talento individual bastam para se ter um grande time. Jogar bem numa partida implica também em não deixar o outro jogar bem, em destruir a criatividade do outro para que se tenha um campo fértil onde fazer fluir a própria criatividade. Essa lição, freqüentemente esquecida por nossos entendidos dentro e fora das quatro linhas, é esporadicamente lembrada em momentos de crise ou quando estamos diante de um adversário reconhecidamente forte como a Argentina. Não é a toa que os vencemos 4 vezes nos cinco últimos confrontos, com direito a 3 "chocolates".


texto também publicado no blog Fanáticos por copa

Monday, July 02, 2007

Time bamba de um homem só




Já faz quase um ano que este blog nada menciona sobre o assunto futebol. Passado o fiasco de 2006, fica o legado do erro, que as vezes se mostra pior do que este erro.

Como já cansei de escrever aqui, escapamos dessa sina em 2002 ao vencer a Bélgica nas oitavas de final em uma partida que deveríamos ter perdido em função de um simples erro de escalação. Se Marcos não fizesse apenas um dos milagres que executou, ou se o árbitro validasse o gol legítimo de Wilmots no primeiro tempo, talvez Parreira se visse forçado a mudar o time todo tão logo assumisse o cargo em vez de dar continuidade à geração do penta. Seríamos hexa? Não sei. Certamente não passaríamos pela eliminatória com a facilidade com que passamos.


Hoje, 2007, testemunhamos a repetição do dilema de 90. Faz-se uma faxina nas más lembranças de 2006. Renova-se a todo custo, acreditando no falso folclore de que o futebol brasileiro possui talentos infinitos. Eterna inverdade.


Não acho absurdo ver um Brasil severamente desfalcado nessa copa América, visto que a história se repetiu nas últimas duas edições do evento. O que me aflige talvez esteja mais em certos erros de escalação e posicionamento que não precisavam existir.


Não me lembro de uma seleção brasileira desprovida de cobradores de falta e de penalti. Robinho (confesso não saber se ele bate penaltis com regularidade pelo real madrid, mas sei que isso não lhe ocorre na seleção) olhou para os coleguinhas e viu que ninguém a sua volta se destacava como exímio chutador de penalidade. Pensou em Ronaldo, Ronaldinho, Alex e Rogério Ceni e viu que só tinha ele ali. Assumiu o risco e quase se deu mal. Bateu pessimamente, mas pôde contar com a sorte.

Nossos laterais nos fazem ter saudades da dupla Cafu e Roberto Carlos em seu auge, não a de 2006, já decadente, mas a que brilhou entre 98 e 2004. Gilberto e Maicon estão longe de ostentar o poderio e a presença dos predecessores.

Wagner Love nos traz saudades do Ronaldo magro. Anderson e Elano são esforçados, correm, marcam, cooperam, mas falham no que o futebol brasileiro sempre se destacou: o refinamento com a bola nos pés, o diferencial que faz o Brasil Brasil. Disso, só resta Robinho, possivelmente único a sair por cima entre os amarelos quando este torneio terminar. Aproveitou a ausencia de estrelas para engrandecer seu brilho e presença entre os demais, relembrando-nos do que poderia ter elaborado contra a França se entrasse mais cedo em campo e gerando até elocubrações sobre um futuro como capitão da equipe. Por que não?

Para o treinador Dunga, cujo potencial e visão sempre me agradaram, mas que ainda pagará pela inexperiência no cargo, ficarão as lições, caso continue comandando o Brasil.


texto também publicado no blog Fanáticos por copa



Saturday, May 12, 2007

Sobre comparações entre Rap e Funk no Brasil

Hoje a noite, o canal GNT da net exibirá um documentário sobre o funk do Rio de janeiro, estilo musical das favelas bastante criticado pela natureza chula, simplória e apelativa das letras.

Há cerca de um mês, o mesmo assunto foi tema de um debate orkutiano num forum de que participo. Entre opiniões favoráveis e depreciativas, comentei sobre um lado da questão que me parece pertinente sempre que me deparo com certas comparações constantemente feitas entre o funk e outros ritmos nascidos das classes menos favorecidas. Segue o comentário.




Lembro-me de uma participação da negra Li na MTV, em que, perguntada por Penélope se ela, como cantora e como mulher negra, se sentia, de alguma forma, representada em manifestações como o funk carioca; Negra Li até admitiu que gostava do ritmo, mas alegou não se identificar com as letras. Noutro programa, João Gordo criticou Mr.Catra, alegando que suas letras não diziam nada, comparando-as às dos Raps dos guetos de SP, que são mais inteligentes.Aliás, é comum fazerem esta comparação entre o funk "burro" das favelas cariocas e o rap "inteligente" dos guetos paulistas. Posso até concordar em parte com algumas dessas colocações, mas acho injusto cobrar do funk, por exemplo, um comprometimento social ou uma intelectualidade na composição das letras. Confesso que não entendo de música então me perdoem se digo alguma asneira, mas a impressão que tenho é a de que o rap é essencialmente letra com ritmo, ou seja, VOCÊ DIZ ALGUMA COISA musicalmente. O Rap é político na própria essência, e o rap de SP me parece ainda bastante ligado às origens do rap essencialmente político e contestador que explodiu nos states ao fim dos anos 80 e início dos 90.



O funk do rio é uma coisa mais dançante. É ritmo com (ou sem) letra, ou seja, a letra está lá para trabalhar para a batida, que é verdadeira essencia da coisa. Pode-se fazer um funk intelectual ou político, como os daquela cantora estrangeira MIA (acho que é esse o nome), por exemplo, mas ele será sempre mais dançante e vibrante do que discursivo, racional ou reinvindicador. Cobrar isso do funk, tendo o rap ou o punk rock como parâmetros, é ignorar certas diferenças fundamentais na própria essência e vontade intrínseca desses estilos.Claro que as letras do funk poderiam ser, digamos assim, menos toscas e repetitivas do que aquelas que conhecemos. Na verdade, há grupos de funk que já se enveredam por outras vertentes (como tb já houve lá nos primordios do estilo). Uma vez ouvi uma letra de funk bem simples, mas muito engraçada, sobre um dia de cão na vida de um sujeito (acho que era isso), e ai pensei: Talvez esse seja um caminho para esse funk moderno sem ter de apelar tanto para a putaria desenfreada e as repetições sem sentido, mantendo a simplicidade e a natureza da coisa. Não sei....



A impressão que tenho é a de que o funk faz uma espécie de política às avessas. Ele não realiza reinvindicações sociais diretas e nem brada por mudanças profundas como faz o rap nacional, como também não procura estabelecer elos mais pacíficos e construtivos com o mundo dos "incluídos" como no caso do samba, do reggae e do pagode. O funk me parece uma espécie de vingança dos excluídos, que hoje nos alimentam, nos chocam e nos contagiam com o fruto do crime que cometemos por décadas. Se os rappers falam de problemas sociais, os funkeiros os mostram nus e crus no próprio fruto de sua "arte". "Gostou não, preiboy! Então toma que o filho é teu!"O funk encarna uma faceta de nossa era que não pertence apenas à favela. Não é a toa que faz tanto sucesso com a classe média, pois uma grande parte dela nada em lagos semelhantes, afinal, a miséria de nossa era não é apenas material ou cultural, é ideológica, espiritual, emocional. O funk, como tantas manifestações de nosso tempo, representa uma espécie de escárnio aos ideais modernistas de progresso. O funk não está preocupado em resolver problemas porque aprendeu a viver dentro deles e hoje enxerga nossas "soluções" como empecilhos. O funk não lida com grandes narrativas coletivas, mas lutas particulares de sobrevivência. Sequer depende da aceitação da classe média, pois sempre teve um grande mercado auto-sustentável em seu terreno de origem, e por isso sobrevive a qualquer modismo, ressurgindo das cinzas sempre. O funkeiro é um sujeito que está cagando para nossa caridade, nossos valores, nossas regras, nossa moral. Aprendeu a viver sem elas.



Sunday, May 06, 2007

Xuxa politicamente correta

Navegando pelo Youtube como de costume, eis que me deparo com trechos do programa que Xuxa Meneghel fez para a TV americana em meados de 93, nos tempos em que tentava ampliar seus poderes de rainha para o lado saxônico do continente, e, conseqüentemente, para o resto do mundo.



(Alguns trechos do "Xou da Xuxa" americano (lá chamado apenas de "Xuxa") podem ser encontrados aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui)

Pouco sei sobre detalhes deste programa. Pelos videos postados, vemos que o show procurava passar um clima de aldeia global, com bandeiras de vários países tremulando em meio ao público infantil. Seu formato e características não diferiam muito daquele com o qual nos acostumamos anos antes. Personagens em forma de bicho, brincadeiras de palco, crianças em volta, paquitas. Um urso panda dividia o palco com a apresentadora, assumindo o microfone na hora de fazer explicações mais complicadas sobre as brincadeiras, já que xuxa ainda não dominava totalmente a língua inglesa.

O que mais me chamou a atenção foi a forte diversidade racial do programa, significativamente superior àquela vista no Brasil, contando, inclusive, com a presença de uma paquita negra. Sabemos, claro, não se tratar de uma diversidade espontânea, mas meticulosamente premeditada para angariar simpatia das "minorias" e preencher requisitos politicamente corretos para elaboração de material infantil em solo americano. Mesmo assim, este quadro étnico - tão diversificado quanto o quadro étnico populacional brasileiro - não deixa de nos parecer incomum, visto que não estamos tão acostumados a vê-lo refletido em nossas telinhas. A multiracialidade de programas como o "Xou da Xuxa" na versão nacional tinha tendencias caucasianas, "pró-claras", paquitas brancas e loiras, crianças negras sendo sempre exceções em volta do palco. O racismo da TV nacional revela um ideal estético pós-escravista, ainda arraigado em preceitos coloniais, um brasil "mítico" mais branco do que negro, mais claro do que escuro, mais "europa morena" do que "indo-áfrica clara". A TV e a publicidade, ao contrário do cinema, não buscam alcançar verdades, mas alimentar mitos, aspirações ainda fortes no inconsciente coletivo de nossas classes média e alta, sonhos que acabam por contaminar também a mente dos desfavorecidos, rejeitados por uma multiracialidade que se quer mais clara, de olhos mais verdes, mais azuis, com cabelos mais lisos; a multiracialidade de "caprichos", novelas, "playboys" e "coleguinhas" do Luciano Huck, uma miscigenação que pouco condiz com as reais proporções étnicas da nação.



O Brasil da TV exalta o Brasil da realidade como algo abaixo dele, algo para ser reverenciado enquanto ocupa seu devido lugar de notícia de jornal, documentário, "agora ou nunca", "o povo fala" e "se vira nos trinta". Na telinha, a representatividade estética do "povo" só ganha status de maioria quando participa como "povo", virando exceção ou "acessório" no terreno dos grandes referenciais de desejo coletivo, o que só contribui para minar a auto-estima e os sonhos daqueles que se vêem pouco refletidos no "mundo ideal da TV".

Mudanças significativas vêm ocorrendo nesse sentido durante a última década, inclusive no que diz respeito ao trabalho da "rainha dos baixinhos", mas tais progressos são pequenos perto do que ainda precisa ser elaborado. Sabemos o quanto falta para nossa diversidade "espontânea" da TV atingir níveis ao menos próximos de nossa realidade e, ironicamente, da multiracialidade fictícia que alguns canais americanos politicamente corretos propagam.

(Alguns trechos do "Xou da Xuxa" nacional podem ser encontrados aqui, aqui, aqui ou aqui)

Tuesday, April 24, 2007

A matrix americana

Como tantos jornalistas, pseudo-colunistas, experts de plantão e palpiteiros orkutianos ao longo da semana, meto também minha colher no caso Cho seng-Hui, o coreano da universidade tecnológica de Virginia, que num dia de fúria premeditado, decidiu assassinar 32 estudantes, sublimando assim aquele desejo secreto partilhado com boa parte de seus compatriotas. Dar uma bela porrada no sistema.



Vejo muita gente fazendo comparações entre este tipo de crime e os que comumente ocorrem na guerra do tráfico do Rio de Janeiro ou nas escolas de classe baixa no Brasil.
Há correlações, claro, mas, sobretudo, diferenças cruciais que jamais poderiam ser ignoradas. "Spree killing", que é como este tipo de violência é chamado na terra do tio sam, e "Serial Killing" são bem menos comuns por aqui do que por lá, onde a panela de pressão social estoura com muito mais freqüencia entre cidadãos comuns de classe média, então transformados em criminosos do dia para a noite. A violência das favelas daqui tem maior relação com os problemas de gangues dos guetos de lá ou a violencia freqüente das escolas pobres americanas onde alunos recebem um péssimo serviço e se vêem fortemente próximos à criminalidade desde os primeiros anos de vida.

Casos como Virginia Tech e Columbine possuem elementos únicos em suas origens, presentes em qualquer parte do mundo, porém mais visíveis em certos países ricos do ocidente, e ganhando destaque especial nos Estados Unidos da América.



Especialistas de cada canto continuam emitindo opiniões a respeito, algumas bem razoáveis. Fala-se da facilidade em se adquirir armas de fogo e do fascínio que elas exercem sobre os norte-americanos. Fala-se da "falta de toque" e de "calor humano" nos contatos diários entre seguidores de culturas protestantes. Discute-se o estado mental dos criminosos, o consumo de celebridades instantâneas, a glamurização, espetacularização ou banalização da violência, sexualidade reprimida, videogames impróprios, filmes violentos, música "degenerada", etc. Uma psicóloga da PUC chamada Sandra Dias chegou a destacar durante o Bom Dia Brasil de terca-feira na Rede Globo a relevância do fator consumismo que hoje assume a condição de sujeito no imaginário estadunidense, transformando, sob tal ótica, o crime de Cho Seng-Hui num ato de heroísmo, mesmo que "negativo". Dito isso, o entrevistador da emissora corta este depoimento para ouvir o testemunho de um brasileiro que esteve no prédio da universidade durante o tiroteio. Retoma a entrevista em seguida, levando Sandra a falar sobre o fácil acesso à armas de fogo e então encerra o assunto, impossibilitando-a de completar aquele pensamento anterior. Na quarta-feira, todo o conteúdo da entrevista foi cortado do programa no site Globo.com, como se ela sequer tivesse começado.




Edições à parte, penso que muitas dessas opiniões podem nos ajudar a elucidar causas pertinentes enquanto outras só conseguem confundir ao imbuir culpa em conseqüências, sintomas, como se neles estivesse a origem da doença. Seria como culpar uma letra do Marilyn Manson pelo suicídio do fã. Ambos, letra e suicídio, são elementos posteriores de um mesmo sistema fenomenológico e possuem raízes comuns. Raízes nascidas justamente na "caretice" de seus "santos" detratores.

Longe de mim tentar desvendar este mistério por inteiro, mas creio que uma peça importante do quebra-cabeças seja justamente a relação fechada que um cidadão americano comum (especialmente no que diz respeito às tradições culturais difundidas pelos fundadores do país e hoje presentes, em maior ou menor grau, nas demais "americas" que com seus descendentes interage) desfruta com aquilo que considera "as regras do jogo da vida".

Cho Seng-Hui realizou o desejo secreto da maioria dos compatriotas. Ele "deu um soco", "um tiro" no sistema fechado de "como as coisas são e devem ser" na América. Desde a escola, um americano comum de classe média está inserido numa imensa rede de divisões e sub-divisões analíticas e deterministas que o classificarão e "ranquearão" perante os demais. Seus teste de Q.I., notas no ano letivo, deslizes comportamentais, atividades extra-curriculares, "raça", sexo, aparência, roupas, condição social, etc, servirão para enquadrá-lo no sistema acadêmico e no sistema social, sendo que ambos possuem regras próprias, mas fortemente inteligadas, seguindo princípios competitivos semelhantes. Seu "nível de popularidade" determinará onde poderá se sentar no refeitório, com que alunos pode ou não interagir, a que festas pode ir. Se por acaso o "nerd invisível" da classe consegue "dar uns amassos" na líder de torcida que namorava o capitão do time de futebol, ele é automaticamente promovido e realocado, muda de mesa, de hábitos, de amigos, de status na vida. Se Johnattan Mason está fumando maconha e é flagrado, precisa passar uns meses na classe dos desajustados para se reabilitar e voltar à parte sadia da máquina, "salsichas defeituosas classe C para procedimento FGF". O deslize, claro, permanecerá em seu currículo para futuras etapas de avaliação, classificação e ranqueamento, quer na escola, na universidade, no emprego ou nas relações sociais, podendo minar cumulativamente sua marcha rumo ao shangri-lá do SUCESSO PESSOAL. Cada sistema complementa o anterior, para a frente, para os lados, para cima e para baixo, girando sempre em torno de imperativos pragmáticos, analíticos e consumistas. Cada etapa da existência tem suas regras e objetivos racionalmente inteligíveis, "dar uma de rebelde pode ser tolerável e até bonito na adolescência, mas é inadmissível para um homem maduro", "se come a mina de 17, vai preso como pedófilo pervertido; se espera um mês até ela fazer 18, é um sujeito sadio, normal e cumpridor dos deveres". O americano aprende a pensar a vida dessa forma, como um grande sistema racional de causa e efeito que opera em freqüência única de caráter linear, reducionista e absurdamente simplório, mesmo quando comparado aos sistemas reducionistas de nações ocidentais que também sofrem desse mal. A Matrix americana só consegue pensar o indivíduo dentro ou fora, e o indivíduo só pode se pensar dentro ou fora dessa Matrix. Não há fuga sem rompimento. Não há "jeitinho brasileiro", saídas criativas que o permitam fugir e estar simultaneamente. Não há sentimento de infinitude ou subversão sem confronto.




Se não consegue cumprir as metas sociais estabelecidas, se não consegue ganhar destaque em seu nicho ou em qualquer outro, se não é capaz de triunfar dentro daqueles principios consumistas americanamente aceitos como sinônimos de sucesso, o sujeito ganha status de "perdedor', do individuo que precisa existir para endossar os méritos de quem "chegou lá", "the people who made it", e se esse "perdedor" não encontra uma forma de se realizar dentro dos papéis que seu status lhe oferece, se não é capaz de sobreviver como tal ou ao menos criar alternativas usando as ferramentas disponíveis, torna-se ele uma espécie de bomba-relógio que pode implodir em suicídio ou explodir em transtornos psíquicos capazes de culminar nos fenômenos de que falamos: serial Killing, spree Killing ou simplesmente "um dia de fúria a lá Michael Douglas".



Não é a toa que quando têm uma chance para perder a linha - geralmente em épocas da vida e lugares premeditados, como no caso dos springbreaks universitários - os americanos vão fundo, perdem a linha mesmo, e da maneira mais desengonçada possível, já que não estão acostumados à constantes permissividades. Porra louquice fora de época e lugar tem de ser feita longe da polícia, senão rola cadeia da braba por perturbação da ordem. Muitos heróis modernos do cinema americano não hesitam em mostrar certo repúdio àquela ordem social por que devem lutar, fazendo tudo do seu jeito, desferindo socos e tiros como e quando querem, dando porrada no sistema a torto e a direito, rindo da cara dos burocratas, dos oficiais, dos comissários de polícia inaptos em controlá-los, dos carangos de milhões de dólares que pegam emprestado e depois destroem, justificando-se com um pedido de desculpas e um sorriso maroto. Esse é o escapismo do cidadão americano comum que vive envolto em regulamentos e manuais de instruções, mesmo onde eles não deveriam existir. Até o nerd Lewis Skolnick precisou dar um soco no líder Alfa-Beta para deixar de ser LOSER. George McFly só largou a vida de bunda-mole quando socou Biff - representante-mor da ordem social do colégio - bem no meio das fuças.
Rambo, Cobra, John McLaine, os personagens do Schwarzenneger... eles não apenas simbolizam o belicismo conquistador impassível do povo americano, mas também são a vontade do indivíduo de se rebelar contra a máquina. Seus heróis e seus criminosos pervertidos possuem desejos em comum, e não é a toa que estão ficando cada vez mais parecidos na crueza do caráter, diferenciando-se meramente na eficiencia com que matam (vide Blade, Bad Boys II e, pasmem, Matrix). Ambos adorariam destruir a casa branca e o world trade center juntos. Seriados como CSI mostram os mocinhos investigadores quase se regozijando enquanto conversam sobre os detalhes morbidos de cada crime. São o mesmo tipo de gente, mocinhos e bandidos. Psicopatas. Não foi a toa que um ator da série emitiu o seguinte comentário: "Os caras maus fazem o que os caras bons sonham." Caras bons? Não seriam psicopatas enrustidos?




Não digo que esse tipo de problema inexista no Brasil, mas aqui as frestas para respirar são infinitas e a criatividade abunda em cada canto. Fugir dos manuais é inevitável. Seguí-los a risca é complicado. Se nosso jeitinho brasileiro gera mil problemas novos a cada solução apresentada, também nos propicia mil soluções ante cada problema aparentemente intransponível, mesmo que os abismos sociais sejam mostruosos, pois se para cima há uma imensa cerca de arame farpado, para os lados há terreno fértil onde a criatividade consegue fluir e gerar saídas alternativas, novas "freqüências existenciais", felicidade e vitalidade onde isso não deveria existir.

Nosso caldeirão de heranças culturais aliado a rituais como o carnaval permitem que interajamos com a vida de modo mais maleável, menos determinista, sem esquemas e verdades prontas para cada etapa da vida. No Brasil das injustiças sociais acachapantes, do jeitinho, do "deixa a vida me levar", pode-se sair e ficar na Matrix simultaneamente com bem mais facilidade, já que ela funciona pela sobreposição de "freqüências existenciais múltiplas", "mundos paralelos" que se fundem num mesmo habitat e num mesmo sujeito cultural, confundindo nossos desejos conscientes de linearidade racionalista com uma complexidade social infinita quase impossível de diagnosticar. Muitos brasileiros odeiam que certas leis jurídicas não "colem" na vida prática, que "não pisar na grama" não signifique "não pisar na grama", que chegar as quatro horas da tarde num lugar pode significar quatro e dez, quatro e vinte, ou quatro horas mesmo, que nossa liberdade de expressão ostente "poréns" incomodos e incompreensíveis pertencentes ao terreno do inconsciente coletivo em determinadas situações, e que miseráveis consigam ser felizes na favela em meio à guerra do tráfico e falta de oportunidade enquanto ricos com tudo na mão vivem se drogando e tomando anti-depressivos. Até onde é bom ou ruim viver numa sociedade de regras invisíveis, multilaterais e mutantes, não sei. Se os americanos têm seus spree killers, temos aqui nosso conformismo endêmico. Se a unilateralidade deles implica em altíssimos preços a pagar, nosso "jeitinho" também não vem de graça.

Ressalto outra vez que não pretendo, através desse texto, estabelecer um diagnóstico para o caso Virginia Tech, mas apenas apontar fatores que certamente exercem peso significativo nos quadros sociais geradores desse tipo de crime. Tampouco alego que a criatividade não se faça presente no histórico cultural americano. Seria de absurda leviandade afirmar isto, até porque a construção dos Estados Unidos também passa pela absorção de influências que não as de seus fundadores, tendo decerto as de origem africana e latina exercido um papel vital na geração de trilhas que alimentem impulsos criativos. Todavia, não é leviano dizer que hoje os Estados Unidos respiram um ambiente cultural onde a criatividade recebe pouquíssimo incentivo para se desenvolver livre no espírito das pessoas. Se por acaso ela consegue resistir à essa vontade imensa de castrá-la e "sai do armário", tende a emergir maculada, ferida, contaminada pelo instinto americano de morte, refletindo os recalques de uma nação repressora, procurando pelo negativo, pelo agressivo, pela violência, competitividade e perversão, sendo essencialmente crítica e pessimista, mesmo quando se pensa positiva, pois lá a criatividade positivizada é exceção. Aqui é a regra.


Wednesday, April 18, 2007

A "ressurreição" de Doris Giesse

Quando fui notificado do acidente envolvendo a "ex-estrela de TV" Doris Giesse, ainda sem saber se ela estava bem ou não, preocupei-me com a dita cuja como todo mundo e também compreendi o que levaria uma mulher a arriscar a própria vida em prol de um gatinho de estimação, afinal, tenho três em casa e sei bem o que é se apegar a um animal tão "fofo".

Felizmente, ela não sofreu ferimentos sérios, e fico pensando se, sob um certo ângulo, o episódio não teria sido benéfico à carreira da ex-estrela, que já admitiu em entrevista seu desejo de voltar à TV.

Ironicamente (não sou desses que acreditam que ela teria tentado se matar ou pulado propositadamente imaginando que não se machucaria de modo sério), a "quase tragédia" poderá lhe servir de catapulta para um retorno à condição de celebridade. Bem ou mal, Doris foi redescoberta pela mídia e seus recentes 15 minutos de (re) fama poderão - Quem sabe? - render boas capas de revista, participações na TV e, claro, "din din" em caixa.

Esperemos, no entanto, que outras ex-celebridades não vejam nisso um atalho para ressuscitar suas carreiras.