Friday, December 28, 2007

Pérolas do youtube - Operação Búfalo



Um dos vídeos mais assistidos do youtube nos últimos dias, e merecidamente, se inicia como uma reles e rotineira caçada nas savanas africanas onde leões (ou leoas, não sei) partem para cima de uma manada de búfalos para apanhar um filhotinho, que é lançado indefeso na água pelos felinos e atacado ferozmente enquanto estes procuram imobilizá-lo, enfraquecê-lo e matá-lo num processo doloroso e agonizante. Até aí, nada muito distante dos National Geographics que se ve por aí, mas os leões e os pesquisadores não contavam com duas surpreendentes reviravoltas na história: a súbita aparição de um novo caçador e... bom... assista e testemunhe o esplendor da natureza.


Saturday, December 22, 2007

Video-bomba: O dia em que a Globo encarou a CBF


Eis uma parceria forte e quase indissolúvel. Globo e CBF há muito caminham de mãos dadas. A emissora mantém a boa imagem da federação que, em contrapartida, facilita exclusividades de contrato e uma série de outros privilégios em relação a outros canais, e raros são os momentos em que essa aliança é quebrada ou arranhada, coisa que só ocorre, e de modo fugaz, quando o vexame da seleção atinge patamares clamorosos e a "rede líder de audiência" se vê obrigada a assumir posições junto à opinião pública para manter sua aura de credibilidade. Na esmagadora maioria dos casos, tal postura se resume a frívolos brados de indignação e pseudo-propostas de melhoria que só perduram na boca de seus porta-vozes até a maré revolta baixar. Depois disso, a festa volta, o ôba-ôba também e a aliança "Globo-Ricardo Teixeira" se refaz como se nada tivesse acontecido. Em 2006, após o fiasco da copa, foi assim, como noutras ocasiões ao longo da história da parceria, mas houve um período em que uma grande ruptura ameaçou eclodir, revelando, nos breves ensaios que fez antes de ser suprimida, a extensão do lixo escondido sob o tapete.

Era agosto de 2001, fase final das eliminatórias da copa. Nosso selecionado amargava um quarto lugar e grandes possibilidades de, pela primeira vez, ausentar-se do maior evento esportivo do planeta. O futebol brasileiro tinha crises de credibilidade e era investigado por uma CPI. A Rede Globo resolveu "agir" e dedicou uma edição inteira de seu Globo Reporter para denunciar as falcatruas de Ricardo Teixeira na CBF recém-descobertas pela CPI. Foi um choque. Podíamos saber que havia algo podre no reino da Dinamarca, mas não imaginávamos a extensão. O escândalo recém-publicado anunciava ares de coisa grande e cabeluda, uma possível guerra entre as duas entidades. Por algum motivo, entretanto, o tal conflito "anunciado" foi interrompido, e a Globo nunca mais tocou no assunto. A seleção ganhou sua vaga, a copa, e de lá para cá poucos lembram deste importantíssimo Globo Reporter que poderia iniciar um processo de exposição e reformulação de bastidores importantíssimo em nosso cenário futebolístico. A fita do programa permaneceu intocada e esquecida na sede da emissora até que alguém, de algum modo, a extraiu de lá e permitiu que Jorge Kajuru a divulgasse em seu site e em seu programa de TV que, infelizmente, não tem projeção nacional.

Você, amigo internauta, terá a chance de ver muito do que a CPI do futebol descobriu sobre Ricardo Teixeira e a CBF. Assista ao programa inteiro e tire suas próprias conclusões sobre a natureza e a extensão do que pode estar escondido nos bastidores dessa máquina de fazer dinheiro chamada Seleção Brasileira. E s
e a coisa andava assim em 2001, como estará agora?



Parabéns a Jorge Kajuru, responsável pela obtenção e divulgação do material


O vídeo está dividido em quatro partes e pode ser visto diretamente pelo youtube ou pelo site do jornalista.

Abaixo, os links diretos para cada uma dessas partes, sendo que a terceira e a quarta fornecem dados mais específicos sobre o que a CPI descobrira até então.

Parte 1
Parte 4


E você? Ainda é a favor de sediarmos a Copa de 2014?


Saturday, December 08, 2007

Leonidas X Beowulf - Parte II - Quem é quem, afinal?



Não tenho costume de retomar o tema da última postagem, neste caso específico, a da semana passada, quando comparei, baseando-me em trailers, as posturas de Leonidas de 300 e Beowulf de Beowulf.

Não fique pensando que acabei de ver o filme e pretendo retificar meus comentários. É até possível que isso ocorra (embora pouco provável), mas demorará para eu assistir à produção, visto que não tenho ido muito ao cine e o DVD só sai em alguns meses. Minha razão de ressuscitar este assunto não é outra senão apontar mais um elo entre estes dois personagens, talvez coincidental, porém muito interessante. Pouca gente sabe, mas existe outro filme sobre a lenda de Beowulf, elaborado há dois anos na Islândia, chamado Beowulf & Grendel, que não ostenta um terço do orçamento de seu irmão hollywoodiano, conta com cenários belíssimos, nenhum efeito especial (imagino) e atores pouco conhecidos do cinemão estadunidense, à exceção de um. Adivinhe quem? Sim! Leonidas, ou melhor, Gehard Butler, que, um ano antes de protagonizar 300, foi Beowulf nesta modesta produção euro-canadense. Seu Beowulf, aliás, parece bem mais controlado e distante de seu Leônidas do que esta versão nova do mito sueco (é.. descobri que é sueco) encarnada por Ray Winstone, pelo menos considerando-se os traillers.

Pois é. Descobrimos o grande segredo que une os dois mitos. Leônidas foi Beowulf em 2005. Beowulf quer ser Leônidas em 2007. Lendas distantes unidas pela magia da película.


Berros e músculos à parte, ainda essa semana (hoje é domingo), prometo um "post bomba". Não perca!

Friday, November 30, 2007

Leonidas X Beowulf - Quem berra mais?


Depois ficam perguntando por que costumo passar longe de certas superproduções hollywoodianas de sucesso. Como se não bastasse a modinha "pós-senhor dos anéis e gladiador" de reproduzir infinitamente os mesmos dilemas, personagens, seqüências, situações, adicionando técnicas pseudo-inovadoras para criar uma impressão de upgrade de um mesmo filme que, pelo sucesso original, merece ser repetido "ad eternum" em novas versões à públicos indiferentes ao fenômeno, compulsivos, ávidos em "sentir aquilo de novo", reviver a batalha dos campos de Pellenor quantas vezes for imaginável, em formas, ângulos, "épocas" diferentes, desde que evoquem o mesmo conjunto mítico de espadas, flechas, guerreiros sarados e destemidos, mulheres exuberantes e muito sangue, não bastassem estas reproduções preguiçosas e vazias que mais parecem videogames onde nossos arquétipos cognitivos estão sendo "jogados" pelos personagens da tela, a "sétima arte hollywoodiana" deseja ir além, e de modo mais bizonho. Vem aí a nova versão "Gladiador-Senhor dos Anéis-Tróia-Alexandre-Cruzada-300" do mercado.


O nome é Beowulf, e pouco importa em que lenda ou mito nórdico, grego ou germânico esse filme se baseie. O mito do enredo é irrelevante quando a questão maior está em rebatizá-lo para novos padrões high tech, corporocratas, republicanos, repetiticionistas, insosos de frases prontas e personagens unidimensionais que sonham em tornar a complexidade daquilo que um dia chamamos de mundo real tão simples, manipulável e desprovida de "periféricos complicados, insolúveis e indecifráveis" quanto um The Sims II ou Ultima Online (na verdade, bem pior). Antes de criticar este filme como obra, até porque por mais que um filme pareça horroroso, é sempre injusto criticá-lo antes de assistí-lo, prefiro me ater no produto, àquilo que as redes de associações evocadas pelos trailers me suscitam. Ora essa! Mesmo o espectador mais "blockbusterizado" da existência não consegue evitar uma pontinha de riso ao ouvir o protagonista Beowulf mimetizando o Role Model "herói macho" da moda estadunidense em seus berros "pit bichais". Aguentar os ataques histéricos de Leônidas em 300 já "dava no saco". Encarar um clone daquele troço é o fim do mundo! De que adianta pesquisarem um calhamaço de referências mitológicas, históricas, indumentária, arquitetura, costumes, se, no fim, tudo se reduz a um "This is Sparta"? E não é só! O filme faz claras alusões a personagens e situações de "Senhor dos Anéis" e seus filhos bastardos, trazendo de volta a "sempre igual" Angelina Jolie, mulher fatal de uma cara só, de um personagem só, de uma boca só (salvo raras exceções, e esta provavelmente não é uma delas). A mensagem subliminar "não tão subliminar" do produto é clara: "Se você gosta deste joguinho conhecido, compre a versão 2008! Tem Leônidas e Angelina com novas habilidades, "skins", apetrechos e opções, tem versão aprimorada do Gollum e outros monstrinhos digitais, animação computadorizada, guerra na chuva em câmera lenta com flechas voando, grandes exércitos, brados épicos despropozitados e tudo aquilo que você aprendeu a curtir repetidamente. Pelos trailers, Beowulf mais parece um FIFA 2008 dos épicos, ou pior, um joguinho concorrente tentando imitar a imitação que a "bola da vez" anterior fez da "bola da vez" anterior. Chega desses épicos high tech de fachada! Outro Leônidas já é sacanagem!!!

Na foto acima, Leonidas (versão oxigenada) e Gimli, digo... Beowulf e Wiglaf

De positivo... certos nomes do elenco, talvez chamados para conceder auras de legitimidade, qualidade e talento a algo tão descaradamente imitativo. John Malcovich, Anthony Hopkins e o diretor Robert Zemeckis têm um currículo invejável nas costas, mas também tinham Ridley Scott e Oliver Stone antes de Cruzada e Alexandre (tudo bem que com alguns tropeços pelo caminho). Não lembro de um longa de Zemeckis que tenha me desagradado. Curti Náufrago, Forrest Gump, a franquia "De Volta Para o Futuro" e outros filmes do sujeito. Seria esse o primeiro abacaxi em que ele resolveu se meter? Bom... esperemos para ver!

Para quem tem saudades do Leônidas, uma palhinha de seu clone Beowulf.



"Tonight, we die in Hell!" Quer dizer... "We will be different!", "This is SPARTAAAAAA!", porra, errei de novo! "I AM BEOWULF!!"

E se você acha que não gostei de Senhor dos Anéis, enganou-se, pois, apesar de visivelmente comercial e hollywoodianamente engajado, este filme funcionou mais como um referencial de modismos do que como um seguidor decerebrado, como foram seus filhos bastardos Tróia, Alexandre, Cruzada, 300 (derivado da obra de Frank miller), e, muito provavelmente, Beowulf. "Lord of the Rings" pode ter lá seus defeitos, mas dá chocolate em todos estes filmes juntos.


Para fechar, uma prévia do confronto final entre os berros de Leonidas e Beowulf. Quem levará a melhor?



Friday, November 23, 2007

Filme oficial da copa de 1986

Olá.

Se você gosta de futebol, já deve ter visto ou ouvido falar de
Todos os Corações do Mundo, documentário oficial da FIFA sobre a copa de 1994 que ilustra o retrospecto das melhores seleções do torneio com imagens de bastidores, entrevistas, tomadas "em close" dos jogadores e de tudo mais sobre o espetáculo.



Vendo este filme, muito bom por sinal, muitos se perguntam se não haveria outras produções oficiais de copas do mundo. "Cadê o filme de 2002?", "E o de 2006?","Por que não fizeram?", "Se fizeram, por que não passou no cinema e não tem em locadora?". Eu, pelo menos, remoí essa dúvida por um tempo. Quem tem SPORTV em casa há mais de dois anos sabe que estes filmes existem para cada mundial desde 58 e não são fáceis de achar na rede. Talvez o motivo de boa parte deles não ocuparem as prateleiras das locadoras seja um misto entre desinteresse das distribuidoras e o fato deles não serem tão bons quanto a versão de 94. Pessoalmente, não posso emitir opinão, porque, além deste filme oficial, só vi outros dois até agora. A constatação parte exclusivamente de comentários que andei pesquisando.

Aos curiosos, um achado no youtube: O Filme oficial da copa de 1986, intitulado "HERO", com narração de Michael Caine. Não chega perto da obra-prima de 94, e a qualidade das imagens do aquivo poderia ser um pouco melhor, mas vale para matar saudade de alguns lances e ídolos. O vídeo abaixo constitui a primeira de cinco partes que compõem o filme. Todas devidamente postadas. Os links para as partes 2, 3, 4 e 5, você encontra respectivamente
aqui, aqui, aqui e aqui. Infelizmente, não há legendas em português.



Nota póstuma do blogueiro (5/5/2008): Ao recém chegado a esta matéria do blog, fica óbvio que o referido filme foi retirado do ar. Todavia, outros dois filmes oficiais de copa do mundo, respectivamente os de 1982 e 1990, já se encontam disponíveis no youtube. Para acessá-los, clique nos links abaixo. Cada um deles o levará a uma matéria como esta contendo os links para todas as partes do filme.


Acessar filme oficial da copa de 1982

Acessar filme oficial da copa de 1990




Wednesday, November 14, 2007

Quem é esse tal "Evangelista Ignácio"????

Perdão, pessoal! Continuo aprisionado por um relatório de faculdade que já tem 50 páginas e nenhuma previsão para ficar pronto, quero dizer, talvez no fim do mês, dependendo das circunstâncias.



Para meus poucos e sempre amados leitores, aqui vão duas pérolas da rede. Primeiro, o bloco inicial da entrevista de ontem do programa do . Um tal de Evangelista Ignácio de Oliveira, auto-intitulado "verdadeiro inventor da asa-delta" e tema de um documentário recentemente lançado, não aparenta bater bem da cachola nessa entrevista
aqui, que mais parece papo de maluco. O cara não fala coisa com coisa e o Jô, que começa meio perdido tentando achar um gancho para seguir bem no papo, vai aos poucos tirando um sarro com a do cara e entrando na doideira dele, para delírio da platéia.Uma das entrevistas mais bizarras que já vi no programa. Pena que só tem o primeiro bloco, mas vale à pena.


A segunda pérola, bem... Chuck Norris enunciando as 10 maiores verdades sobre Chuck Norris.



Uma gravação mais extensa desse vídeo, você acha aqui. Não coloquei por causa da qualidade, bem inferior à do vídeo acima


Friday, October 26, 2007

Um aviso e uma "pérola"

Quem acompanha este blog sabe que, de setembro para cá, as atualizações voltaram a ser constantes, média de um ou dois posts por semana, o que aumentou bastante o número de visitas.
Infelizmente, nem sempre meu tempo livre permite redigir textos para este site, e, pelo menos até a primeira semana de novembro, estarei ocupado com duas atividades, sendo uma delas ajudar na montagem de um site para escritores: uma pequena revista literária que, em breve, será anunciada aqui.

O "Notícias do front" não está em recesso até o próximo mês. Só deixo este aviso aqui para que se, caso nenhum post novo apareça nos próximos sete dias, ninguém pense que a página foi abandonada.

Sei também que muitos de vocês visitantes curtem a Série Seinfeld, não mais em produção, e, pelo menos para mim, o melhor Sitcom na história da TV americana. Vejam se conseguem lembrar um episódio em que Elaine Benes (Julia Lewis Dreyfuss) discute com o pai de George Constanza e os dois partem para a porrada. Na cena em questão, a ex-namorada de Seinfeld mostra-se séria, altiva, sarcástica e pedante como de costume, insultando George e depois o pai, que então perde as estribeiras, parte para a briga e apanha da moça. Tendo assistido à seqüência, fica difícil imaginar o que realmente aconteceu durante as filmagens.

Confira:




Sunday, October 21, 2007

Dumbledore, a bicha velha



Agora é oficial. Aldus Dumbledore é gay. A ala conservadora do conselho de Hogwards está em pânico e os tablóides ingleses não param de esmiuçar a face escusa da biografia do bruxo, recém levada à público. A bomba promete sacudir o colégio de Harry Potter, conhecido por seu conservadorismo e tradições invioláveis. Boatos sobre prática de pedofilia na instituição também vêm sendo investigados. Para quem acha que estou brincando, basta clicar aqui.


Situações como essa me fazem lembrar de outra superprodução altamente polêmica.






Wednesday, October 17, 2007

DNA racista ???

Pelo menos é a opinião do prêmio nobel em medicina e pioneiro no trabalho de deciframento do genoma humano James Watson, expressa recentemente ao jornal inglês "Sunday Times". Segundo o cientista, negros são sim menos inteligentes do que brancos.

A comunidade científica está chocada e acusa Watson de se deixar levar por preconceitos pessoais e de não ter provas concretas para tal afirmação. Há grandes espectativas para a primeira de uma série de palestras suas a serem dadas na Grã Bretanha a partir de quinta-feira. A declaração volta a acender uma polêmica que havia sido reforçada 13 anos antes pelo livro "The Bell curve" do analista político americano Charles Murray e já se mostrava extinta dos debates científicos.

Não entendo xongas de genética (salvo aquela besteira do terceiro ano). O que minha experiência pessoal mostra é que negros podem ser tão inteligentes ou estúpidos ou medianos quanto brancos, índios ou amarelos. Quantos brancos inteligentes você conhece? Muitos, imagino. E burros? Também, certo? E instáveis emocionalmente? E estáveis? Não sei... não opino enfaticamente em assunto do qual não entendo, mas por que tanta gente insiste em achar que os negros não podem ser tão variantes entre si quanto são os brancos? Bom... melhor deixar que os geneticistas resolvam esse pepino. Quem quiser saber detalhes sobre a polêmica, basta clicar aqui.


Friday, October 12, 2007

Estranhas teorias de Quentin Tarantino

Quem conhece a carreira do sujeito, sabe que uma de suas marcas registradas é fazer elocubrações inusitadas sobre assuntos mundanos. Aí vão três teorias antológicas de Quentin Tarantino (em inglês mesmo).

1 - Teoria do "Like a Virgin"


Contrariando o que se pensa, a letra de Madonna não é sobre uma garota sensível que conhece o cara certo, mas uma metáfora para "paus grandes", a história de uma safada mega ativa sexualmente que se depara com um pinto colossal, sentindo-se re-desvirginada.

obs: Atenção para o diálogo seguinte sobre gorgetas.


2 - Teoria de "Top Gun"


Top Gun é um dos roteiros mais geniais já escritos, uma metáfora sobre a batalha do homem contra sua homossexualidade. Preste atenção nas descrições de Tarantino sobre detalhes do filme e seus respectivos significados. Muito hilário. "You can ride my tail!" "Sword fight!"


3 - Teoria do Super-Homem


Talvez a mais popular. Para Superman, Clark Kent não é só um disfarce, mas uma crítica à raça humana.


Saturday, October 06, 2007

Ovelhas por opção

A vida às vezes ensina, e de diversas formas. Se conseguimos decifrar entrelinhas em eventos banais, podemos aprender rápido e sem dor, sorvendo cada ensinamento em doses homeopáticas mas constantes. Há casos, porém, em que a vida nos passa uma rasteira, nos dá uma porrada, e aprendemos da pior forma, pagando alto por uma lição valiosa. O ruim é que tem gente que nem assim consegue aprender e passa toda uma existência apanhando de graça.

Mas mulher de malandro existe em todo lugar, não é?

Bom... não sei se Esopo ou algum contemporâneo dele escreveu algo parecido. Se sim, fez melhor do que eu, porque não tenho muita manha com estorias desse tipo, mas lá vai nosso "momento auto-ajuda" da semana.




Era uma vez um cão, que não era forte como o lobo, mas tinha com ele uma relação estável e um certo senso de esperteza.

Tinha também uma amiga ovelha, inteligente mas muito ingênua, uma ovelha que sonhava em ser grande, em sair de seu rebanho; que vivia de sonhos e fantasias.

Um belo dia, ela conheceu o lobo, que lhe prometeu lindos mundos longe daquelas terras, um futuro belo e brilhante, e a ovelha começou a planejar este futuro, sonhando com as promessas que o lobo fazia.

Mas o cão gostava da ovelha e conhecia as artimanhas do lobo, que só queria devorá-la.

Assim, na intenção de ajudar, o cão alertou sua amiga ovelha, contou estórias de outras ovelhas igualmente enganadas pelo lobo. A ovelha, no entanto, em vez seguir os conselhos do cão, foi aflita contar ao lobo tudo o que ele dissera.

Conhecedor das fraquezas da ovelha, esperto e vivido, o lobo não perdeu sua compostura. Sabia que a coitada só procurava palavras de conforto para restaurar suas ilusões, e aquela insegurança logo foi tranqüilizada quando o lobo a convenceu de que o cão mentia por inveja dele.

No fim, a ovelha acreditou, passou a odiar o cão e o lobo deu nele uma surra.


Moral da estória: Às vezes é melhor deixar um babaca se fuder do que desfazer suas ilusões, por mais amigo seu que ele seja.



Se você é uma ovelha ou tem uma amiga ovelha, pense nisso.





Friday, September 28, 2007

Avante, guerreiras da bola!!!



Há trinta anos, quando Pelé aceitou jogar futebol nos Estados Unidos pelo extinto New York Cosmos, a empreitada tinha como objetivo popularizar este esporte por lá. Não deu certo. Pelo menos não para os homens. Às mulheres, foi sucesso total. Do fim da década "disco" até hoje, nosso "soccer" virou a opção esportiva "light" popular do "sexo frágil" em solo yankee. Se na America Latina e boa parte da Europa, futebol foi esporte bruto "para macho" até pouco tempo, nos lados do Tio sam era "jogo de mulherzinha". "Homem que era homem praticava baseball, futebol americano, hóquei ou basquete."

Tal popularidade precoce tornou os Estados Unidos uma espécie de potência mundial precursora. Se, com os marmanjos, passaram quarenta anos sem ir a uma copa, com as moçoilas fulguraram sempre entre os três primeiros, ostentando dois títulos em quatro edições disputadas. Nomes como Michelle Akers, Mia Hamm e Shannon McMillan logo alçariam condição de referência global.





Abaixo do equador, o clima era outro. Mulheres jogando bola tachadas de lésbicas ou coisa pior. Falta de incentivo à formação e profissionalização de atletas tornaram a América do Sul terceiro mundo no futebol de saias, e a coisa pouco mudou desde então, exceto por um detalhe.

Um detalhe chamado seleção brasileira.


Ocorreu devagar. Lampejos de uma geração prodigiosa e guerreira que, desde sempre, lutou contra tudo e contra todos para não perecer. Marta, Formiga, Pretinha... surgiram como curiosidades, ganharam simpatia pública e viraram ícones de garra e perseverança, heroínas nacionais. No começo, tiravam onda nos trópicos com homéricas goleadas, mas caíam ante as "gigantes" chinesas, norueguesas e americanas. Para cada mundial perdido, um choro por apoio e meses de esquecimento até o próximo compromisso importante. Promessas não cumpridas, mal-entendidos, crocodilagens e a eterna superação de um time que de zebra virou "pedreira" e agora quer ser grande. Mereceu ganhar ouro em atenas, faturou dois panamericanos e por fim, enfim, desbancou o antigo carrasco, candidato a freguês. Nosso Brasil também quer ser potência entre as meninas, e pode, se nós aqui deixarmos.





Torcerei por elas na decisão, claro, e ainda mais depois. Torcerei para não serem esquecidas. Para que a TV, empresas, federações, e nós, o público "pagante", não as deixemos de lado, ou viverão sempre comendo migalhas dos rapazes, apesar do esforço e glória alcançados.

Nos "states", o fenômeno é inverso. A velha zebra yankee da seleção masculina, ressurgida às copas de 90 para cá, mostra sinais evolutivos claros. Fez bonito em 2002, deu azar em 2006 com uma chave difícil e hoje consegue encarar o Brasil de Kaká e Ronaldinho quase de igual para igual. Não duvido que em alguns anos, os homens, e não as mulheres, sejam o sexo forte no futebol de lá. A pergunta é: Isso bastaria para popularizar o "soccer for men"? E aqui? Algo inverso ocorreria com um título feminino em copa do mundo?


Bom... Vamos aguardar.




texto também publicado no blog Fanáticos por Copa e no site Domínio Cultural



Saturday, September 22, 2007

Quem, afinal, é o alemãozinho doido????

Se você é macaco velho de youtube, já deve ter topado com um certo alemão paranóico que perde as estribeiras diante do computador e faz miséria com o teclado.

Esse aí de baixo. Lembra?



Pois é. O molequinho virou celebridade mundial e seu vídeo gerou trocentas versões e traduções alternativas com ele jogando
Mario Bros, Counter-Strike, ou usando seu teclado assassino para aniquilar um cantor árabe. Tais imagens geram gargalhadas mas também chocam, e não são poucos os que deixam mensagens atônitas, embasbacadas, depreciativas ou jocosas para algo que crêem ser verdadeiro. Teria o horror dos pais de família se sublimado num super-mega-hiper-doente viciado em Unreal Tournament?


Não, queridos! É até possível que existam moleques assim por aí e eu tampouco duvido que esse rapaz do video seja um carinha meio estranho, mas ele não está tendo um ataque real. O garoto é conhecido na rede, pelo menos em solo alemão, como "Slikk" ou "Der Echte Gangster" (O verdadeiro gangster). Seu famigerado vídeo tem fins políticos e foi elaborado como resposta a uma onda ideológica deflagrada por congressistas, intelectuais e educadores na Alemanha querendo banir os jogos sanguinolentos da molecada por vê-los como causa da violência juvenil que assola a nação.





Der Echte Gangster, discordante destes demagogos, resolveu ironizar sua argumentação interpretando um superlativo de seus temores e a performance teve efeito duplamente devastador. O espanto que se seguiu só valeu para fragilizar a opinião da crítica, expondo sua carência de sensatez por não perceber o engodo. The angry German kid não é o único video deste ativista disponível no youtube. Há uma série de outros, todos em alemão e sem legendas, onde mais mensagens políticas e sacanas talvez estejam sendo deflagradas (Vou saber?). "Slikk" também integra programas de rádio, shows de cabaré e tem fãs por todo o país.
Mais atuações do alemãozinho doido você encontra
aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e em outros endereços pela net e no youtube.

Ah! E se alguém quiser ver o moleque estourando o teclado enquanto torce para o São Paulo ou se empololga com o Rei Leônidas de "300", basta teclar
aqui e aqui.


Até Breve!




Tuesday, September 18, 2007

Cenas que você perdeu - Kill Bill (vol 2)

Aviso: Este texto pode conter SPOILERS

Quem viu atentamente o trailer de Kill Bill - Volume 2 deve recordar um trecho em que Bill (David Carradine) atira algo perfurante na testa de um inimigo e posa com sua espada vestido em trajes orientais. A cena faz parte do que seria o único aparecimento significativo do vilão em combate, já que sua luta final com a noiva mal teve tempo de se desenvolver. Como sabemos, o trecho não aparece no filme, e toda a seqüência de três minutos e meio que o envolvia também ficou de fora.

Não sei exatamente em que ponto do longa ela se situaria. Talvez no começo do capítulo VIII, antes de Bill apresentar Black Mamba ao Pai Mei. A cena em questão sucede num bairro pobre da China e conta também com a participação do ator
Michael jay White, que já interpretou Spawn e Mike Tyson, liderando uma gangue e jurando Bill de morte. Este até então passeava tranqüilamente com sua namorada Beatrix (ainda uma novata) quando é surpreendido pelo grupo assassino.


Confira, caso não tenha visto:



Trata-se também de uma pequena homenagem ao cinema chinês de ação "anos setenta" que lançou Bruce Lee e Carradine ao estrelato. Cortes e closes bruscos, mudanças súbitas no "clima" da cena acompanhadas por pequenos "jingles" de alerta, interpretação meio "forçada" dos atores, caricatural, no inglês mal dublado típico das versões "export" (enunciado então pelo personagem de White - ali representante-mor do gênero homenageado), evidenciam este intento do diretor.


Carradine, claro, mantém o tom suave de seu personagem, gerando um contraste interessante entre os dois.



Thursday, September 13, 2007

A "Escola Urbana" de literatura



The Great Scott Journal é um blog antigo. Sua última atualização é de abril de 2006. Descobri-o acidentalmente, graças a um texto postado em outro blog, com os devidos créditos concedidos. Desde então, passei sempre por lá, até o dia em que precisei trocar de Computador e não consegui achar mais o link. Procurei até no google (não sei se me lembrava do "journal"). Deixei de lado e segui em frente. Anteontem, remexendo velhos baús entre back-ups esquecidos, eis que encontro um notepad com o endereço do sítio. Acessei-o, deixei comentários e só mais tarde percebi que estava abandonado há mais de um ano.

Bom... Quem sabe volte? "Notícias do front III" é exemplo de que vulcões inativos podem jorrar lava novamente.

Mas, voltando ao Great Scott, fucei-lhe os últimos posts e me deparei com algo deveras interessante.

Segue então a postagem original, feita em 6 de março de 2005 (apenas três se seguiriam até o fim do blog).








Por Great Scott

Tenho reparado que existe um padrão que une a produção literária/quadrinística** de muitos aspirantes a autor que eu conheço - bem como as obras que estes consomem: Histórias que, segundo os próprios, são melhores por se dedicarem a falar do "cotidiano", da "vida real", "do mundo como ele é". Esses princípios acabam, muitas e muitas vezes, em obras simplesmente banais, cheias de personagens amorais levando vidas apáticas e seguindo a filosofia do "tu fez comigo, agora vou fazer com você, CARALHO".

(Ênfase no "CARALHO", já que tem que ter palavrão para ser moderninho, ou, como diriam alguns, "para ficar mais Tarantino" (mas aí não sobra esperança nenhuma)).

Pois bem. Já falei disso aqui uma vez ou outra, e não vou falar de novo. Quem vai falar é outra pessoa: Na seguinte coluna, Alexandre Cruz Almeida (hoje Alex Castro) revela-se observador desse mesmo padrão, dessa mesma linha de mediocridade, que batizou de
Escola Urbana em um artigo que observa o fenômeno bem melhor do que eu poderia. Leiam!




Como cheguei nisso?

Estava eu saltando de canal em canal quando vejo uma garota visualmente chamativa no programa da Marília Gabriela. Era uma tal
Clarah Averbuck. Ela começou a falar, descobri que era escritora. Descobri que tinha escrito um livro chamado "Máquina de Pinball". Não entendi o que diabos era isso pela entrevista, mudei de canal e esqueci o assunto.

Passando pela net, mais tarde, encontro o nome dela de novo. Entro no site e me deparo com um Layout moderninho, foto produzida da autora, meia duzia de links para textos. Li alguns... e decidi pesquisar para descobrir de onde diabos saiu tanto lixo radioativo!

A mulher publica, basicamente, seu blog. Fala sobre coisas que aconteceram com ela. E a vida dela é perfeitamente banal, e o que ela faz dessa vida nos textos, também. Como um blog! É um reality show em formato livro.

Ela coloca no site, como peça literária, um post de blog sobre como tal fulano ejaculou na boca dela e como o esperma dele era doce; E como os homens são clichês ambulantes, já que depois o cara acendeu um cigarro. Eh?!

Incrivelmente ruim. E descobrir que ela faz parte de uma "escola" informal é mais ruim ainda.
AINDA BEM que eu estava por fora disso.


"Realidade" é algo subjetivo, pessoal. E o SEU mundinho NÃO É a realidade, MESMO QUE o seu mundinho seja um "mundo cão" digno de realização dentro do sistema do lado B do cinema brasileiro. Se você está numa zona de guerra e escreve um livro falando sobre o cotidiano incomum da situação em que você se encontra, PODE SER que disso resulte num bom livro -- se você souber escrever, tiver pontos de vista e uma visão crítica interessante da situação, se você tiver capacidade de transpor para a página a realidade do mundo incomum que se observa. MAS, se você é MAIS UMA patricinha metida a "indie" querendo escrever um livro sobre suas baladas e bebedeiras...

Em outras palavras, se você for ruim, vai acabar falando sobre o seu mundinho -- o seu umbigo. Se você for bom e consciente vai partir do seu mundinho para falar sobre o mundão - sobre a condição humana como observada por VOCÊ, AGORA, AQUI DO SEU PEDAÇO. Essa é a diferença, na minha opinião. Novamente em outras palavras: O seu mundinho pode até ser a *realidade*, mas o que a arte deve buscar não é a realidade, e sim a VERDADE. A verdade humana. A sua verdade.**** Eu realmente acredito nisso.

"Sou mulherzinha, uso salto agulha, pinto as unhas(...). Sou mulherzinha, mas tenho bolas", diz Averbuck em algum lugar. Ou seja - "I've got balls", expressão norte-americana, quase nunca utilizada de forma expontânea em português. Dá para se enxergar bem o naipe "rebelde" da moça, não dá?

Ridículo. E aí está uma boa motivação para escrever: Escrever para tentar fazer algo decente, algo que não siga essa escola da mediocridade fashion pseudo punk das Clarah Averbucks e Fernanda Youngs da vida.

Triste.



** Sim, Quadrinhos também são literatura. Só estou dividindo "livros comuns" e "HQs". Ei, é sempre
bom deixar claro!


**** Batendo na velha tecla para quem chegou atrasado: Sim, Verdade Humana se encontra tanto em textos realistas quanto em textos fantásticos, mitológicos ou de ficção científica. Porque toda fantasia, mito ou especulação sobre o futuro saiu de uma mente humana, que por sua vez é fruto do mundo que a cerca e dos problemas e elementos diversos que compõem sua realidade. Óbvio? Para a maioria das pessoas, não é não!

Muitas e muitas vezes percorre-se um caminho parecido com isso:CRIANÇAS rejeitam tudo que não é fantástico; ADOLESCENTES rejeitam tudo que não é "real"; ADULTOS deixam essa visão limitada de extremos para trás e aprendem a apreciar o espectro completo da ARTE.





Voltando à nossa narração normal, enfatizo a relevância deste link para uma melhor compreensão do texto exposto. Neste outro link, Alex Castro tece comentários sobre Clarah Averbuck. Alex Castro é escritor e atualmente redige o blog Liberal Libertário Libertino.


Até breve


Tuesday, September 11, 2007

Boondocks sim, mas em espanhol???



Meu horário preferido do canal Sony é o de terça a noite, com as produções politicamente incorretas, onde rola até palavrão.

Dos cinco seriados exibidos na seção, apenas dois realmente me agradam. Um é
The IT Crowd, do qual pretendo falar mais neste blog. O outro é The Boondocks, uma série animada (a única da emissora) derivada de uma tirinha de HQ.

The Boondocks se passa num subúrbio classe média de Chicago onde dois garotos negros de personalidades diferentes passam a morar com o avô e precisam se adaptar às regras locais.

Desta relação entre protagonistas e demais personagens, os autores fazem paralelos com a sociedade americana, tocando em temas delicados, muitos deles relacionados à comunidade "afro-americana", sua interação consigo e com o resto do país.

The Boondocks é polêmico, provocativo, mas muito inteligente, reflexivo e engraçado. Segue uma linha mais ácida que a dos Simpsons, mas que não renega uma certa positividade, uma certa esperança por trás de todo o sarcasmo, ironia e iconoclastia inerente às situações.

Seus dois protagonistas mirins são quase que lados opostos de um mesmo sujeito social. Huey Freeman, que também narra os episódios, faz um estilo Lisa Simpson politicamente engajado, militante, inteligente e muitas vezes sozinho ante a insensatez de quem o cerca. Seu irmão mais novo Riley também é inteligente, mas muito sunceptivel aos modismos da midia e dos colegas. Ele representa a juventude negra que se perde nos cânones da mídia estereotipante.




Bom... gostaria até de ir mais fundo em minha análise sobre o "cartoon". Talvez faça isso em outro post. Hoje prefiro externar minha revolta com o canal Sony, que, por algum motivo estupidamente incompreensível, resolveu exibir Boondocks dublado em espanhol. No ínício, achei que alguém havia se enganado nos aparelhos e colocado a cópia errada para rodar, afinal, um comercial de minutos antes exibira cenas do mesmo episódio dubladas em português (como comumente ocorre ). Hoje, duas semanas depois, ligo a TV de novo e lá está um novo episódio em espanhol. O que foi? O cara se enganou de novo? A sony brigou com os dubladores brasileiros? Alguém lá dentro acha que Brasil, Argentina, México e Porto Rico é tudo a mesma bosta, que todo latino fala espanhol, e que se não fala, vai passar a falar?

Bom... amanhã estarei mandando um e-mail revoltado para eles


Se você ainda não conhece o desenho e está curioso, ele passa no Canal Sony Entertainment às terças-feiras às 21:30 e quartas às 1:30 da madruga.

Abaixo, um episódio completo do seriado em inglês. A qualidade da imagem é boa.



Até breve!!!




Monday, September 03, 2007

Resenha - Tropa de Elite - 2007



Não dá mais para segurar a avalanche. O filme Tropa de Elite, longa brasileiro dirigido pelo cineasta José Padilha com o apoio de ex integrantes da polícia, que tem como base um livro "quase" homônimo, escrito à três mãos, incluindo a do renomado antropólogo Luis Eduardo Soares, já se espalhou pelo Rio de Janeiro e território nacional antes mesmo de aparecer na telona. A produção deveria estrear em novembro, mas uma versão inacabada dela caiu em mãos erradas e virou cópia pirata, circulando aos milhares pelo mercado informal, depois internet, youtube, e, segundo uma certa fonte, quarteis da Polícia Militar. Atores até então desconhecidos, como o ex-bilheteiro André Ramiro, já são abordados na rua como celebridades.






Tropa de Elite pode ser nosso próximo "Cidade de Deus" em termos de repercussão nacional e internacional, pois ostenta bons ingredientes comerciais, é excepcional pelo ponto de vista técnico, possui um enredo impecável que esmiuça com ousadia, mas também um certo senso de justiça, o universo corrupto e desamparado da polícia militar carioca, onde um oficial precisa se virar ganhando "quinhentos contos por mês", correndo risco diário de vida, caso não fature "um por fora" ou não faça acordos com os donos do morro oferecendo tréguas esporádicas em troca do "arrego". O filme traça um perfil complexo e profundo do Rio de Janeiro, começando pelas relações internas dentro da polícia, que precisa achar um "jeitinho" de funcionar ante o descaso constante do governo e a sordidez de determinados elementos de alta patente dispostos a contaminar todo um sistema supostamente destinado à proteção do cidadão, transformando-o numa rede fraudulenta e corrupta onde o policial mais honesto e bem intencionado precisa passar por cima da lei para não sucumbir. Um desses policiais é André Matias, aspirante ao oficialato e estudante de direito. Através dele, o autor estabelece elos entre a guerra do tráfico e o mundo acadêmico da elite juvenil que discute sociologia carioca a partir de Foucault e não dispensa seu baseadinho enquanto o couro come lá fora; que recorre a ONGs para concretizar projetos de consciencia social, mas nem sempre se apercebe das reais questões inerentes ao submundo que ingenuamente almeja entender e influenciar, e que está inevitavelmente além (ou aquém) de suas realidades.



Tropa de elite não é um filme de mocinhos e bandidos; não busca apontar "certos" e "errados" na índole individual dos personagens mais do que ater-se às questões e poderes envolvidos no jogo de cartas marcadas que é a vida carioca. Quase todos os personagens, do mais honesto ao mais cruel, corrupto ou tolo, define-se como um elo, uma peça que muda constantemente de posição e, conseqüentemente, de papel e índole. Cada policial, cidadão ou bandido é um ser humano com uma história de vida particular.

Além disso, mesmo percorrendo o âmago da sordidez humana em busca de seus "porquês", o roteiro consegue fugir das típicas insinuações fatalistas de filmes semelhantes, quando, subconscientemente, envolve o espectador na guerra do tráfico, afirmando nas entrelinhas, e às vezes nas linhas mesmo, que somos todos parte dela, queiramos ou não. Ou nos omitimos, ou nos corrompemos ou entramos para a "guerra".



Uma das chaves para este anti-fatalismo é a perspectiva pela qual o Rio nos é esmiuçado. Quem conta a história é Nascimento, capitão da tropa alfa do comando de operações especiais da polícia militar, o bope, considerado por alguns o mais treinado esquadrão de combate urbano existente. Nascimento é inspirado numa figura real, o ex-capitão do Bope Rodrigo Pimentel, co-autor do livro Elite da Tropa e do roteiro do longa. Como Pimentel ou qualquer policial de carreira, Nascimento foi podado, esfolado e forjado nos confins do inferno, porém, diferentemente de tantos, tornou-se mais samurai do que demônio ou ovelha. Compreende que o Rio não é uma cidade de santos, mas se recusa a abandonar um certo senso de integridade que o ajuda a conviver com o caos. Ele e sua equipe são brutais, eficientes, implacáveis e assustadores como manda a função, mas virtuosos na medida do possível e orgulhosos do papel que exercem.



Numa era em que o cinema ocupa lugar de referência mítica do corpo social, Tropa de Elite consegue ser simultaneamente crítico e inspirador, analítico e ideológico, político e científico, realisticamente cínico, brutal, mas essencialmente otimista e engajado sem ufanismos. Seus personagens principais e coadjuvantes têm vida, falam por si enquanto o filme exerce opinião própria pelos protagonistas. Em suma, pontos de vista hegemônicos circulam entre diferentes "realidades individuais" que são expostas de modo elaborado o bastante para que possamos discordar constantemente de quem conta a estória, afinal, o próprio capitão Nascimento sofre pelos menos motivos.


Wagner Moura interpreta o capitão da tropa alfa.

Não posso também deixar de mencionar o ineditismo de um filme artisticamente relevante contado pela ótica militar, policial, um autêntico marco em nosso cinema, que aos poucos abandona a antiga postura revanchista pós-ditadura e também aquela velha ótica do oprimido intrinsecamente bom. Pré-determinar se os maconheiros de faculdade estão certos ou errados ao enrolar seu baseado é menos vital do que produzir referenciais múltiplos acerca da questão, mesmo no terreno da "alta-cultura", ainda dominado pela perspectiva "liberacionista" dos intelectuais. É bom saber que alguns deles estão arregaçando mangas, misturando-se com o cidadão comum e a realidade de "quem têm o pé no chão", passando-lhes o microfone e a palavra. Nosso Brasil ainda tem muito a ouvir do Brasil e o cinema pode ser um excelente canal.


Curiosidade:



Tal qual "capitão" Nascimento, o personagem André Matias é também inspirado num agente do Bope. André Baptista é o terceiro autor de Elite da Tropa e, como Pimentel, participou do documentario Ônibus 174, também dirigido por José padilha, concedendo declarações sobre o incidente retratado. Na ocasião, era ele quem chefiava o cerco policial e as negociações com Sandro Barbosa enquanto este ameaçava reféns dentro do ônibus. Se de 2002 (ano do documentário) para cá Bapstita podia ser visto com certa antipatia pelo trágico desfecho da operação ou pelo modo inclemente como se referia ao sequestrador, sua imagem pública tenderá a mudar após "Tropa de Elite".

De um jeito ou de outro, pretendo ir ao cinema assistir à versão final e incentivo quem já viu o filme a fazer o mesmo por vários motivos. Entre eles, o fato da versão corrente sequer estar finalizada; há falhas óbvias de acabamento em alguns cortes. É provável que vejamos cenas inéditas e até um desfecho diferente na versão final. Além disso, Padilha e os demais envolvidos merecem reconhecimento pelo grande trabalho que fizeram.




Neste trecho de 10 minutos do filme Ônibus 174, pode-se ver André Baptista e Rodrigo Pimentel concedendo depoimentos


Mais curiosidades:

O ator André Ramiro (que interpreta Matias) já foi escalado para um longa ficcional de Bruno Barreto sobre o incidente do 174, que retrata o mesmo tema documentado por Padilha em 2002. Ramiro fará o próprio André Baptista, embora no filme ele deva se chamar Souza. Baptista coordenou pessoalmente o trabalho do ator.



André Ramiro reconstitui as negociações entre Baptista e Sandro Barbosa no novo filme de Barreto.

Para quem leu este texto inteiro e ainda não viu o filme, não se preocupe. Pouco revelei sobre o enredo e as surpresas reservadas por Padilha nessa versão inacabada, e, não, não comprei cópia pirata do filme. Qualquer um pode assistir Tropa de Elite na íntegra pelo
youtube ou baixando na grande rede.


Links para o orkut dos atores do filme André Ramiro, Paulo Vilela, Fabio Lago e Rafael Teixeira.




texto tembém publicado nos sites Recanto das Letras e Domínio Cultural.

Tuesday, August 28, 2007

Pérolas do youtube (1) - Chad Vader e Troops



Está aberta neste blog a sessão "Pérolas do youtube". Além dos artigos já conhecidos, e que, prometo, tornar-se-ão mais freqüentes a partir de hoje (estive um pouco ocupado nos últimos dias), "notícias do front" pretende desbravar esta nova maravilha da net atrás de raridades, cenas antológicas, e novos talentos que têm hoje uma poderosa ferramenta para mostrar seus trabalhos.

Começaremos com duas paródias de Star Wars. A primeira é uma deliciosa série onde o protagonista é um gerente de supermercado de nome Chad Vader. Trata-se do irmão caçula de Darth Vader, que infelizmente não ostenta a fama ou prestígio deste último. Imagine Darth (ou melhor, Chad) Vader com seu uniforme high-tech típico, máscara, voz e trejeitos costumeiramente sombrios, trabalhando como gerente diúrno num supermercado abarrotado de figuras estranhas, ou marcando um jantar com a bela moça da caixa- registradora.
Trabalho altamente criativo que já rendeu aos autores aparições em renomadas revistas dos Estados Unidos. Vale à pena conferir, e com legendas. O link abaixo é para a primeira de 8 partes da primeira temporada.






A segunda pérola é uma dupla paródia. Os autores fazem uma versão "star wars" da famosa série cops, substituindo os patrulheiros uniformizados por Stormtroopers do império. A qualidade do material e as interpretações são muito boas, com direito a efeitos especiais e "revelações bombásticas" sobre personagens da série original. Também legendado. Vale à pena conferir.




Até daqui a pouco.

Thursday, July 19, 2007

Erros e acertos do Brasil na Copa America 2007



Não é segredo para o maior leigo em futebol que a seleção brasileira teve um pífio começo nessa competição, algo enfatizado em meu último post. Um time mal convocado e mal escalado que, diferentemente de 2006, conseguiu encontrar uma combinação competitiva e um conjunto na hora certa. Se tudo esteve a ponto de dar errado em diversas ocasiões neste torneio por vacilos do treinador e de alguns atletas, não podemos ignorar também seus méritos. O esforço e a aplicação tática de jogadores dedicados, inteligentes, capazes de elevar suas claras limitações técnicas ao limite máximo da eficiência. Se não ostentaram o talento diferenciado das estrelas ausentes, compensaram nos fundamentos que nelas sempre faltam, mostrando que é possível também vencermos pelo conjunto, pela tática, força física, estratégia, repetição e conhecimento do adversário. Fizemos domingo com a Argentina mais ou menos o que a França fez conosco em 2006. Fomos o antídoto contra o veneno deles. E nisso entram também, e muito, os méritos de um treinador que tem muito a aprender, mas já dá sinais de uma nova visão para nosso futebol.



Não pense você que sou dos que imaginam um futuro sem Ronaldinho, Kaká ou mesmo Ronaldo. Precisamos e sempre precisaremos de estrelas. Todo time grande precisa, e Dunga não é idiota em achar que conseguirá manter uma seleção do nível desta que disputou a copa américa nas eliminatórias, seleção que só fez uma grande partida em todo o torneio, que dependeu de um penalty chutado na trave e outro com o goleiro absurdamente adiantado para seguir adiante e poder fazer sua despedida de gala.



Esta copa america me alegrou por tudo de novo que Dunga e sua mentalidade poderão trazer ao Brasil, ainda que ele não permaneça no cargo até 2010, todavia, não podemos, como na copa das confederações de 2005, qualificar um elenco pela performance de uma partida, ou correremos o risco de tomar outra vez o susto da última copa.



Triunfos como o do Internacional sobre o Barcelona ou o do Brasil B sobre a Argentina A acontecem quando se tem consciência da necessidade de conhecer seu adversário e elaborar métodos para neutralizá-lo, pensar no antídoto contra o jogo dele antes que se desenvolva o próprio jogo ofensivo. Quando se reconhece o poderio do oponente e as próprias limitações - E o Brasil, como qualquer outra seleção, sempre teve limitações, por mais estrelas que ostente em campo - minimiza-se a possibilidade de amargas surpresas pelo plano A ou B do adversário. Muitos cronistas, técnicos e torcedores insistem em avaliar futebol tendo uma mentalidade clássica como referência, onde técnica, criatividade e talento individual bastam para se ter um grande time. Jogar bem numa partida implica também em não deixar o outro jogar bem, em destruir a criatividade do outro para que se tenha um campo fértil onde fazer fluir a própria criatividade. Essa lição, freqüentemente esquecida por nossos entendidos dentro e fora das quatro linhas, é esporadicamente lembrada em momentos de crise ou quando estamos diante de um adversário reconhecidamente forte como a Argentina. Não é a toa que os vencemos 4 vezes nos cinco últimos confrontos, com direito a 3 "chocolates".


texto também publicado no blog Fanáticos por copa

Monday, July 02, 2007

Time bamba de um homem só




Já faz quase um ano que este blog nada menciona sobre o assunto futebol. Passado o fiasco de 2006, fica o legado do erro, que as vezes se mostra pior do que este erro.

Como já cansei de escrever aqui, escapamos dessa sina em 2002 ao vencer a Bélgica nas oitavas de final em uma partida que deveríamos ter perdido em função de um simples erro de escalação. Se Marcos não fizesse apenas um dos milagres que executou, ou se o árbitro validasse o gol legítimo de Wilmots no primeiro tempo, talvez Parreira se visse forçado a mudar o time todo tão logo assumisse o cargo em vez de dar continuidade à geração do penta. Seríamos hexa? Não sei. Certamente não passaríamos pela eliminatória com a facilidade com que passamos.


Hoje, 2007, testemunhamos a repetição do dilema de 90. Faz-se uma faxina nas más lembranças de 2006. Renova-se a todo custo, acreditando no falso folclore de que o futebol brasileiro possui talentos infinitos. Eterna inverdade.


Não acho absurdo ver um Brasil severamente desfalcado nessa copa América, visto que a história se repetiu nas últimas duas edições do evento. O que me aflige talvez esteja mais em certos erros de escalação e posicionamento que não precisavam existir.


Não me lembro de uma seleção brasileira desprovida de cobradores de falta e de penalti. Robinho (confesso não saber se ele bate penaltis com regularidade pelo real madrid, mas sei que isso não lhe ocorre na seleção) olhou para os coleguinhas e viu que ninguém a sua volta se destacava como exímio chutador de penalidade. Pensou em Ronaldo, Ronaldinho, Alex e Rogério Ceni e viu que só tinha ele ali. Assumiu o risco e quase se deu mal. Bateu pessimamente, mas pôde contar com a sorte.

Nossos laterais nos fazem ter saudades da dupla Cafu e Roberto Carlos em seu auge, não a de 2006, já decadente, mas a que brilhou entre 98 e 2004. Gilberto e Maicon estão longe de ostentar o poderio e a presença dos predecessores.

Wagner Love nos traz saudades do Ronaldo magro. Anderson e Elano são esforçados, correm, marcam, cooperam, mas falham no que o futebol brasileiro sempre se destacou: o refinamento com a bola nos pés, o diferencial que faz o Brasil Brasil. Disso, só resta Robinho, possivelmente único a sair por cima entre os amarelos quando este torneio terminar. Aproveitou a ausencia de estrelas para engrandecer seu brilho e presença entre os demais, relembrando-nos do que poderia ter elaborado contra a França se entrasse mais cedo em campo e gerando até elocubrações sobre um futuro como capitão da equipe. Por que não?

Para o treinador Dunga, cujo potencial e visão sempre me agradaram, mas que ainda pagará pela inexperiência no cargo, ficarão as lições, caso continue comandando o Brasil.


texto também publicado no blog Fanáticos por copa



Saturday, May 12, 2007

Sobre comparações entre Rap e Funk no Brasil

Hoje a noite, o canal GNT da net exibirá um documentário sobre o funk do Rio de janeiro, estilo musical das favelas bastante criticado pela natureza chula, simplória e apelativa das letras.

Há cerca de um mês, o mesmo assunto foi tema de um debate orkutiano num forum de que participo. Entre opiniões favoráveis e depreciativas, comentei sobre um lado da questão que me parece pertinente sempre que me deparo com certas comparações constantemente feitas entre o funk e outros ritmos nascidos das classes menos favorecidas. Segue o comentário.




Lembro-me de uma participação da negra Li na MTV, em que, perguntada por Penélope se ela, como cantora e como mulher negra, se sentia, de alguma forma, representada em manifestações como o funk carioca; Negra Li até admitiu que gostava do ritmo, mas alegou não se identificar com as letras. Noutro programa, João Gordo criticou Mr.Catra, alegando que suas letras não diziam nada, comparando-as às dos Raps dos guetos de SP, que são mais inteligentes.Aliás, é comum fazerem esta comparação entre o funk "burro" das favelas cariocas e o rap "inteligente" dos guetos paulistas. Posso até concordar em parte com algumas dessas colocações, mas acho injusto cobrar do funk, por exemplo, um comprometimento social ou uma intelectualidade na composição das letras. Confesso que não entendo de música então me perdoem se digo alguma asneira, mas a impressão que tenho é a de que o rap é essencialmente letra com ritmo, ou seja, VOCÊ DIZ ALGUMA COISA musicalmente. O Rap é político na própria essência, e o rap de SP me parece ainda bastante ligado às origens do rap essencialmente político e contestador que explodiu nos states ao fim dos anos 80 e início dos 90.



O funk do rio é uma coisa mais dançante. É ritmo com (ou sem) letra, ou seja, a letra está lá para trabalhar para a batida, que é verdadeira essencia da coisa. Pode-se fazer um funk intelectual ou político, como os daquela cantora estrangeira MIA (acho que é esse o nome), por exemplo, mas ele será sempre mais dançante e vibrante do que discursivo, racional ou reinvindicador. Cobrar isso do funk, tendo o rap ou o punk rock como parâmetros, é ignorar certas diferenças fundamentais na própria essência e vontade intrínseca desses estilos.Claro que as letras do funk poderiam ser, digamos assim, menos toscas e repetitivas do que aquelas que conhecemos. Na verdade, há grupos de funk que já se enveredam por outras vertentes (como tb já houve lá nos primordios do estilo). Uma vez ouvi uma letra de funk bem simples, mas muito engraçada, sobre um dia de cão na vida de um sujeito (acho que era isso), e ai pensei: Talvez esse seja um caminho para esse funk moderno sem ter de apelar tanto para a putaria desenfreada e as repetições sem sentido, mantendo a simplicidade e a natureza da coisa. Não sei....



A impressão que tenho é a de que o funk faz uma espécie de política às avessas. Ele não realiza reinvindicações sociais diretas e nem brada por mudanças profundas como faz o rap nacional, como também não procura estabelecer elos mais pacíficos e construtivos com o mundo dos "incluídos" como no caso do samba, do reggae e do pagode. O funk me parece uma espécie de vingança dos excluídos, que hoje nos alimentam, nos chocam e nos contagiam com o fruto do crime que cometemos por décadas. Se os rappers falam de problemas sociais, os funkeiros os mostram nus e crus no próprio fruto de sua "arte". "Gostou não, preiboy! Então toma que o filho é teu!"O funk encarna uma faceta de nossa era que não pertence apenas à favela. Não é a toa que faz tanto sucesso com a classe média, pois uma grande parte dela nada em lagos semelhantes, afinal, a miséria de nossa era não é apenas material ou cultural, é ideológica, espiritual, emocional. O funk, como tantas manifestações de nosso tempo, representa uma espécie de escárnio aos ideais modernistas de progresso. O funk não está preocupado em resolver problemas porque aprendeu a viver dentro deles e hoje enxerga nossas "soluções" como empecilhos. O funk não lida com grandes narrativas coletivas, mas lutas particulares de sobrevivência. Sequer depende da aceitação da classe média, pois sempre teve um grande mercado auto-sustentável em seu terreno de origem, e por isso sobrevive a qualquer modismo, ressurgindo das cinzas sempre. O funkeiro é um sujeito que está cagando para nossa caridade, nossos valores, nossas regras, nossa moral. Aprendeu a viver sem elas.



Sunday, May 06, 2007

Xuxa politicamente correta

Navegando pelo Youtube como de costume, eis que me deparo com trechos do programa que Xuxa Meneghel fez para a TV americana em meados de 93, nos tempos em que tentava ampliar seus poderes de rainha para o lado saxônico do continente, e, conseqüentemente, para o resto do mundo.



(Alguns trechos do "Xou da Xuxa" americano (lá chamado apenas de "Xuxa") podem ser encontrados aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui)

Pouco sei sobre detalhes deste programa. Pelos videos postados, vemos que o show procurava passar um clima de aldeia global, com bandeiras de vários países tremulando em meio ao público infantil. Seu formato e características não diferiam muito daquele com o qual nos acostumamos anos antes. Personagens em forma de bicho, brincadeiras de palco, crianças em volta, paquitas. Um urso panda dividia o palco com a apresentadora, assumindo o microfone na hora de fazer explicações mais complicadas sobre as brincadeiras, já que xuxa ainda não dominava totalmente a língua inglesa.

O que mais me chamou a atenção foi a forte diversidade racial do programa, significativamente superior àquela vista no Brasil, contando, inclusive, com a presença de uma paquita negra. Sabemos, claro, não se tratar de uma diversidade espontânea, mas meticulosamente premeditada para angariar simpatia das "minorias" e preencher requisitos politicamente corretos para elaboração de material infantil em solo americano. Mesmo assim, este quadro étnico - tão diversificado quanto o quadro étnico populacional brasileiro - não deixa de nos parecer incomum, visto que não estamos tão acostumados a vê-lo refletido em nossas telinhas. A multiracialidade de programas como o "Xou da Xuxa" na versão nacional tinha tendencias caucasianas, "pró-claras", paquitas brancas e loiras, crianças negras sendo sempre exceções em volta do palco. O racismo da TV nacional revela um ideal estético pós-escravista, ainda arraigado em preceitos coloniais, um brasil "mítico" mais branco do que negro, mais claro do que escuro, mais "europa morena" do que "indo-áfrica clara". A TV e a publicidade, ao contrário do cinema, não buscam alcançar verdades, mas alimentar mitos, aspirações ainda fortes no inconsciente coletivo de nossas classes média e alta, sonhos que acabam por contaminar também a mente dos desfavorecidos, rejeitados por uma multiracialidade que se quer mais clara, de olhos mais verdes, mais azuis, com cabelos mais lisos; a multiracialidade de "caprichos", novelas, "playboys" e "coleguinhas" do Luciano Huck, uma miscigenação que pouco condiz com as reais proporções étnicas da nação.



O Brasil da TV exalta o Brasil da realidade como algo abaixo dele, algo para ser reverenciado enquanto ocupa seu devido lugar de notícia de jornal, documentário, "agora ou nunca", "o povo fala" e "se vira nos trinta". Na telinha, a representatividade estética do "povo" só ganha status de maioria quando participa como "povo", virando exceção ou "acessório" no terreno dos grandes referenciais de desejo coletivo, o que só contribui para minar a auto-estima e os sonhos daqueles que se vêem pouco refletidos no "mundo ideal da TV".

Mudanças significativas vêm ocorrendo nesse sentido durante a última década, inclusive no que diz respeito ao trabalho da "rainha dos baixinhos", mas tais progressos são pequenos perto do que ainda precisa ser elaborado. Sabemos o quanto falta para nossa diversidade "espontânea" da TV atingir níveis ao menos próximos de nossa realidade e, ironicamente, da multiracialidade fictícia que alguns canais americanos politicamente corretos propagam.

(Alguns trechos do "Xou da Xuxa" nacional podem ser encontrados aqui, aqui, aqui ou aqui)